Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado

André Albuquerque.

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  1. Este texto levanta uma questão pertinente, ligada à formação e à capacidade de mudança.

    Vou falar do meu caso pessoal. Tal como o André, também eu optei quando mais novo por uma área ligada à cultura, a saber a História. Não para fugir à Matemática, mas por gosto. Licenciei-me, tirei Mestrado e Doutoramento e 15 anos depois cheguei à conclusão de que nenhum daqueles três diplomas me valia de nada quando chegou a altura de arranjar emprego. As empresas não contratam historiadores, praticamente não tenho experiência de ensino, não tenho nenhuma cunha numa câmara e enquanto doutorando privilegiei mais o conhecimento académico do que os conhecimentos pessoais. Restavam-me duas opções: ou me punha a chorar e a culpar o governo ou tentava mudar. Inscrevi-me então num curso profissional (pago inteiramente por mim) numa área completamente diferente da da minha formação inicial. Quando muita gente estava nas manifs a gritar palavras de ordem, eu estava em casa a estudar. Hoje a História é um part-time e muito em breve nem isso (não a coloco de lado, mas praticamente não tenho esperanças de voltar a trabalhar a tempo inteiro nesta área). Não ganho milhões, mas tenho algo que há um ano não tinha: perspectivas e esperança no futuro.

    A decisão de escolher um curso superior ou um caminho profissional, seja ele qual for, é perfeitamente legítima. Igualmente legítimo deve ser porém a responsabilização pelas próprias escolhas. Eu escolhi um curso com empregabilidade muito reduzida e com poucas ou nenhumas oportunidades fora da esfera do Estado, sem prejuízo do alto valor que a História enquanto área do saber tem (não é isso que está em causa). Igualmente o fez o André. Se, chegada a altura de arranjar emprego, eu não consigo trabalho, a culpa é do governo? Talvez, mas numa segunda ordem. A culpa, em primeiro lugar, é minha porque escolhi um curso sem empregabilidade. Dir-me-ão que o Estado podia investir mais na cultura. Perfeitamente de acordo. E se calhar com esse investimento extra, eu e o André até arranjávamos emprego nas nossas áreas de formação inicial. Mas se o Hugo e o André não se queixassem, queixavam-se o Bruno e o José. E a Ana e a Helena. E o João e a Maria, porque situações como a minha e a do André existem aos milhares e o Estado simplesmente não pode nem deve dar emprego a todos os actores, historiadores, filósofos, sociólogos, arquitectos, engenheiros, enfermeiros, etc. deste país.

    O que nos leva a outra questão: se a sociedade portuguesa já tem profissionais de certas áreas a mais, para quê continuar a gastar dinheiro a formar mais gente nesses campos? Não conheço a realidade da representação, mas em História, só no ensino público há mais de 300 vagas para novos alunos por ano. Estoura-se dinheiro neste e noutros cursos e: não é por isso que o conhecimento nestas áreas aumenta ou conhece maior divulgação; a sociedade portuguesa nada retira desse investimento, porque esses profissionais não exercem; estes profissionais, por seu lado, vêem-se com 20 e poucos anos com um diploma e com competências que não lhes valem de nada e têm de tentar a sorte noutras áreas, nas quais têm de competir com pessoas com conhecimentos mais especializados; muitas vezes o Estado gasta mais dinheiro a “reciclar” os conhecimentos desses jovens quando os podia encaminhar para outras áreas “in the first place”; no caso das bolsas de investigação, o Estado manda os doutores para o desemprego, mas investe em mais bolsas de doutoramento para formar mais doutores (para disfarçar o desemprego entre os jovens licenciados), que quatro anos depois vão para um desemprego imerecido e angustiante porque desprovido de perspectivas…

    Toda a gente tem direito à manifestação e ao desagrado, mas creio que antes de nos manifestarmos devemos também pensar nas razões que nos levaram à situação contra a qual protestamos. E creio que é um sinal de maturidade assumir os nossos próprios erros e não culpar sempre essa entidade abstracta que é o governo e além disso reconhecer que a situação que nós consideramos ideal simplesmente não é exequível. Exigir o impossível só é razoável no campo da retórica.


  2. Há uma pessoa cá em casa que ,quando olha para trás ,chora de desgosto, por não ter aprendido a ler e escrever, porque teve de ir arranjar trabalho em vez de estudar, ainda em idade quase infantil !!! Era a vida…Será que devemos culpar, á época,SALAZAR???Aí o respeitinho, e cabeça baixa é tão lindo.
    Toda uma treta de argumentação, só para dizer que é contra quem se manifesta. É isso que o move. Vá lá, ao menos não foi ensinar “História”…tem razão, que perda de tempo.

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