Cursos Vocacionais

Nuno Crato não é tão incompetente como alguns querem fazer crer. Sabe o que quer e está a tratar de desenvolver a política certa para a sua missão: reduzir a Escola Pública ao espaço de formação das classes trabalhadoras, deixando à esfera privada a formação das elites e da classe média que, diga-se, está cada vez mais pequena.

Só assim se entendem os cortes, brutais, na Escola Pública ao mesmo tempo que se investe mais nas Escola Privadas – no orçamento para 2014 aumenta o dinheiro disponível para os colégios.

Na mesma linha de desinvestimento na Escola Pública segue a opção de Nuno Crato pelos cursos Vocacionais. Começaram por ser uma experiência piloto (pdf) que, sem qualquer tipo de avaliação, se generalizaram.

Os cursos vocacionais são uma espécie de tapete onde, por baixo, se esconde o lixo. Escrevendo de forma simples, é assim: pegam nos piores dos piores, aqueles alunos com 2, 3 ou mais retenções, colocam-se todos na mesma turma e seja o que Deus quiser. São cursos ao nível dos 2º ou 3º ciclos, que neste último ciclo, substituem os cursos CEF.

Normalmente estas turmas, autênticos barris de pólvora, ficam para os professores menos experientes e nem sequer há programas para as disciplinas – os professores além da tarefa, impossível de, tentar ensinar alguma coisa a um grupo de pré-marginais, têm que fazer os programas e todos os materiais necessários para trabalhar. Claro que, num contexto de desemprego, os mais novos aceitam tudo a troco de uma migalhas.

Acontece que esta estratégia política, absolutamente errada,  tem um mérito – limpa as outras turmas e atira apenas para alguns o problema. Se antes havia 30 índios espalhados por 30 turmas, com todos os professores e pais dessas turmas em contacto com o problema, agora temos uma única turma, meia dúzia de professores e …

Até parece que o problema desapareceu – os Professores dos Vocacionais sabem que não desapareceu e até piorou. As Direcções também e o Ministro também.

Digamos que é pegar na estratégia dos bairros sociais no âmbito das grandes cidades – atira-se o problema ali para o canto e siga a rusga.

Curiosamente, a lista dos cursos vocacionais tem o nome de muitas escolas. Mesmo muitas, mas públicas.

Depois, há um detalhe final – o que podem fazer, do ponto de vista escolar, os alunos que terminam o curso vocacional?

Comments


  1. Reblogged this on Nuno Anjos Pereira.

  2. nightwishpt says:

    Cuidado com o “pré-marginais”, é preciso é não terem essa como a única carreira possível.


  3. Acho que fazer uma divisão entre “classes trabalhadoras” e “elites”/”classes médias” é algo de muito infeliz e revelador de uma enorme incapacidade de ultrapassar o preconceito típico da esquerda mais retrógrada. As “elites” e as “classes médias” também trabalham e portanto também podem ser consideradas classes trabalhadoras.

    Em relação aos cursos vocacionais, não posso falar porque não sei o que são e pelos títulos dos cursos no pdf que anexou fiquei a perceber o mesmo. Se o objectivo é pegar nos miúdos que se estão a borrifar para as aulas e pô-los a aprender uma profissão, não podia estar mais de acordo. É útil para esses alunos, porque dá-se-lhes um objectivo e um rumo e é útil para os outros alunos, porque perdem elementos perturbadores nas aulas, que não aprendem nem deixam aprender. Pergunto-me apenas se esses cursos atingem este objectivo ou se se resumem a arranjar um tacho a dúzia e meia de gatos pingados. Mas quando olho para a dita lista e vejo cursos como “Arte Régio” ou “Eco-Design” (!!!), penso que se tratará mais do segundo caso.


  4. Meu caro Hugo, obrigado pelo comentário. As expressões que se usam num post têm que tornar breve o conteúdo e rápida a mensagem. Não dá para fazer grandes desenhos. Pelo que comenta depois, creio que percebeu onde eu queria chegar. Depois e em relação aos cursos, é claro que putos mal educados, indisciplinados, que não trabalham, etc.. etc…etc…, com 14 ou 15 anos não vão aprender profissão nenhuma num contexto igual ao da escola que eles recusam. Ou seja, eu até concordaria consigo, agora, pegar nos “cromos” todos e juntar na mesma página da caderneta é fazer uma colecção que não faz sentido, nem tão pouco é eficaz. Os nomes que refere, quase sempre surgem de uma necessidade criativa de nomear algo, nada mais que isso. Na prática, são todos iguais, com mais ou menos sal… E, todos, sem excepção, servirão para NADA!
    JP

    • Telma Vidago says:

      Atenção, no caso concreto da minha turma do vocacional, tenho “crianças” de 18 anos a fingir que tentam fazer o 7.º e 8.º ano num só ano… Há dois ou três alunos que querem trabalhar, para os restantes as aulas são o local ideal para fazer barulho, grunhir, dançar e gozar com a cara dos “eleitos” que dão aulas a estes bichinhos…


  5. Meu caro Hugo, sou professora de português de um curso vocacional. Sou professora do quadro ,para mim não se trata de um ” tacho”, dois blocos de 90 e outro de 45 mns. Convido o Hugo a ir dar aulas a esta turma durante apenas uma semana. Assim poderá tirar ilações mais concretas e certamente deixará de utilizar o termo “tacho”. Atenciosamente.
    M S


    • Estimo que assim seja e que o governo não gaste mais dinheiro se pode usar os professores que já tem sem aumento de despesa. Resta saber se esses cursos valem para alguma coisa (ou seja aprender uma profissão e arranjar emprego) ou se são só fogo de vista.


  6. Ó meu Huguinho mas que idéia tens tu do que é lecionar?Mais despesa??? E se te fosses foder?


  7. És tu Doutorado em História?Qual?Realmente a Educaçao está finita….se o parâmetro és tu!!!!!Livra!!!


  8. São cursos para encher chouriças.

  9. Virgínia says:

    Preciso de um exemplo de programa de HGP para um curso vocacional de 2º ciclo. Alguém me pode ajudar?

  10. kika says:

    voces falam mal dos cursos vocacionais que só tem alunos que naõ querem estudar! tudo bem mas tmabem dever aul nos empenhado e motivados nessa sala russa s! nesses deve ser dar o apoio

Trackbacks


  1. […] muito se escreveu sobre os cursos vocacionais e o que há para escrever servirá apenas para tornar ainda mais negras […]

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