A gaiola sombria

Motivos profissionais trazem-me, vezes sem conta, a esta “gaiola dourada” que é o Luxemburgo, um pequeno país onde toda a gente parece transbordar dinheiro e iPhones. Um paraíso do consumo em massa onde, ao contrário de Portugal, existe muito estado social e pouco sol.

Até há bem pouco tempo, o Luxemburgo era um oásis para emigrantes de todas as nacionalidades que procuravam uma vida melhor. A maior comunidade no país é a portuguesa (estima-se que sejam cerca de 90 mil – aproximadamente 16,4% da população total – números que não terão em conta todos aqueles em condições ilegais e os milhares já naturalizados luxemburgueses) e a nossa presença faz-se sentir um pouco por todo o lado: em cada esquina podemos ouvir a nossa língua, comer uma francesinha, beber uma SuperBock ou tomar um café decente, algo que não abunda por essa Europa fora.

Acontece que, como tudo na Europa, também o Luxemburgo está a mudar. Por estes dias, durante a minha habitual caminhada pós-jantar, deparei-me com algo que nunca tinha visto: na zona da Gare du Luxembourg (estação central da capital), dei de frente com um considerável amontoado de pessoas que, debaixo de um frio de rachar, por ali tentavam pernoitar. Vi pelo menos dois casais com crianças pequenas. Fiquei perturbado quando percebi que quase todos falavam português.

Confesso que fiquei chocado mas não admirado. Na era do totalitarismo austero que destrói a Europa, a torneira Luxemburguesa está a fechar e a gaiola dourada passou a ser apenas uma gaiola. Conhecidos e colegas de trabalho que por cá tenho vão-me contando histórias de cada vez mais portugueses que, desesperados e sem condições para uma vida digna em Portugal, se atiram de cabeça numa aventura no grão-ducado e que, quando cá chegam, se deparam com um cenário em que os empregos não existem e onde a concorrência é cada vez mais feroz e qualificada. Muitos acabam por perceber que largaram o pouco que tinham em Portugal pelo nada que agora têm no Luxemburgo.

A gaiola dourada transforma-se, aos poucos, numa sala de pânico onde os emigrantes com dificuldades de integração colocam os integrados numa situação de pressão. Para além do aumento das remessas enviadas para Portugal, onde familiares passam por dificuldades imensas que os emigrantes residentes tentam colmatar enquanto vão fazendo o seu pé-de-meia para a reforma, surge agora esta vaga de “inadaptados” que dependem da casa, comida e caridade em geral da comunidade portuguesa residente no Luxemburgo.

São as ondas de choque de uma política económica errada que está a destruir o sonho europeu. Quando se chega a este ponto num país como o Luxemburgo, é tempo que nos questionarmos seriamente sobre para onde caminha este projecto chamado União Europeia. O cenário é o de uma gaiola cada vez mais sombria.

Comments


  1. É verdade. O sonho europeu está a transformar-se no pesadelo europeu. Será que ainda é possível retomar o sonho?


    • eu acredito que é possível mas precisamos urgentemente de uma nova geração de dirigentes capazes de encontrar novos caminhos para a Europa. precisamos também de regras bem definidas que protejam a União da arbitrariedade dos mercados e dos predadores financeiros e que substituam a actual vassalagem que caracteriza a relação. Somos a Europa, potencial não nos falta, falta-nos liderança!


  2. Infelizmente não é só no Luxemburgo. Já vi portugueses aqui em Toronto a pedir esmola na rua.

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