A banca ganha sempre

A notícia dá conta de que o Tribunal da Relação de Évora decidiu que a entrega de um imóvel ao banco não extingue o empréstimo para habitação quando a venda do imóvel é inferior ao valor em divida, e ordenou a penhora de salários.

Sem conhecer o caso, e apenas com base no que a notícia conta, constata-se a perfeição do sistema, qual engrenagem sofisticada de relojoaria suíça. Reparem: foi o próprio banco, o BCP, a comprar a casa que os antigos proprietários não podiam continuar a pagar. E como era o único interessado, comprou-a, claro está, abaixo do valor do empréstimo e até abaixo do valor da sua própria avaliação. Resultado: os devedores ficam sem casa, com uma dívida de 25.500 euros e os salários penhorados.

A cereja em cima do bolo: o valor do processo não permite recorrer para um tribunal superior.

Caso encerrado, a banca voltou a ganhar.

Foto: André Pais

Comments


  1. Se a casa vale menos que o valor da dívida, porque razão teria o banco feito um empréstimo por um valor alegadamente superior? E porque razão querem os contraentes pagar juros sobre um valor de que, afinal, não precisavam?

    Ou isto não é bem assim?

    • nightwishpt says:

      Os bancos quando ficam com a casa pagam muito menos do que uma pessoa paga quando a vai comprar.


    • Quando os bancos aceitam receber as casas de quem contraiu o empréstimo fazem uma reavaliação do imóvel. E, em geral, o valor da reavaliação é inferior ao da avaliação inicial. Isto implica que quem contraiu o empréstimo e devolve a casa fique obrigado a pagar a dúvida que resulta da diferença desse valor.

    • sinaizdefumo says:

      Os bancos sõm munto dos questumes e tradiçõns. Ora, era questume eles avaliar as casas por valor munto suprior ò real qu’era por mor de nos emprestar o máximo possible. Eles fazium isso no nosso intresse “leve mais algum, faça férias, compre um carro” (houverum alguns que aproveitarum e arranjarum um(a) amante). Enfim erum gaijos porreiros. Sempre recusei gracilmente tanta generosidade mas admiravòs, gente boa, pronta a ajudar. Estes problemas que agora sucede derivum dos tais questumes e tradiçõns. Diz a tradiçõm quo banco nos empresta qando num nos faz falta e nos exige coiro e cabelo qando a gente mais precisa. Ficar co as casas por tuta e meia é outro questume “a banca ganha sempre”. Pra isso a lei favorece sempre esses e outros grandessíssimos filhos da pátria.

    • Hugo says:

      E porque aceitaram as pessoas as condições do empréstimo, sabendo que havia possibilidade de não as conseguirem honrar, e não optaram por arrendar uma casa em vez de a comprar?

      • nightwishpt says:

        Porque pagavam mais e estavam na rua uns meses mais cedo.
        Não tinham a dívida, é verdade, mas no capitalismo vale tudo, certo?

        Claro que sem dívida não havia crescimento, mas isso são pormenores.


      • E por que concederam os bancos empréstimos a quem facilmente ficaria sem condições para continuar a pagá-los?

      • sinaizdefumo says:

        Ó sôr Hugo, a sua pregunta devia ser “porque aceitaram as pessoas as condições do empréstimo, sabendo que…” …mais cedo ou mais tarde iam parar ò desemprego.


      • Hugo, explique lá: Porque é que milhões de portugueses têm que pagar milhares de milhões para capitalizar a banca pelos negócios ruinosos que fez, emprestando, na sua óptica a quem não tinha capacidade económica assegurada? Aproveite e explique também porque os mesmos citados em cima, têm que pagar a falência do BPN?

      • Hugo says:

        Ora vamos lá ver.

        Resposta ao nightwish: (1) em Évora uma renda é mais que uma prestação? Nem no Porto, quanto mais. Mesmo em Lisboa as rendas são mais elevadas, mas os preços das casas também o são. (2) Se as pessoas não tivessem dinheiro para pagar a renda, mudavam-se para uma casa mais pequena. Comprando não há esta flexibilidade. (3) Não sei se no capitalismo vale tudo, mas sei que num estado de direito valem as leis e o que aconteceu foi a aplicação de uma lei, sem tirar nem pôr. Aceito que a lei possa ser injusta, mas a Constituição também o é e não vejo quase ninguém a queixar-se. (4) Quanto à dívida e ao crescimento, nota-se o crescimento que aquela família denotou. Foi um crescimento para baixo, tal como aconteceu com o país e exactamente pelos mesmos motivos: assumir dívida que não podia pagar.

        Resposta à Carla: porque têm a casa como garantia e a lei do lado deles. Da última vez que vi, do lado de fora dos bancos tem escrito “banco”, não tem escrito “santa casa da misericórdia”. Os bancos procuram o lucro e este negócio das casas é bastante lucrativo e o risco é aceitável. Cabe às pessoas não irem na cantiga do “é fácil, é só assinar”.

        Resposta ao sinaizdefumo: também pode ser. Mas então se sabiam que iam para o desemprego, não deveriam assumir um compromisso do tamanho de comprar uma casa. Não sei se é verdade, mas aqui há tempos li que nos países ricos, com baixo desemprego e salários mais altos, a regra é arrendar, não é comprar. Nós cá somos pobres mas com manias de grandeza. E isso já não vem de agora.

        Resposta ao Adelino: não faço a mínima ideia. Envie essa pergunta ao inginheiro dos domingos: “porque resolveu sua excelência dar 5000M€ a um banco pequeno e pouco importante e cuja maioria esmagadora dos clientes não teria depósitos acima dos 100 mil euros e como tal estavam protegidos pelo fundo de garantia de depósitos?”. Pode ser que ele faça outra evocação de como ia para a universidade num domingo à noite e ao olhar para o sol teve uma revelação: salvar o BPN!


  2. Além deste caso enumerado, existem ainda outros onde os fiadores são chamados a pagar dividas em atraso, ficando muitas vezes também em situações de aperto…

  3. A.Silva says:

    Sistema de filhos da puta!

  4. José Honório says:

    Ainda vou rir muito e brindar à justiça dos homens no dia em que, no meio dos tumultos e das revoltas, não só as agências bancárias mas também as casas e quintas apalaçadas dos seus donos, arderem até às cinzas.

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