Se o Alcino sai, a rua pára

Já tinha ouvido falar no Alcino, no café, na mercearia, em conversas de rua. “Então, viste o Alcino?”, perguntavam-se uns aos outros. “O Alcino tem andado fugido”, dizia outro.” “Ontem vi o Alcino, lá ia todo lampeiro”.

A rua inteira parecia conhecer o Alcino, mas eu, recém-chegado ao bairro, não fazia ideia de quem pudesse ser.
Levava pouco mais de uma semana no escritório quando o chefe mandou encerrar a varanda onde fumávamos. Transformou o espaço aberto numa marquise com caixilharia de alumínio e instalou ali uma sala de estar para ele. Começámos a descer à rua para fumar, cinco minutos de manhã, outros cinco minutos à tarde.

No escritório, a maioria protestou, ter de apanhar chuva e sol, correntes de ar, ter de descer e subir escadas, que o elevador só funcionava quando queria, para um miserável intervalo de cinco minutos. Mas a varanda dava para as traseiras dos outros prédios, víamos os mesmos miseráveis cinco minutos de outros como nós, ou a dona de casa que estendia as peúgas do marido, e aquilo sabia-me a pátio de cadeia, sem sequer poder dar uma voltinha completa.

Eu queria era ir até à rua como quem vai para o cesto da gávea, observador silencioso e não comprometido, calado e a sós com o meu cigarro. Na primeira manhã não vi nada que já não conhecesse, o movimento normal de carros e vizinhos. À tarde não pude sair porque tinha trabalho para acabar.

Na segunda manhã, saí com a intenção de encostar-me à porta da rua e acender um cigarro, mas deparei-me com a rua repleta de gente, todos parados a olhar a porta do quiosque da D.ª Amélia, que eu conhecia de ir lá registar o euromilhões, e de onde saía nesse momento a própria, segurando uma trela comprida ao fim da qual havia uma criatura felpuda e de grandes orelhas, que avançava aos saltinhos, para gáudio da dona e de todos os assistentes. Era um coelho.

Um agente da PSP fazia sinal aos carros para que detivessem a circulação e, de uma varanda, uma velhinha que eu costumava ver regar as begónias lançava pétalas de rosas para o chão, mesmo à porta do quiosque. O coelho cheirava nervosamente o chão, o ar ao seu redor, as próprias patas. O vizinho do andar de baixo, que eu nem tinha ouvido chegar, murmurou-me ao ouvido.

– Está a ver se está tudo pronto. É tão esperto!

O silêncio cresceu. Não havia trânsito, ninguém falava, suspeito que até os aviões tinham alterado a sua rota. O coelho parou de cheirar, levantou a cabecinha alongada, os bigoditos luzidios estremeceram-lhe levemente, e então olhou em frente e avançou, com um saltinho decidido.

A dona reluzia de orgulho. Caminhava muito solene, segurando a trela com firmeza, mas sem nunca puxar por ela, não fosse apertar o gasganete ao bicho, ajustando muito bem os seus passos ao ritmo do coelho. Ninguém dizia palavra. Dentro dos carros, os condutores seguiam a evolução do passeio do bicho com paciência e atenção, em todas as janelas e varandas havia alguém a ver, a fazer fotos, a sorrir com enlevo.

O coelho saltitava, saltitava. A meio da rua deteve-se. Tensão, expectativa. Passou uma patinha pelos bigodes, sinal pelos vistos já conhecido, porque uma multidão acorreu para o bicho, de cenoura em punho. O que chegou primeiro aproximou-a das dentolas do coelho e segurou-a o tempo suficiente para que ele comesse o que lhe apetecia. Quando o bicho afastou o focinhito enjoado, o homem recuou e foi retomar o seu lugar, e ainda vi alguém que lhe dava uma palmadinha no ombro, de felicitações.

O vizinho também voltou para o pé de mim, um sorriso envergonhado, a enfiar outra vez a cenoura no bolso.

– Ainda não foi desta que eu consegui chegar primeiro ao Alcino, caramba. Mas um dia há-de-ser!

À minha volta, todos guardavam a cenoura no bolso de novo, as senhoras embrulhavam-na num saquinho de plástico do supermercado antes de enfiá-la na mala.

– Este é que o Alcino? – perguntei.

– Claro! – respondeu-me o vizinho com ar de quem acaba de confirmar que claro que sim, a Terra é redonda!

O Alcino, entretanto, chegou ao outro lado da rua. Irromperam todos numa salva de palmas e ele deteve-se frente a uma casa dez metros acima do meu escritório, e que era, tanto quanto percebi, a sua habitação. A dona passou-lhe um toalhete húmido pelas patinhas e o bicho recolheu a casa, ordeira e cortesmente, com um último saltinho que o afastou dos olhares da multidão. O polícia pôs o trânsito a circular de novo, toda a gente voltou aos seus afazeres e só então me dei conta que o cigarro se tinha consumido até ao filtro sem que eu chegasse a fumá-lo.

Nessa mesma tarde, pedi ao chefe que me deixasse fumar na marquise. Em troca, faço quinze minutos a mais todos os dias, sem cobrar. Antes isso que andar com uma cenoura no bolso.

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