O rapto de Europa

the-raping-of-europe_erasmus_

No começo de tudo quem mandava era Zeus, o mais sortudo dos filhos do Tempo (Cronos) que, conseguindo escapar ao grande apetite do pai (famoso comedor da própria descendência), tomou o seu destino em mãos, vindo a unir-se a Europa, uma ninfa que conheceu na Fenícia certo dia em que ela estava com umas amigas a apanhar conchinhas à beira-mar. Zeus e Europa tiveram três filhos, entre os quais Minos, que viria a tornar-se muito poderoso, reinando em Cnossos – cidade-labirinto onde jazem ainda hoje (em Creta) o primeiro trono, a primeira banheira, o primeiro sistema de canalização de águas, a primeira estrada e o primeiro teatro do Ocidente.

À falta de melhor critério, Zeus determinava o destino de todos fazendo apelo a uns jarrões que tinha à porta da caverna onde vivia – contendo um apenas coisas boas, e o outro somente coisas más. Assim, Zeus dava a uns (muito poucos, crê-se) uma vida muito boa, a outros (acredita-se que a maioria) uma vida muito má, e aos restantes uma vida mais-ou-menos, que era quando ele retirava coisas dos dois jarrões. O princípio e o padrão mantiveram-se até aos dias de hoje, [Read more…]

Que Europa?

Há trinta anos, ser europeu era a melhor coisa do Mundo. Na Europa, os homens podiam ser homens, dizia-se, ou pelo menos pensava-se. Nela, lugar natural dessa humanidade,  os homens podiam cumprir o seu mais interessante programa da espécie, dizia-se, ou pensava-se, nessa convicta e secreta superioridade pós-colonial, nós homens (e mulheres, naturalmente) com caminho feito pelas estradas nacionais dos impérios e pelos caminhos de cabras dos lugares que havíamos colonizado quando ainda éramos bárbaros, íamos realizar a Europa da fraternidade.

Embora ainda um pouco tosca, de fundamentos demasiadamente metafísicos para um projecto daquela envergadura, nessa Europa ainda por construir, quase só palavras de discursos, de intenções enunciadas diante do aplauso esperançoso dos povos, os líderes europeus iam fazer um mundo novo. Há trinta anos, ajudar a fazer um mundo novo, apostando nele às cegas, era a melhor coisa que podia acontecer-nos. Desafio aventuroso, o melhor que se pode receber da vida aos vinte anos. Fazer um mundo, não fazíamos por menos, sempre nas grandezas (mas há nisso grande poesia, na elevação do impulso certo). [Read more…]

eu cá não sou de intrigas nem de meias verdades

Esmiuço com atenção o Boletim Estatístico publicado pelo Banco de Portugal.

A dívida galgou os 130% do PIB, quedando-se agora nos 132,4% do PIB. Esse vírus despesista chamado Partido Socialista, dizem eles. Essa esquerda que só tem ideias quando há dinheiro, repetem. Esse socialismo que só existe quando há dinheiro, concluem. O Tratado Orçamental obriga que o Estado Português reduza a sua dívida pública a 60% mas apesar das previsões de redução apresentadas pelo governo para os próximos anos, não existe fórmula para que isso aconteça senão voltar a castigar os contribuíntes e a procura interna. Sabendo para já que o risco de deflacção é uma realidade. A deflacção poderá arrastar consigo mais uma surte de falências e desemprego. Menos receita a entrar nos cofres do estado por via das contribuições e mais despesa contraída em apoios sociais. (Faça-se tábua rasa e corte-se ainda mais nas condições de acesso ao benefício de apoios sociais, pensarão). Enquanto o défice estrutural do Estado (leia-se o estado gastar menos do que aquilo que recebe), a dívida continuará a aumentar porque, logicamente, o estado terá que pedir emprestado aos mercados para cumprir as suas obrigações. Desengane-se portanto quem pensa que a dívida pública e o défice estrutural são elementos desligados. São elementos intimamente ligados. Quase gémeos. Esqueçam todo o argumento que foi apregoado aos 7 ventos pela Ministra das Finanças e pelos seus tutelários do ICGP de que o Estado teria uma almofada financeira significativa para fazer face às suas obrigações no próximo ano. É pura mentira. [Read more…]

só por curiosidade

Se Marinho Pinto for eleito no próximo domingo deputado europeu, haverá alguma “incompatibilidade de balneário” com a estrela do clube Nigel Farage?

Patrulhamento que faz saltar a tampa

tamp

A denúncia partiu do Sindicato Unificado da Polícia (SUP), pela voz de Peixoto Rodrigues, presidente do organismo. Segundo este, e por decisão do comandante da segunda divisão da PSP de Lisboa, agentes da PSP estarão a ser obrigados a dedicar parte do seu horário de trabalho à recolha de tampinhas de garrafas de plástico, com o objectivo de criar uma gigantesca bandeira de Portugal para apoiar a selecção nacional e bater o recorde do Guinness da categoria.

[Read more…]

O Estado, a Cultura e o Património

“…a função do Estado na Cultura tem de sair da mera dicotomia entre a preservação do património e o apoio à criação artística: o Estado tem de ser, cada vez mais, facilitador na relação com a referência e a experiência cultural, na fruição e acesso de cada cidadão à cultura. Este papel acrescido significa responder à procura com mais informação, com mais parcerias, com uma maior descentralização, com a colaboração – sem sobreposição, dirigismo ou substituição – com as autarquias, empresas e sociedade civil; com o apoio à criação e produção cultural e à internacionalização; e continuar a encontrar novos públicos em conjunto com as indústrias criativas, o turismo e a educação….”

Pois é.  A esta citação voltaremos.

Israel e o tiro ao alvo*

Nuno Roby Amorim

Existe uma posição muito irritante, da intelligentsia conservadora europeia e portuguesa em particular, de apoio incondicional a Israel aconteça o que acontecer e ultimamente tem acontecido muito. Este apoio baseia-se no princípio de que o estado hebraico é uma verdadeira democracia, o que é verdade, uma ilha rodeada por fanáticos extremistas e radicais árabes, prontos a violarem os princípios mais básicos da dignidade humana, o que também é parcialmente verdade. Ora bem, só que a democracia é Universal e nada vale se a utilizarmos em casa e na rua andarmos a correr tudo ao estalo, o que é um pouco o que se passa no terreno. [Read more…]

Se o agressor é um herói, a culpa é da vítima?

 

Ontem cruzei-me com este aviso num muro, em Matosinhos, e fiquei arrepiada. Há muitos “Palitos” por aí, desses que perseguem e acossam durante anos, até ao dia em que apertam o gatilho. A este, o do muro, não chegam as ameaças em privado, quis mostrar à sua vítima que está próximo dela e que se sente impune.

E entretanto, no país profundo, ou real, ou o raio que o parta, bastou uma fuga rocambolesca, a polícia burlada e humilhada durante uns dias, para que uma multidão acabasse a aplaudir um homem que se levantava de madrugada para perseguir a ex-mulher, que a amedrontava na rua e nos lugares onde ela trabalhava, que chegou a ameaçar de morte quem lhe desse trabalho, que a agrediu repetidamente, que a obrigou, quando ainda moravam na mesma casa, a regressar à cama de casal sob ameaça de arma. E que, fracassadas todas estas tentativas de recuperá-la pela força, decidiu pôr fim à vida dela e à de mais três pessoas, incluindo a própria filha.

A multidão que o aplaudiu foi a mesma que o conhecia bem, que assistira aos seus actos durante anos, e, percebemos agora, não só não levantou um dedo para ajudar a vítima, como até achou bem aquilo que viu: [Read more…]

Há que Dizê-lo com Frontalidade

Temos um povo do caralho.