O Tempo e a Barbárie

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No início do século XVI (1506), numa Igreja de Lisboa, em tempos de crise, esperava-se um milagre que aliviasse as duras dores do tempo. Ao notar que um raio de luz se projectava no crucifixo da igreja, a multidão logo bradou por milagre. Porém, um cristão-novo (judeu obrigado à conversão ao catolicismo – para os mais esquecidos da História) fez notar que se tratava apenas do reflexo da luz que iluminava o templo. Começou aqui um dos mais arrepiantes e sangrentos episódios da nossa História. Arrastado o “blasfemo” para a rua, logo ali foi brutalmente espancado. Foi o início de uma chacina que se espalhou pela cidade e soltou a mais fanática barbaridade.

O grande Damião de Góis, cronista do reino e um espírito livre, relatou assim este horroroso episódio:

A esta turma de maus homens e dos frades, que sem temor de Deus andavam pelas ruas, concitando o povo a esta tamanha crueldade, se ajuntaram mais de mil homens da terra, da qualidade dos outros, que todos juntos a segunda-feira continuaram nesta maldade com mor crueza e, por já nas ruas não acharem nenhuns cristãos-novos, foram cometer, com vaivéns e escadas, as casas em que viviam, ou onde sabiam que estavam e, tirando-os delas a rasto pelas ruas, com seus filhos, mulheres e filhos, os lançavam, de mistura vivos e mortos nas fogueiras, sem nenhuma piedade e era tamanha a crueza que até nos meninos e nas crianças que estavam no berço a executavam, tomando-os pelas pernas fendendo-os em pedaços e esborrachando-os de arremesso nas paredes.

Assim se mostra que todo o fanatismo religioso – deixem Deus em paz, digo eu, que sou ateu – é, nas condições propícias, muito parecido. Demorou ainda muito tempo de sangue e lágrimas para que a dominação da ideologia religiosa na consciência social fosse superada. Mais de quatro séculos. Saudemos os heróis laicos desta mudança e a liberdade que ela trouxe. Liberdade do estado e dos cidadãos face à religião e liberdade das religiões face ao estado. De todas elas. Ámen.

Comments


  1. O passado é um presente em suspenso

  2. José almeida says:

    Excelente e oportuno comentário. Parabéns.


  3. Não me esqueço das invasões campo, da guerra do futebol (http://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_do_Futebol), da jugoslávia, ou Kosovo, do verão quente de 1975 e do melo, dos hutus e tutsis, do Siri Lanka e dos tigres tamiles, da África do Sul, Zimbabwe de Mugabe, dos kmers vermelhos e ateísmo, nem mesmo de Nelas, nem dos comentários postados nos midia que exibe o fanatismo em toda a sua extensão.


  4. Só mais uma coisa

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