Quem tem medo do salário mínimo mau?

Salário Mínimo

Disposto a correr o risco de questionar o distinto “economista, consultor de gestão e comentador de coisas” Carlos Guimarães Pinto (CGP), devo confessar que fiquei surpreendido pela superficialidade dos argumentos usados para literalmente responsabilizar o modesto e eleitoralista aumento do salário mínimo pela inversão da trajectória “mágica” dos números do desemprego em Portugal. Leigo que sou, estava convencido que tivesse sido obra das forças obscuras que se movem por trás dos arbustos para armadilhar a cruzada heróica e patriótica de Passos Coelho e entregar de novo o poder aos sinistros socialistas.

Foi então que me lembrei que há uns dias atrás me tinha deparado com esta notícia do Diário Económico – optei por este jornal porque, como por vezes encontro por lá alguns artigos dos seus colegas do Insurgente, assumi que tal atestasse a sua credibilidade – que dava conta de um estudo do Banco de Portugal que, de forma resumida, reduz a cinzas o embuste orquestrado por este governo de meses consecutivos de evolução positiva dos números do desemprego que afinal mais não foi do que o efeito directo da criação em massa de estágios profissionais remunerados, orientados de uma forma geral para o vasto mercado boy, de forma a aldrabar estatísticas e dar substância a vídeos de repletos de falsidades e propaganda eleitoralista, também orientados para o mercado boy, sobretudo para o segmento caprino. Será que o stock de estágios do governo chegou ao fim em Setembro?

Gráficos, tal como os chapéus, há muitos. CGP partilhou em artigo um gráfico do INE que apresentava a evolução do desemprego em Portugal ao longo de 2014 (Janeiro – Novembro) e aproveitou para colocar uma questão aos leitores: “em que altura foi aumentado o salário mínimo?”. A resposta – Setembro – coincide com o momento em que a trajectória se inverte e o desemprego começa a aumentar, ritmo que se manteve pelo menos até Novembro e que, muito provavelmente, ainda se mantém. Mas será que, tendo esse aumento ficado decidido em Setembro, haveria tempo para que os patrões reagissem no sentido de despedir e/ou não criarem mais emprego, e que essas reacções tivessem efeitos imediatos no próprio mês? Parece-me pouco provável e CGP não apresenta um único dado objectivo que dê substância ao seu argumento. Então e o patrão que precisa de reforçar as suas equipas porque, imaginemos, envolto na virtude do milagre da austeridade viu o seu negócio crescer, será que se vai inibir de contratar porque o custo por colaborador a auferir salário mínimo subiu 20€? Só uma empresa com a corda na garganta vai deixar de contratar e dar resposta às suas necessidades de recursos humanos por meia dúzia de tostões. A menos que se trate de uma empresa cujo proprietário queira maximizar os seus próprios dividendos, e neste caso a culpa não seria do aumento do salário mínimo mas uma opção da entidade patronal focada no seu interesse pessoal e não no interesse e/ou sustentabilidade da sua empresa. Um clássico por cá.

Num outro artigo, publicado no mesmo dia, CGP oferece-nos alguns “argumentos” sobre esta relação “irrefutável” entre o aumento do salário mínimo e o crescimento do desemprego. Resumidamente, o comentador de coisas tenta algumas explicações, vagas, e assume mesmo que “Um dos motivos pelo qual é tão complicado analisar o efeito do salário mínimo no desemprego é porque grande parte dos aumentos são antecipados pelos empresários e vão sendo incorporados nas decisões de criação de emprego meses antes de ocorrerem”. Longe de querer colocar em causa este académico, tenho alguma dificuldade em perceber como é que CGP enquadra a expansão do negócio de uma empresa neste cenário. Ou se considera que os números do desemprego dizem apenas respeito aos trabalhadores que auferem o salário mínimo. E o aumento do consumo das famílias proporcionado pelo aumento do seu rendimento, será que não tem também impacto positivo nas operações de algumas destas empresas, como é o caso, por exemplo, da distribuição alimentar? Tenho também muita dificuldade em perceber como é que alguns países europeus têm salários mínimos tão elevados e mesmo assim são altamente produtivos. A própria Alemanha, o so called motor da Europa, que não tinha um salário mínimo, aprovou no ano passado a criação do mesmo. Será o princípio do fim da economia alemã? Yeah right…

A ideia que fica, para mim que sou leigo, é que o problema de CGP com o salário mínimo é de natureza ideológica. Como tantos outros ferozes defensores dos ajustamentos, das reestruturações e das privatizações, CGP parece ser um adepto incondicional de um Estado reduzido ao mínimo dos mínimos e de todos os sectores da economia entregues a interesses privados. E está no seu direito. Cada um tem os seus fantasmas. Alguns têm unicórnios. Outros têm medo do salário mínimo. Ou servem interesses que não estão interessados nele. O Bangladesh é já ali ao lado.

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  1. […] Um economista finlandês decidiu analisar a correlação entre o tamanho do órgão sexual masculino e o crescimento económico. Foi desta anedota do reino das correlações idiotas que me lembrei quando Carlos Guimarães Pinto garantiu, com gráficos e tudo, que o miserável aumento do salário mínimo já tinha provocado desemprego em Portugal, piadola  de que o João Mendes já aqui se ocupou. […]


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