Ou pagam todos ou não paga ninguém

Pagar dividas

Sempre que o assunto é o pagamento e/ou reestruturação das dívidas soberanas, há um argumento transversal à generalidade dos liberais: todos devem pagar mas o caso da Alemanha foi diferente. Ontem foi a vez de André Abrantes Amaral dar o seu contributo para o peditório:

Entre os dois casos [grego e alemão] há uma diferença abissal. A dívida alemã foi fruto das guerras que marcaram a primeira metade do século XX. Já a dívida grega é fruto do modelo de desenvolvimento da Grécia. A dívida alemã foi paga porque a Alemanha se desenvolveu. A dívida na Grécia foi contraída porque a Grécia se desenvolveu.

Não consigo perceber este argumento pelo simples motivo de que, tanto a dívida grega como a dívida alemã foram consequência de decisões políticas. Hitler decidiu invadir a Polónia e uns quantos corruptos da Nova Democracia e do PASOK decidiram, entre outras falcatruas, aldrabar as contas do país para aderir ao Euro, com uma “pequena” ajuda de um grupo de mercenários financeiros liderados pelo Goldman Sachs. Nenhuma destas decisões foi sufragada pelos povos alemão ou grego.

Assim, verificamos que, tanto no modelo grego, assente na corrupção e no ilusionismo financeiro, como no modelo alemão, assente no ímpeto belicista, houve sempre algo de errado. A única diferença é que o modelo alemão gerou mais destruição, humana, económica e social. Saiu-nos bem mais caro. E, ironia das ironias, um dos países que ficou a arder com o calote alemão foi… wait for it… a Grécia. Dizer que “a dívida da Alemanha foi paga porque a Alemanha se desenvolveu” não branqueia o calote que ficou por pagar. Ou pagam todos, ou não paga ninguém.

Comments

  1. joao lopes says:

    o actual governo da alemanha(e da europa) vai mais tarde ou mais cedo sofrer do seu proprio veneno.com consequencias muito más(já mais que visiveis) para os europeus,incluindo o proprio povo alemão.responsaveis:politicos mediocres.todos? não,barak obama acaba de fazer historia(mais uma vez) ao fumar o cachimbo da paz com Cuba.


    • só se esqueceu foi de fechar Guantánamo. O cachimbo da paz com Cuba é sem dúvida um momento histórico mas Obama esteve longe de ser a esperança que muitos anteciparam…

  2. Pedro says:

    Concordo mas não usaria isso como principal argumento, porque acho que perdões de dívida não deveriam ser coisas vulgares. O caso do perdão da Alemanha foi algo que se calhar não foi gerido da melhor forma, principalmente se olharmos para a Alemanha hoje, a respirar saúde e a asfixiar os países mais pequenos (talvez agora já podia começar a pagar os quase 17 mil milhões, que com 60 anos de juros dava um valor interessante). Se formos por aí toda a gente devia a toda a gente e o sistema económico deixa de funcionar porque perde-se a sensação de obrigação de pagar. Concordo com o facto de perdoar a dívida aos países que saíram lesados com a entrada na UE e moeda única, ou seja, países do sul da europa. O que acho pior foi mesmo esta ditadura económica implementada aquando da UE e moeda única, com ideais visivelmente insustentáveis para o sul da Europa que favorecem e muito a Alemanha principalmente. Aquele ideal de “serviços e turismo no Sul, indústria no Norte”, a par da hiper inflação na transição escudo para euro, custou-nos a nossa forte indústria têxtil e outras áreas também importantíssimas, altamente exportadoras e criadoras de emprego.


    • Por isso se fala habitualmente em reestruturação e não em perdão total da dívida. Até porque existe entidades como a Segurança Social que não podem ficar a arder. Mas todas estas dívidas deviam ser esmiuçadas ao mais ínfimo detalhe para separar o trigo do joio. Dívidas baseadas em esquemas fraudolentos levados a cabo por políticos corruptos e banqueiros criminosos deveriam ser substituídas pela prisão e confisco dos bens dessa escumalha.

      • Pedro says:

        Sem dúvida que era importante a lei ter um pouco mais de agilidade quando fosse para confiscar bens dessa gente… E gente com coragem para fazê-lo!


        • utopias. ainda hoje o presidente da ESCOM assumiu na comissão de inquérito do BES que ele e a restante quadrilha levaram a cabo um esquema para fugir aos impostos no caso das contrapartidas dos submarinos. Palavras para quê?


  3. Esta fixação pela dívida é curiosa, historicamente o padrão sempre foi de perdões regulares ou de anulação mais ou menos unilateral. Ignorar isso e levar a questão até às últimas consequências tem sempre os efeitos previsíveis, escravatura formal ou informal e asfixia – seja na Grécia seja na Alemanha ou Portugal.

    Claro que nestas questões também pesam interesses geoestratégicos, a infiltração dos grupos económicos nas estruturas de poder das elites dos países credores e uma dose considerável de racismo ou pelo menos desprezo cultural pela Europa do Sul (entre outros). Mas nada disto interessa porque os mesmos interesses estão presentes nas elites locais e vão defender os interesses dos seus patronos até às últimas consequências – de notas que até ao momento nem precisaram de violar a consciência democrática de países como Portugal, tal é o complexo de inferioridade que temos.

    • Tiago Vasconcelos says:

      Por essa ordem de ideias, acha natural que os bancos perdoem as dívidas de todos os que recorreram a crédito para comprar casa e que estão em incumprimento, certo?


      • Historicamente é precisamente isso que acontecia até muito recentemente. Quando o sistema de dívida (seja nacional seja de consumidores) atingia o ponto de asfixia começava um “default” financeiro generalizado e instabilidade social intensa. Era neste ponto que tradicionalmente o credor abandonava a questão da dívida (um espécie de jubileu) ou negociava algo que não fosse oneroso para uma sociedade em recuperação e permitisse a normal reintegração no sistema económico e social dos devedores.


      • sim, porque são situações que têm mesmo tudo a ver. adoro cegueiras ideológicas, à falta de mais mixórdia de temáticas e tubo de ensaio tenho sempre com o que me rir.

      • Nightwish says:

        Porque a macroeconomia e a economia da tasca ali do lado têm tudo a ver, certo?

  4. A. Carvalho says:

    O FMI diz: “A Grécia tem de pagar a dívida”. E… se a Grécia não pagar o que é que o FMI faz? Contrata uns Jihadistas para invadirem a Grécia? Eu digo o que faz: NADA! Podem tentar de tudo que não lhes adianta NADA! Até estou bastante expectante para ver o resultado das eleições Gregas. Se os radicais de esquerda ganharem e cumprirem o programa eleitoral (porque é preciso que o cumpram e o mesmo não tenha passado de “caça ao voto”), sempre quero ver o que vai acontecer. Pode ser bastante interessante e até uma “experiência-piloto” para outros países como Portugal, Espanha e Itália.

    • Tiago Vasconcelos says:

      O que lhes acontece? Deixam de ter assistência financeira, saem do Euro, a economia afunda ainda mais, e não há Siriza que lhes valha.


      • Isso está escrito em que tratado?
        É de anedotário, ou de idiotário, admitir que a economia possa afundar ainda mais quando já passou o fundo.

        • Hélder P. says:

          De facto, muita gente parece desconhecer que não existe qualquer mecanismo para expulsar um estado-membro da Zona Euro. Bem como o facto do tratado orçamental imposto pela Alemanha não ser um tratado da UE, logo o seu cumprimento nunca poderá ser condição para pertencer ao clube.
          Desinformarção que os media teimar em não desfazer.


          • Uma país que não cumpra os tratados orçamentais e, consequentemente, deixe de poder aceder a financiamento, não vai ser expulso; vai querer sair pelo seu próprio pé, porque a única opção que lhe resta é desvalorizar a moeda, o que no caso do Euro é impossível.

            De qualquer forma, não vai acontecer, porque o Tsipras pode ser muita coisa, mas não é otário: “A Syriza government will respect Greece’s obligation, as a eurozone member, to maintain a balanced budget, and will commit to quantitative targets”, diz ele, hoje, no Financial Times.

          • joao lopes says:

            desinformação essa que está ser utilizada pelo directorio “neoliberal” para assustar as pessoas.não é por acaso que o CM tem o criterio editorial que tem(e não estou a defender nem a atacar o socrates)


          • são agendas Hélder…

      • joao lopes says:

        e o que lhes acontece se continuarem no Euro? afundam a economia,desemprego e fome.


      • Profecia da Maya? Muito forte, deixar lá os corruptos e incompetentes do PASOK e da Nova Democracia é que era de valor. enfim…

      • Nightwish says:

        E o que é que acontecia depois ao Euro, ora diz lá?


    • os jihadistas já lá estiveram A. Carvalho: chamam-se Goldman Sachs & Friends. Confesso que, não sabendo o que os espera, estou muito curioso para ver o Syriza governar a Grécia. Pior que o lixo que os governou nos últimos anos não devem conseguir fazer…


  5. A bem dizer, quando os neoliberais usam esse argumento nem reparam que se estão a declarar ou revisionistas ou neo-nazis, podem escolher à vontade que vai dar ao mesmo.
    Como escrevem em circuito fechado nem reparam que se despem e ainda se constipam.


  6. Não está escrito em Tratado algum que a Grécia seja forçada a sair do Euro ou da U.E., mas também não está escrito em parte alguma que possa conseguir financiar-se. Afinal quem lhes emprestará dinheiro? Isto se fossemos às últimas consequências, o que seriamente tenho dúvidas. O que se diz esta semana é para consumo de campanha eleitoral, não é para levar a sério. Na próxima semana uns têm que acalmar os mercados e estancar mais uma desvalorização do Euro. Outros têm que garantir financiamento, porque de contrário não precisariam que os expulsassem, sem dinheiro seriam eles a ter que sair do Euro para que o Estado grego, suas instituições não colapsem. E todos precisam salvar a face.
    A partir das eleições caso o Syriza vença, a questão torna-se interessante de acompanhar. Até lá tudo o que se diga ou escreva não passa de espuma dos dias…


    • no limite, e para preservar o Euro, a UE terá que tomar medidas. Deixar cair a Grécia por mera chantagem não me parece opção António… mas estou como tu, curioso para ver no que dá a ascensão do Syriza, que me parece inevitável apesar da enorme e nojenta chantagem que está a ser exercida sobre o povo grego.

    • Nightwish says:

      “Na próxima semana uns têm que acalmar os mercados e estancar mais uma desvalorização do Euro. ”

      Fodasse, que há gente que não aprende economia nem à pancada.
      Isso era óptimo para a maior parte da europa, acima de tudo para nós. Valha-nos entidades divinas que esta gente quer ficar burra até morrer.


      • Leia o que escrevi, apenas isso. Até eu que nada percebo de economia na sua óptica, sei que o BCE e U.E. vão tentar estancar a mais que previsível descida do Euro após a quase certa vitória do Syriza. Por outro lado o vencedor das eleição vai procurar acalmar mercados, ciente que necessita financiamento.
        O que escrevi não tem nada a ver com a minha vontade ou ideologia, que em termos práticos é completamente irrelevante para o caso. Na minha condição de ignorante em termos de economia, avancei uma previsão, indiferente a quem interessa ou deixa de interessar.
        Se quiser brindar-nos com a sua douta opinião, pela parte que me toca agradecerei. E cá estaremos na próxima semana para ver quem se enganou…
        Se era bom ou mau, se interessa a A ou B, é outra discussão.

  7. Nightwish says:

    “vão tentar estancar a mais que previsível descida do Euro após a quase certa vitória do Syriza. ”
    E o que eu disse foi que faziam mal, o euro anda a ser comido aos anos por desvalorizações competitivas de outras moedas a tornar as exportações demasiado caras. É mais um motivo pelo qual o euro está estagnado, e não se preocupe, que não se vai mexer.

    • Nightwish says:

      Nem com o Draghi, nem com o Syriza. Porque é como diz, a vitória do Syriza é quase certa e os mercados jogam sempre por antecipação. Só que quando notam falta de convicção, atacam, como na Suiça.

Trackbacks


  1. […] É certo que o poder está concentrado no executivo de Angela Merkel, assumidamente contra o pagamento de qualquer tipo de indemnização resultante das aventuras imperialistas dos seus antepassados, e que Joachim Gauck pouco mais representa do que uma figura decorativa sem grande poder de decisão. Mas a coragem do presidente alemão poderá dar nova vida à discussão de uma reivindicação legítima. Dizer que “Não somos apenas um povo que vive nos dias de hoje, somos também os descendentes daqueles que deixaram para trás um trilho de destruição na Europa” são palavras sobre as quais todos os alemães podem e devem reflectir. Até porque se Tsipras se lembrasse de alegar que a herança de endividamento corrupto e irresponsável que recebeu do bloco central grego não lhe dizia respeito, que fazia parte do passado, usando a alegação como argumento para se recusar a pagar a dívida grega, algo me diz que a heresia não seria bem recebida. Ou pagam todos ou não paga ninguém. […]

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.