Os fanáticos da austeridade e os danos colaterais (nós)

Hayek

Quando achava que já tinha ouvido as maiores barbaridades possíveis no que toca ao elogio do terrorismo financeiro que vai destruindo a economia e o tecido social dos países do sul da Europa, dou por mim a ver o Prós & Contras, onde me deparo com um personagem que desconhecia, de seu nome Pedro Sampaio Nunes, que vim a descobrir ser um distinto português que ocupou inúmeros cargos de relevo, incluindo o de Secretário de Estado da Ciência e Inovação do governo hereditariamente indigitado de Pedro Santana Lopes. Deixo-vos com algumas pérolas que, confesso, me causaram alguma estupefacção:

“(…) negar que a política de ajustamento foi um sucesso extraordinário, isso para mim choca-me.

o governo da Samaras estava a ter resultados absolutamente espectaculares em termos de política de ajustamento

“[o política de ajustamento] serve apenas para dar acesso aos mercados financeiros a países que o perderam

o caso de Portugal é exemplar: nós conseguimos de uma forma muito mais para além do que alguém pensava ultrapassar de forma absolutamente brilhante essa situação

crescimento económico e criação de emprego que já começou

“[Maria Luís Albuquerque “colada” à Schauble] e muito bem porque significa um modelo que funcionou em termos de dar acesso aos mercados é o único objectivo do plano de ajustamento

Numa altura em que se repetem à exaustão os termos “extremismo” e “radicalismo”, quer me parecer que este senhor é uma espécie de mujahedin do liberalismo no seu estado mais selvagem, onde as folhas de Excel assumem um protagonismo político sem precedentes desde Vítor Gaspar. Coadjuvado pelo inenarrável José Manuel Fernandes, um “menino” à beira deste Bandar al-Khaibari da austeridade, e por outros fanáticos do estado nulo/poder económico sem rédea (o tal que nos levou até aqui e que permite que a elite económica e financeira mundial coloque estados e milhões de pessoas, que pagam as suas aventuras, de joelhos), assistiu-se a um fartote de clichés (a plebe que viajou demais e que comprou plasmas, BMW’s e casas com 3 quartos), de referências ao “discurso contabilístico” como se mais nada existisse e ao permanente elogio da austeridade e da magnanimidade alemã.

Valeu a intervenção de um jovem investigador da Universidade de Humboldt, Berlim – retenham este nome: Luís Bernardo – que em 3 minutos chamou a ala da selvajaria liberal à razão referindo estudos de OCDE e do Instituto Bruegel que apontam o falhanço da política de austeridade: programas mal-sucedidos, indicadores desajustados que levaram a resultados muito afastados das previsões do regime, ausência do combate à corrupção, evasão fiscal – com especial destaque para casos como o LuxLeaks e o SwissLeaks que desviaram milhares de milhões das economias deprimidas e que por cá foram pouco ou nada debatidos – desemprego galopante apesar da propaganda e os erros sucessivos e já assumidos pelo FMI ou patentes nas recentes declarações do presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker quando referiu o “pecado” cometido contra a dignidade de portugueses e gregos. É sempre comovente ver um “miúdo” esfrangalhar a argumentação dos profetas do regime. Sem espinhas.

A ideia que fica é que, para estas pessoas, pouco mais existe para além dos mercados e da iniciativa privada. As pessoas reais não parecem existir. O desemprego que nem o esquema dos estágios consegue mascarar, a emigração em crescendo, as urgências que não conseguem dar resposta às necessidades daqueles que não podem recorrer ao sector privado, a pobreza que vai crescendo, o fosso entre pobres e ricos que se acentua ou a evasão fiscal que isenta os poderosos do pagamento devido de impostos mais não são do que danos colaterais, secundários face ao imperativo ideológico da selva liberal. Tal como o senhor Hayek na foto, o liberalismo mostra-nos o dedo do meio. Safa-se quem puder. Quem não puder que emigre ou empreenda. Na Lapa como no Aleixo.

*****

P.S: Descobri que a electricidade não é um bem transacionável e que Portugal não a exporta. Geniais estes teóricos do regime.

P.S. 2: Em defesa dos paladinos da austeridade, o empresário Miguel Botelho Moniz referiu que os políticos que defendem esta política com unhas e dentes não a desejam, tratando-se antes de uma inevitabilidade. Até porque, tal choca com a sua propensão natural para quererem ser reeleitos. E desde quando é que isso é um problema quando vivemos num país em que a esmagadora maioria deste políticos têm à sua espera uma cadeira bem mais confortável e melhor remunerada?

Comments

  1. Carvalho says:

    E eu descobri que o comando da televisão tem um botão que permite desligá-la. Não deixo de o usar quando aparece esse Pós e Tontas, apresentado por essa tonta-maior, que berra como uma varina no mercado.
    Há tantos livros excelentes e nós não vamos conseguir ler mais que uma pequena percentagem. Para quê perder tempo com lixo televisivo?

    • Luís says:

      Absolutamente de acordo!

    • Margarida says:

      Acho que fez mal se desligou. Teria visto o Pedro Lains e o Francisco Louça explicarem e desmontar com a maior clareza os pontos de vista dos opositores. Às vezes vale a pena ver certas pessoas…….

  2. MachadoQueCorta says:

    Mais um brilhante cadáver esquisito da fauna politóloga comentatória que nos infesta.

  3. Edmundo dos Santos Figueiredo says:

    A apresentadora do programa prós e contras não possui as qualidades necessárias para o dirigir publicamente. Sem dúvida que se esforça. Mas não chega.


  4. Ainda bem que gostam do post. Convido-vos a independente da agremiação que gostam a verificarem a evolução(para baixo ou plana) que vai ter a economia nos paises da UE comparado com os BRICs. A arrogancia não é boa conselheira e quem sabe de mais aprende de menos. Que o digam os cubanos, norte coreanos , venezuelanos quando comparam as suas vidas com os demonios que os atormentam(nós da UE) e deviam sentir-se orgulhosos de terem sempre razºao como muito arrogante que vemos apor aqui a “ensinar” aos tolos as “verdades” certas.

  5. Nascimento says:

    Luís Bernardo . Foi gratificante vêr um “puto”,com uma calma desconcertante, dar uma chapada ,naqule nojento .
    Relembro a parte em que, o Luis, goza de modo sibilino, com o nojo, no que toca á electricidade…lindo.

    ps E quantas vezes o nojo afirmou que habitava em Bruxelas?Ui…

  6. silence is sexy says:

    Pelo tema e pelo painel de convidados, segui ontem esta emissão, atentamente. É bom ver na televisão pública, que estamos sempre a diabolizar, um programa assim. Não me parece que, no panorama atual de jornalistas/pivots, quem assume esta tarefa, neste programa, esteja assim tão mal. Até pode ser uma estratégia para “agarrar” espectadores que estão mais “virados” para outro tipo de programas. Fico verdadeiramente contente que, pela escolha dos convidados, tenhamos afirmações convictas de diferentes formas de analisar a mesma situação. A verdade é que depende de nós, cidadãos, se a “crença” nas folhas de excel, continua ou não. Obviamente, que os governantes não são motivados pelo prazer de fazer sofrer os seus concidadãos. É um argumento que anda por aí na boca dos políticos e dos comentadores. Para mim, é uma argumento pobre e falacioso, até infantil. Este argumento é uma tentativa de desculpabilizarem-se das críticas que a actual linha de governação está a enfrentar. Deviam ser homenzinhos e dizerem apenas que estão a defender e a implentar a ideia que tem para o presente e o futuro do país. Porque, sinceramente, não acredito que tomem decisões sem saberem quais vão ser as consequências. E como muito bem disse o sr. que vive e trabalha em Bruxelas, estão a defender o “concenso de washington”. Como disse Pedro Lains, “obrigado” por tê-lo dito de uma forma tão clara. A maior parte de nós sabe o que isso quer dizer, e revêmos esses príncipios no atual governo, que está em sintonia com os tratados europeus. Mas muita gente não faz ideia do que isso é, e que é o que está a ser implementado em portugal. Por isso é que Passos disse algures tempos atrás, que concordava com o que era imposto pela troika e que até queria ir além. Foi uma excelente oportunidade (o resgate) para poderem executar o que, de outra forma, não teria o apoio necessário para tal.

  7. ZE LOPES says:

    Mendes, deixe-me corrigi-lo: a eletricidade, realmente não é um bem transacionável. O senhor não deve estar bem informado dos últimos contributos teóricos do famoso Fluchwort Beobacher que, com grande classe, demonstra que a eletricidade, por ser invisível, nunca pode ser transacionada (aliás, nunca ninguém viu transacionar eletricidade no mercado de Carcavelos, da Vandoma ou de Espinho, ou na Feira dos 23, e aí transaciona-se de tudo). Beobacher apresenta como uma evidência a conhecida partidinha que os alemães costumam fazer em família aos miúdos: (tradução livre) “ó puto, toma lá 4 Merkels e vai ali à Lebensmittelgeschäft e trás lá um quilo de eletricidade. O miúdo vai e o pessoal ri-se muito, principalmente quando volta, já que tal é considerado tradicionalmente essencial para a formação da personalidade teutónica (segundo outros, esta partida foi feita a Hitler quando era pequeno e deu mau resultado, mas adiante). Esta regra apenas tem uma exceção: quando a eletricidade está incorporada num bem transacionável, porque visível: uma pilha (lá está!), bateria (lá está!), um rádio (lá está, se for transacionado a funcionar!)… Bom, tudo isto para fazer uma proposta: visto que o nosso país necessita urgentemente de equilibrar a sua balança comercial, incorpore-se a eletricidade num objeto de produção nacional. Por exemplo, uma cadeira em ferro forjado com ligações à corrente, a que poderíamos chamar Cadeira Elétrica (que seria patenteada como um produto do génio nacional renascido por obra de Coelho e Portas). Para promover o invento, chamaríamos então o Sr. Pfssr. Engº. Pedro Sampaio Nunes (que deveria levar o Sr. José Manuel Fernandes ao colo) ligar a eletricidade, e tentar transacioná-los (estou certo que não levantarão objeções, já que a eletricidade é fornecida por uma empresa privada…)


  8. Reblogged this on O Retiro do Sossego.

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  1. […] é o economista Ricardo Gonçalves Francisco, uma vez mais em representação do Insurgente, presença habitual no programa sempre que o vejo. Devem ser amigos da moderadora no Facebook, tal como o representante do povo que por lá passou, […]

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