Eduardo Catroga e o elogio do bloco central

Passos Catroga

Foto@Puxa Palavra

Eduardo Catroga, um dos maiores beneficiários da ascensão de Passos Coelho, apesar da aparente falta de tempo para exercer as funções inerentes ao tacho cargo para a qual foi nomeado, deu uma entrevista ao jornal Público na qual afirmou que o PSD devia pedir desculpa aos portugueses por não ter reduzido a despesa pública e pelo “colossal aumento de impostos“. Acrescentaria que o primeiro-ministro nos deve vários outros pedidos de desculpa (que não irei agora enumerar na medida em que tal me obrigaria a alongar em demasia), nomeadamente pela transformação de antigos conselheiros e profissionais do spin em boys com privilégios a mais para um país onde, como referiu e bem Catroga, a despesa publica continua descontrolada e a carga fiscal é colossal.

Apesar das críticas destacadas pelos jornais, que na generalidade colocaram a tónica nas questões da dívida pública e dos impostos, a verdade é que Catroga dedica grande parte da sua entrevista a elogiar do caminho trilhado pelo governo. Da recuperação da “credibilidade externa” de um país que continua a não conseguir ir aos mercados sem ser pela mão de Draghi ou de sindicatos bancários ao equilíbrio das contas externas, alicerçado no aumento de exportações de um punhado de empresas  que pagam impostos na Holanda contra a redução drástica do consumo interno que fez naturalmente diminuir as importações, Catroga não se inibiu sequer de alinhar na alucinada fantasia da estabilização do crescimento da dívida que não pára de crescer. Mas não ficou por aqui. Na mesma entrevista, o homem que negociou o programa de ajustamento do lado da facção além-Troika, refere-se ainda ao PS para elogiar o documento Uma Década para Portugal, o programa encomendado por António Costa ao grupo de economistas liderado por Mário Centeno. Vale a pena ler as  declarações de Eduardo Catroga:

É um passo importante, é uma metodologia que deve ser seguida. Em 2011, eu teria proposto a mesma metodologia, se houvesse tempo (…) Eu digo é que uma boa metodologia que António Costa introduziu, também para controlar as propostas não-fundamentadas da sua ala à esquerda. Ala que agora está muito condicionada, a ala que defendia que se deveria repor tudo rapidamente em força e reestruturar a dívida e não sei quê. Agora está controlada.

Eu, como economista, vejo isto como uma viragem do PS a caminho do centro político e de uma política económica de rigor que nunca teve enquanto conduziu o Governo. Não teve com Mário Soares, não teve com António Guterres e muito menos a teve com José Sócrates. Digamos que é uma viragem da política económica do PS a caminho do centrão político. Ao ponto de estas propostas estarem mais próximas do programa económico apresentado pelo Governo em Bruxelas, o chamado Programa de Estabilidade 2015-2019. Dirá que está aí a um quilómetro de distância e afastou-se mil quilómetros das propostas dos segmentos políticos à esquerda do PS.

Portanto freio colocado na “esquerdalhada” do PS, o economista Catroga olha para o PS de Costa como um partido em direcção ao “centrão político“, cujas propostas económicas se caracterizam por um rigor aparentemente sem precedentes na história governativa dos socialistas que os aproxima das propostas da maioria. Estará o presidente do Conselho Geral e de Supervisão da EDP a fazer um apelo ao bloco central? Tudo indica que sim. E daí querer “convergências” e não coligações pré-eleitorais que possam colocar em causa alternativas à formula PSD/CDS-PP:

Não, eu não sou partidário de um bloco central formal. Sou partidário de convergências de políticas estruturais tipo bloco central, o que é diferente. Mas acho que o CDS-PP tem aqui um papel importante que os partidos à esquerda do PS não querem ter, que é coligar-se com os dois principais partidos com vocação de poder para formar maiorias. E esta coligação dificulta esse processo.

No fundo, o que tem faltado é aquilo que já existe nas democracias mais avançadas, que é menos ideologia e mais pragmatismo no sentido de encontrar soluções para o país.

O bloco central apresenta-se cada vez mais como uma inevitabilidade. Apesar dos partidos que o integram manterem o discurso de crispação, está a ser cozinhado um consenso em torno da ideia que irá, com toda a certeza, influenciar parte significativa do eleitorado que ainda se dá ao trabalho de votar. O presidente exige acordos para dar posse a um governo minoritário. Carlos Moedas, a funcionar desde Bruxelas, afirma que não havendo maioria, a solução será um bloco central. Francisco de Assis, antes da sua magra vitória nas Europeias, afirmava que a sua candidatura era “evidentemente do Bloco Central“. Luís Filipe Pereira, recém-empossado presidente da CES defende que o bloco central é indispensável. Até António Costa, por altura do Natal, fez o seu elogio saudosista ao bloco central Soares/Mota Pinto. Já o seu amigo Rui Rio, potencial próximo líder do PSD e parceiro de coligação, elogiou Costa e defendeu o bloco central na sua biografia lançada no final do ano passado. Convergências que se multiplicam e ganham forma enquanto nos dedicamos a dissecar títulos de jornais que nos remetem para as manobras de diversão que vão mantendo o que sobra da esquerda entretida, fragmentada e incapaz de também ela convergir e criar alternativas. Ainda não será desta que escapamos dos três partidos que levaram o país à ruína. Resta saber se irá Pedro Passos Coelho ser o Paulo Portas de António Costa ou se nos vemos livres do abre-portas.

Comments


  1. Ele quer cada vez mais ideologia fascista, o cabrão do velho é manhoso. E ele sabe bem que não existe centrão e que o costinha sempre foi de extrema-direita tal como ele. É uma canalhice enfiar o ps psd cds ao centro quando eles são responsáveis pelos campos de concentração dos hospitais e das casas dos doentes e dos velhos. O país é um verdadeiro matadouro, e uma mina de fazer pobres, doentes, e de malta que vive na rua. O que eles fazem é ideologia pura e dura. O soares e o cavaco o portas, o ps psd cds têm a sua ideologia totalmente definida – ideologia capitalista/fascista e o acordo que o catroga fala já está feita há muito tempo que é a união nacional composta por esses três partidos.

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