Os tele-psicossociólogos (ou, como diz a Júlia, os especialistas)

Sabemos todos da prudência que nos deve acompanhar quando usamos armas pesadas e de pontaria duvidosa como as Ciências Sociais. Porém, ai de nós, elas parecem contagiar muita gente com a convicção de que tais saberes se podem usar sem que deles se tenha grande conhecimento, isto é, não faltam os “especialistas” que, tendo lido um digest de tretas sobre, por exemplo, Psicologia e Direito, desatem a disparar sentenças que, à falta de verdadeira ciência, se sustentam em dogmas e no senso comum do mais rasteiro. E se sujeitos que tais forem pagos para isso, vale tudo, a coisa transforma-se em espectáculo, numa espécie de feira de freeks muito praticada pelas estações de televisão nos programas da manhã.

Mas és cliente de tais programas, perguntareis vós? Na verdade, não. Mas, infelizmente, não me têm faltado oportunidades para os ver sempre que tenho de passar ocasionais férias nos HUC. A simpatia com que alguns serviços instalam televisões nos quartos tem este preço – tendo a vantagem inopinada de nos testar e consolidar o sistema imunitário. Também em zaps caseiros páro, por vezes espantado, ao ouvir as peremptórias ”análises” supostamente psicossociológicas, dos enérgicos comentadores residentes. A irresponsabilidade, a indigência científica, a falta do mais elementar sentido ético, andam à solta. E não me venham com eventuais currículos lustrosos ou argumentos de autoridade. Quem se sujeita – a troco de uma boa remuneração, claro – a transformar a sua ciência em instrumento de predação pública de verdadeiros problemas humanos – sobretudo se a tais problemas puder ser dado aquele tom berrante que tão bem acompanha as indignações de papelão – não merece a menor consideração. E a entusiástica gritaria com que os pivôs de serviço acompanham estas sessões de banha-da-cobra jurídico-psicossociológica não ajuda nada. Mas, parece, vende bem.

Comments

  1. Konigvs says:

    Desintoxique-se! Ano e meio sem televisão – nem sequer me dei ao trabalho que comprar o tal descodificador-da-nova-televisão-da-treta – e na verdade nunca me senti tão pouco estúpido.
    Gosto especialmente daquelas pessoas que chegam a casa, e ligam o televisor, só para não se sentirem sozinhas no silêncio. Ou os casais que têm televisão no quarto, isso também deve ser muito giro! Mais engraçado é colocarem um televisor no quarto das crias, para depois, aos quatro ou cinco anos de idade, proferirem expressões como “As mulheres são umas porcas, mijam-se umas às outras”!
    Um qualquer desses especialistas certamente também a explicação para este tipo de coisa.


    • Não vou ao ponto de desligar a “fera” como o meu amigo faz, Konigvs, mas penso tê-la domada. Nunca me passou pela cabeça ter uma televisão no quarto, mas quando se está fechado num quarto de hospital, como no caso que apresento, com outros doentes, que remédio…

      • Konigvs says:

        No meu caso a questão nem sequer foi pensada, foi mera casualidade de ter cancelado o serviço de televisão por cabo, e como disse, nem me dei ao trabalho de ter de pagar (nem que fosse um cêntimo) para poder ter os três canais da treta.
        No quarto referia-me em especial aos casais e às crianças. Já à mesa é o que é, com as pessoas a prestarem mais atenção ao caixote que às pessoas, nem quero imaginar no quarto, uma espécie de templo sagrado da intimidade dos casais, em que se troca a intimidade por uma qualquer novela.
        De resto já estive internado 4 vezes (no público), também sei como é… Mas se tem o bicho domado já é bom!

      • albanocoelho says:

        Caríssimo, eu desliguei totalmente há uns 10 anos… Agora só consumo a multimédia que quero, quando quero e sem publicidade. É claro que para fazer isso é preciso saber.


  2. A melhor ajuda que temos é o controle remoto. Como podemos ver pelas sondagens há gostos para tudo,mesmo para as cenas de violencia ou de faca e alguidar, ou de comadres zangadas, Certos canais investem em doutos sabichoes de coisa nenhuma que preveem veementemente os chumbos da troika, as espirais para cima e para baixo, a revolta das massas; outros repetem as mesmas cenas dias seguidos seja da prisao do socrates seja das cenas macacas do futebol. Mas a verdade é que as audiencias mostram que uma data (grande) de cidadãos gostam e voltam lá. O facto de apos tres bancas rotas todas provocadas pelo mesmo partido e as sondagens mostrarem que vai ganhar, pode não ter explicação racional , mas não é por ignorancia , é mesmo por opção.Pena que não tenha um controle remoto neste caso.


  3. Um bom retrato de um universo de “achistas” armados em “tudólogos”. Agora imagine um tipo como eu que trabalha há 40 anos numa das áreas de que falou (a psicologia). Muitas vezes se me perguntarem o que faço logo depois de ouvir algum dos “achistas” a que se refere responderia que era agricultor, uma das minhas paixões de sempre, não gostava de ser confundido.
    A questão é que a imprensa é genericamente inculta e muita ente luta pelos minutos de fama de que falava Warhol o que inibe prudência deontológia e ética, falar do que se sabe. Podia dar-lhe alguns exemplos de episódios bem elucidativos que se passaram comigo em convites para “opinar” sobre assuntos que não estudo, não sei, pelo que não me pronuncio sobre eles em contextos públicos.


    • Como o compreendo, Zé Morgado! Fui, muitos anos, professor de Psicologia no Ensino Secundário e penso saber bem da humildade e prudência que devem acompanhar as incursões por essas áreas. Mas não falta por aí quem – nesta, como noutras áreas disciplinares das Ciências Sociais – adore fazer o papel de guru que se oferece à admiração das massas. E o pior é que não lhes faltam fiéis adoradores.

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