Noutros tempos, uma mentira destas passaria. Hoje, há memória digital.

“Há uns quantos mitos urbanos, um deles é que eu incentivei os jovens a emigrar. Eu desafio qualquer um a recordar alguma intervenção ou escrito que eu tenha tido nesse sentido”, disse Passos Coelho ontem.

Ao minuto 2:10. E se houver dúvidas quanto ao sentido, que se ouça do início.

A ideia de mandar os portugueses emigrarem foi transversal ao governo e não um episódio isolado.

As várias declarações de apelo à emigração
17 Janeiro 2013, 18:28 por Jornal de Negócios
O Negócios lembra as várias declarações do Governo sobre o tema emigração.

A primeira polémica aconteceu a 31 de Outubro de 2011, quando a Lusa emitiu uma notícia, citando o secretário de Estado do Desporto e da Juventude, Alexandre Mestre, dizendo que: “se estamos no desemprego, temos de sair da zona de conforto e ir para além das nossas fronteiras”.
O conselho foi dado pelo secretário de Estado numa conferência no Brasil. Dias depois, ao “Correio da Manhã”, Alexandre Mestre desmentia a declaração, mas a Lusa manteve-a.
E os estilhaços chegaram ao Parlamento. Miguel Relvas, ministro-adjunto dos Assuntos Parlamentares, foi instado a comentar as declarações de Alexandre Mestre, qualificando-as de normais. Respondendo à oposição, Miguel Relvas, a 16 de Novembro de 2011, declarou: “Quem entende que tem condições para encontrar [oportunidades] fora do seu país, num prazo mais ou menos curto, sempre com a perspectiva de poder voltar, mas que pode fortalecer a sua formação, pode conhecer outras realidades culturais, [isso] é extraordinariamente positivo”, afirmou.

“Nós temos hoje uma geração extraordinariamente bem preparada, na qual Portugal investiu muito. A nossa economia e a situação em que estamos não permitem a esses activos fantásticos terem em Portugal hoje solução para a sua vida activa. Procurar e desafiar a ambição é sempre extraordinariamente importante”, reforçou Miguel Relvas, ideia que repetiu em outros foruns.

Nesse mesmo ano, em Dezembro, Passos Coelho, em entrevista ao “Correio da Manhã”, acrescenta aos jovens, aos desempregados e professores não colocados na lista de potenciais emigrantes.
A pergunta ia direccionada: “Nos professores excedentários, o senhor primeiro-ministro aconselhá-los-ia a abandonar a sua zona de conforto e procurarem emprego noutros sítios?”. A resposta: “Angola, mas não só Angola, o Brasil também, tem uma grande necessidade ao nível do ensino básico e do ensino secundário de mão de obra qualificada e de professores.Sabemos que há muitos professores em Portugal que não têm nesta altura ocupação e o próprio sistema privado não consegue ter oferta para todos. Nos próximos anos haverá muita gente em Portugal que ou consegue nessa área fazer formação e estar disponível para outras áreas ou querendo-se manter, sobretudo como professores, podem olhar para todo o mercado de língua portuguesa e encontrar aí uma alternativa”. Depois destas declarações, foram os próprios professores e desempregados que aconselharam o primeiro-ministro a emigrar.

Foi esse meio milhão de portugueses que emigraram um dos factores que atenuou a subida do desemprego. Qual país que está melhor qual porra.

Perante a desfaçatez, aproveito para deixar uma mensagem ao primeiro-ministro:

– Ó Pedro, sai da tua zona de conforto e experimenta arranjar um emprego fora do esquema partidário. Há sempre uma primeira vez para tudo e, quem sabe, se até não gostarás da experiência. Uma vez disseste que te estavas nas tintas para as eleições mas, com este revisionismo compulsivo, ainda alguém começa a duvidar disso. Deixa-te de merdas e vai mas é trabalhar. Só enganas quem quer ser enganado.

Comments

  1. mdlsds says:

    Achei sempre, e ainda acho, que este homem considera o povo uma cambada de limitados. As pessoas não são estúpidas e mesmo sem registos digitais poucos devem ter esquecido que fomos aconselhados a deixar o nosso país e a aproveitar essa oportunidade que a crise nos trouxe. Só considerando que somos mesmo muito estúpidos é que pode ter o desplante de dizer uma coisa destas. Ou então não sabe o significado da expressão mito urbano.


  2. Este senhor (como muitos outros na política) passam as suas vidas a insultar a inteligência do povo. Mas eu estou preocupado, pois a populaça portuguesa está a dar a pessoas como o senhor Coelho uma luz de esperança. As últimas sondagens aguçam-lhes a tendência para a mentira. O homem intrujou-nos que se fartou e agora vem negar o inegável.
    Mito urbano? Está gravada a sua desonestidade intelectual, senhor Coelho! Como pode falar em mitos?! Se gosta deles, sugiro-lhe um, mas apenas se fixe no título: “O Cavaleiro Sem-cabeça”. Vá a galope; termine o maldito mandato; e desapareça da nossa vista! Emigre e contribue também para a diminuição do desemprego. O senhor não é bem-vindo e eu não gosto que me insultem.

  3. Hélder P. says:

    http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2015/06/09/passos-coelho-no-seu-portugal-dos-pequenitos/
    Acrescento só a ligação ao Tudo Menos Economia do Francisco Louçã.
    Portugal bateu com este governo o recorde absoluto de emigração, nem com guerra colonial e ditadura, saíram tantas pessoas do país. Ora, isto dá cá um jeito para compor as estatísticas do desemprego e sempre é menos gente a protestar nas ruas.

    Com esta debandada e com o défice demográfico que já temos, a insustentabilidade da Seg. Social vai tornar-se uma “self-fullfiling prophecy” (a não ser que invertamos urgentemente o azimute das políticas). Ora, isso também vai dar muito jeito para de mansinho propor uma privatização à chilena da previdência. É já a seguir. Chamem-lhes parvos…

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  1. […] procurou refazer o passado quanto ao que disse sobre ter incentivado os portugueses a emigrarem. O registo de vídeo não engana e aí está para quem quiser […]


  2. […] As declarações de Alexandre Mestre e de Passos Coelho podem ser encontradas neste artigo: Noutros tempos, uma mentira destas passaria. Hoje, há memória digital. […]

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