A Última Habitante*

drave

(imagem da aldeia de Drave tirada daqui)

Há alguns anos li A Chuva Amarela do espanhol Júlio Llamazares. Aí se fala de Ainielle, uma aldeia dos Pirinéus de Huesca esquecida por todos os Homens, menos por um. Ele, o último habitante, que espera a única coisa a esperar, revivendo os habitantes que partiram, assistindo ao passar das estações, sempre do mesmo modo. O último habitante de Ainielle era uma personagem de ficção e acabou por partir sem sair da sua aldeia. Mas Ainielle existe. Ainda há indicações na estrada para quem quiser seguir o caminho para lado nenhum. Um lugar que antes se agitava nas tarefas agrícolas que marcavam o passar (quase sempre lento) do tempo. Que festejava os santos e as boas colheitas. Em que nasciam pessoas e morriam. Em que se vivia. Hoje Ainielle é apenas um recorte de ruínas contra o céu demasiado azul do verão da Catalunha. No Inverno aventuram-se por ali alguns adeptos dos desportos na neve. De resto, entre a neve e a urze, no tempo adequado, é tudo solidão.

Nunca, antes desta leitura, tinha imaginado o último habitante de qualquer lugar… enfim, se exceptuarmos os épicos westerns americanos em que o cowboy solitário atravessava as imensas e amarelas pradarias carregadas de bisontes. Mas esse não habitava, transitava. E, além disso não era gente como nós. Apreciava a solidão. Era um herói de ficção. E entretinha-se de quando em vez numas lutas, sempre muito desiguais, contra os índios. Na verdade, nunca gostei de westerns. Ficção a mais? Desrespeito a mais pelos nativos? Abundância de solidão e desapego?

No tempo em que via westerns e mesmo no tempo em que li A Chuva Amarela não imaginava Drave. Uma aldeia na Serra da Freita. Uma aldeia como outras noutras serras do país. Uma aldeia em que o último habitante espera a única coisa a esperar. O último habitante é a última habitante. Lamentavelmente não conheço o seu nome. Sei que tem mais de 70 anos. Que percorre a pé caminhos que agora só ela conhece para ir até a mercearia mais próxima a uns quantos quilómetros de distância. Sei que a última habitante de Drave não viu ainda a estrada chegar e desconfio que ao serão relembra as vidas de outros habitantes que partiram. Drave fica na Serra da Freita, talvez a pouco mais de 50 quilómetros da cidade de Aveiro, talvez a menos alguns do Porto. Mas que pode isso interessar a quem não tem carro e raramente vê um? Ainda que houvesse carro, não havia estrada. Ainda que houvesse carro e estrada não haveria muito que fazer fora daquela sombra em que agora Drave se transforma. Não existem muitas indicações para chegar a Drave. Nunca existiram. Mas chegam cada vez mais pessoas. Gostam de ver a paisagem, as ruínas das casas de pedra, os últimos vestígios de uma cultura perdida há muito. A última habitante de Drave fecha-se à chave. Um gesto inédito, mas aparentemente necessário. É uma luta desigual esta, entre quem vem ver e quem não está para ser visto. Entre o instante da fotografia e o peso de anos de uma solidão assim.

Drave é apenas uma aldeia. Tinha até há pouco tempo apenas uma habitante. Drave deixará de ser quando a última habitante deixar de ser (?). Para lá de qualquer análise sociológica ao que aconteceu em Drave, ao que está a acontecer na maior parte das aldeias da Serra da Freita, ao que acontecerá a muitas mais aldeias do interior de Portugal, resta a poesia deste ficar até ao fim no único lugar que se conheceu e nos pertence. Vivemos num tempo sem tempo. Em que tudo é demasiado rápido e demasiado leve. Em que acedemos a tudo com a mesma facilidade com que tudo esquecemos. Em que (quase) nada permanece. Desconhecemos, no entanto, o lento movimento das folhas das árvores que em Drave se faz de uma maneira determinada e diferente. O modo como o sol surge todos os dias e se recolhe todas as noites. Mas, assim mesmo, lá vamos. Transportando as máquinas fotográficas, procurando o instante perfeito para podermos dizer eu estive aqui. Esquecendo que, mesmo obtido o momento e o ângulo perfeitos, nunca teremos tempo para conhecer um rosto, aquele rosto, completamente. Nunca teremos o vagar necessário para conhecermos Drave profundamente.

Penso algumas vezes no que acontecerá a esta aldeia (a muitas aldeias como esta) quando a última habitante desaparecer. Provavelmente, a estrada acabará por chegar tal como chegarão outras comodidades agora inexistentes, para os que virão em trânsito. Para os que não permanecerão mais que uns dias naquela paisagem. Não deixa de ser um paradoxo que os símbolos de desenvolvimento se anunciem enquanto lentamente a aldeia vai morrendo. Que os traços de modernidade surjam quando deixou de existir qualquer dinâmica interior. Quando Drave nada mais é que um cenário, um espectáculo por onde se passeiam visitantes. Não deixa de ser irónico que a administração central e local do nosso país nunca tenha sequer tentado decifrar o microfilme dos últimos habitantes das aldeias, ocupada na leitura dos grandes caracteres da promoção turística, dos casinos, dos hotéis, das estações de ski. Não deixa de ser surpreendente que o desenvolvimento chegue a Drave quando já não existe ninguém a quem o dirigir.

* Crónica publicada no Jornal de Notícias, em 2 de Março de 2004. No tempo em que eu escrevia crónicas no Passeio Público. Apesar de ter já 11 anos penso que continua atual. Não apenas no que diz respeito a Drave, mas para muitas aldeias de Portugal.
Esta crónica tinha uma dedicatória. Ainda tem. Era (e é) esta: «Ao Nuno. Porque estamos em Março. Porque sem ele as aldeias, os filmes, os livros e as ideias não fazem muito sentido. Nem a vida.»

Comments


  1. Calhava bem aqui pensar o que podemos fazer com os refugiados? Afinal somos a membros da UE; aquela zona do mundo onde quem é pobre, diferente e livre pode viver sem medo. E olhe que há muito poucas onde se pode dizer o mesmo. Apesar das posições de pilhas do Camarão e o Holadinho, curiosamente os que mais responsabilidade têm no desastre da Libia, Siria Iraque…) a maioria dos dirigenets da UE, como a Merkl vão apoiar os refugiados, muitos culpa da arrogancia dos EUA e o seu “direito” de intervir onde lhes aprouver.


  2. Mau exemplo, Drave está desabitada, mas não está abandonada:

  3. Edgar rocha says:

    O lugar da Drave não fica na Serra da Freira. O lugar da Drave não fica a 50 km de Aveiro e muito menos da cidade do Porto. Este Sr jornalista… deveria informar-se muito bem, antecipadamente, para não deduzir em erro, os leitores.

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.