Postcards from Liverpool #1

Day Tripper*
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Este postal é curto e não é inspirado. São estas horas e eu quero dormir que amanhã há muito que ver e que fazer e nem estou a falar das coisas dos Beatles. Acho que já terei mencionado que não sou particularmente fã dos quatro rapazes de Liverpool. Mas aqui chegada é, realmente, impossível não tropeçar, em cada esquina, em toda a espécie de referências.

Cheguei a Liverpool, ao hotel-prisão maravilhoso onde estou agora, em Cheapside, eram quase 11 da noite. Costumo enfatizar o tempo que demoro nas viagens e desta vez não será exceção. Era uma da tarde quando saí de casa dos meus pais, 3 e meia quando o avião descolou. 5 e meia da tarde quando aterrou sem sobressaltos em Heathrow e 7 da tarde quando entrei na Euston Station para apanhar o comboio para aqui. Antes apanhei o Heathrow Express para Paddington. Daí atrevi-me a tomar um taxi para a Euston Station, já farta do enorme trambolho que contém, entre outras coisas, a minha roupa para os próximos 16 dias. Isto significa que passei 10 horas em viagem. Comi no comboio (cujo bilhete me custou os olhos da cara e me ensinou a comprar, a partir de agora, na internet) já farta de saber que depois das 11h da noite não há grandes hipóteses de comer e de beber em praticamente qualquer cidade inglesa. Fiz bem. Também aqui se confirma que um copo que seja depois desta hora é extraordinariamente difícil.

Assim mesmo, depois de chegar e pousar as malas no último piso do hotel, sem elevador, resolvo sair. Ando e ando e ando e tudo está fechado. Na rua poucas pessoas e bastante escuridão. A certa altura ouço música e viro num beco, depois percebo que é a Mathew Str, porque dou quase imediatamente de caras com uma estátua do John Lennon, encostada a uma parede, rodeada de ramos de flores em frente ao Cavern Club**. Peço a um senhor que me tire uma fotografia e de repente, sem saber bem de onde, aparecem umas 20 pessoas que tratam de me fotografar a mim e ao Lennon. Suponho que tenham sido estes os meus 15 minutos de fama.

Não entro nos clubes da Mathew Str., nem sequer no Cavern. A música é exageradamente alta e horrível e não é o meu género de coisa. Percorro a pequena rua até ao fim, saio na extremidade oposto por onde entrei e, claro, desoriento-me. Não está ninguém na rua e eu oriento-me não sei como e regresso a Cheapside um bocado depois, sem cerveja, é certo.

Subo os três andares até ao quarto. O hotel é bem bonito. Era uma antiga prisão. E mantém a traça, os quartos são onde antes eram as celas. O conforto esse deve ser bem maior. Quero dizer, o hotel é confortável… mas nunca estive numa prisão, pelo que não tenho a certeza a respeito do seu desconforto. Pelo que vejo nos filmes e nos jornais, não deve ser grande. Lembro-me que é a primeira vez que entro numa prisão. Que já não o é, sequer. No quarto a persiana não funciona. Desço os três andares até à recepção. Os rapazes mudam-me de quarto. Para este onde estou agora a escrever, no rés-do-chão. Estou mais contente. Para fumar não preciso já de fazer tanta ginástica. é só sair do quarto, atravessar a recepção e estou no pátio, rodeado de grades. Por falar nisso, acho que vou lá fora, antes de me deitar.

Não tenho nada a dizer ainda sobre Liverpool. Não vi nada nem ninguém praticamente… a não ser os rapazes da recepção e a estátua do John Lennon. Também praticamente não falei com ninguém a não ser com os mesmos rapazes e com o senhor que me tirou a fotografia. Neste dia viajei apenas. Carro. Avião. Comboio. Táxi. Comboio. Autocarro. Não se passou nada de assinalável para além da viagem e do avanço que dei no Sangue Sábio, da Flannery O’Connor. Não me parece que seja a melhor leitura para começar as férias, no entanto. É tudo tão deprimente. Escrito de forma sublime. Mas deprimente. Devia ter trazido romances cor-de-rosa, como a senhora britânica que se sentou do lado oposto ao meu, no corredor, no avião. Lia um grosso romance, visivelmente cor-de-rosa, chamado Three Amazing Things About You. Achei que eram páginas demais para apenas três coisas espantosas. Mas se calhar as coisas espantosas, mesmo nos romances cor-de-rosa, devem descrever-se muito bem e serem saboreadas, como nos passeios de domingo, Tal como eu vou saborear o meu último cigarro ali ao pátio, antes de me enfiar na cama e dormir – espero – profundamente.

* Day Tripper é o título de uma canção dos Beatles, claro está. (https://www.youtube.com/watch?v=Fwt2qwPctb4)
** Cavern Club foi o clube onde os Beatles nasceram.

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