Postal já não sei de onde

Please proceed to departure gates

Este postal não tem fotografias. Porque apenas tirei duas hoje, uma delas selfie, enquanto fumava no aeroporto de Heathrow. Afinal este postal tem duas fotografias. Acordei um bocadinho depois das oito em Edimburgo. São quatro da manhã e estou praticamente a dormir, no sofá de minha casa, sentindo uma espécie de vazio, que o sono, de certeza, apagará. O voo de Edimburgo para Londres atrasou-se uma hora. O aeroporto de Edinburgo é muito organizado e moderno. Pela primeira vez entrei numa máquina que me fez um ‘body scan’. Não sei o que encontrou, se pode radiografar o princípio do vazio que sinto agora dentro. Seja como for, deixaram-me seguir para as portas de embarque. Estamos sempre a partir de qualquer lado, a atravessar portas, pessoas, dimensões e a derrubar barreiras, quando viajamos.

Em Londres o tempo está cinzento, como sempre. Heathrow é um dos aeroportos mais funcionais que conheço, apesar de gigante. Não damos pelos milhares de pessoas que, todos os dias partem de qualquer lado e aqui chegam ou que partem daqui para chegar a qualquer lado. Tenho mais de duas horas para matar antes de regressar. Procuro um sítio para fumar. Mais portas e barreiras. É muito difícil ser fumador, atualmente, sobretudo aqui. Encontro um sítio, mais tarde outro. Pelo meio como. Passo no controlo. Nenhuma máquina me procura vazios no corpo e, um bom tempo antes do voo, estou sentada a acabar o livro da Miranda July, depois de mais portas. Chamam as pessoas do voo para Lisboa. O avião da TAP sai quase à hora marcada e, assim que entro nele, é Portugal outra vez.

O aeroporto de Lisboa é dos piores que conheço na Europa. Desorganizado, cheio de gente, uma confusão e longas esperas com as malas. A minha aparece ao fim de largos minutos. Vem estragada, não faz mal, foi muitíssimo barata, vai para o lixo assim que chegar a casa e a desfizer. Apanho um táxi para casa dos meus pais. Sento-me no banco de trás, do lado direito, e estranho quando o taxista se senta do lado esquerdo. Em casa dos meus pais janto. Não há àgua em muitas zonas do bairro desde madrugada. E eu, com vinte quilos de roupa suja dentro da mala, assusto-me diante da possibilidade de amanhã voltar a não haver àgua. E de ter tanto que fazer, em Aveiro, afinal e apenas mais três dias de férias.

Vou buscar a ‘torradeira (aka o meu carro) que deixei na garagém da minha prima, e estou decidida a voltar ainda hoje para Aveiro, para a minha casa onde, é quase certo, haverá àgua. Os meus pais ficam tristes que eu me venha embora, mais a mais às dez da noite. Preocupam-se. Acho que é normal. Digo que não estou cansada, e é verdade, quando o digo. Dormitei nos aviões, além de ler (comecei, no último voo, a ler ‘A última palavra’, do Hanif Kureishi, de quem sou fã desde que, há muitos anos, li o ‘Intimidade’. Desde então, li todos os seus livros, menos este). E volto a casa deles daqui a uns dias.

Venho,então, a ouvir música muito alto na autoestrada para me concentrar. É meia noite e dezoito quando páro em frente à minha casa, atravessados os pórticos e as portagens. A máquina da roupa está a trabalhar. A grande mala partida já está no lixo. Todas as coisas estão arrumadas. Mesmo eu, que adormeço intermitentemente no sofá da sala, misturando nos vagos sonhos que não são ainda suficientes para acabar com o vazio, muitas coisas, muitos lugares e muitas pessoas. Sonhos vagos de voltar partir, no entanto. De estar sempre a partir. Atravessando portas, lugares e pessoas. Não ter sono, nem cansaço, nem vazios.

Mas tenho. Por isso parto outra vez, abandonando-me ao sono.

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