Portugal: uma sociedade doente


Os portugueses são um povo neurótico, a precisar de colo e de se pensar a si próprio e à sua existência. Carlos Céu e Silva, psicólogo clínico, pensa que o considerável aumento do mal-estar que a austeridade provocou espelha de forma preocupante as patologias mentais de uma sociedade doente. E responsabiliza os políticos portugueses por esse quadro depressivo.

(c) Sandra Bernardo
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Há dias, no Facebook, apareceu uma frase que creio que define bem o mal-estar que está na raiz de várias patologias que afectam os portugueses. Essa frase diz assim: «Doutor, sofro de retenção de tristeza». O que pensa da frase?
Diria que a partir do momento em que a pessoa expressa de forma tão clara o seu mal-estar, uma parte do caminho já se fez. O sofrimento mais profundo e mais existencial da nossa vida, nós temos muitas vezes dificuldade em expressá-lo, ele não é sempre traduzível em palavras. Nessa medida, essa frase indica muito claramente que a pessoa que a diz está muito triste, ou muito melancólica, relativamente a uma sociedade que não corresponde ao seu ideal. Penso, também, que há depressão na existência dessa pessoa. Mas não posso saber, apenas pela frase, a gravidade dessa depressão, o grau que tem na sua vida diária e de que forma a afecta.

CARLOS CÉU E SILVA (n. 1960) é Psicólogo clínico e Mestre em Aconselhamento Dinâmico. Fundador e Presidente da Olhar – Associação pela Prevenção e Apoio à Saúde Mental, é também Presidente da Laços Eternos – Associação de apoio a pais e irmãos em luto. Como pensador e escritor, assinou Dicionário Psicológico da Criança – a partir da obra de João dos Santos (Âncora, 2008), As Mulheres de Henry James (Coisas de Ler, 2009), Édipo – Uma História Completa (Coisas de Ler, 2009) e Infâncias (Esfera Poética, 2014).

O que transforma essa frase num enunciado significativo é a palavra retenção. Porque essa palavra diz-nos que há uma justaposição de várias camadas de tristeza que estão retidas, que não foram ainda ou libertadas ou transformadas noutra coisa.
Concordo. Mas podemos também interpretar essa palavra de outra forma, porque ela também pode dizer-nos que a pessoa detém um poder individual sobre a situação.

Que é capaz de se auto-controlar?
Sim. E talvez até de um egoísmo.

Não percebo a ideia de egoísmo. Pode explicitar?
Se olharmos para o ser humano nas suas componentes internas e mentais, percebemos que há sempre egoísmo, porque para sobrevivermos tem de haver da nossa parte um constante esforço suplementar. É porque temos esse poder individual, seja ele mental, emocional ou fisiológico, que somos capazes de reter – tal como uma criança se torna capaz de controlar a micção, por exemplo. A capacidade de retenção tem a ver com a forma como nós nos concebemos como seres individuais e sociais. E é este conflito, por vezes desorganizado, que faz com que possamos sentir-nos melancolicamente desprovidos de capacidade para viver socialmente em equilíbrio.

Considera, ou não, que a frase define o povo português?
Considero que define bem e mal o povo português. Define bem porque de facto o povo português é um povo que deseja poder, que deseja conquistar poder, e também o poder de se auto-controlar. Mesmo que depois experimente dificuldade em ter poder, em lidar com o poder, qualquer que seja. E define mal porque quando o português adquire poder, a forma como o gere revela uma dificuldade operacional em assumir conscientemente as suas decisões. E revela também um equívoco, porque a relação com o poder não obriga ao uso de autoritarismo, mas a uma disciplina afirmativa e estimuladora.

O que quer dizer quando diz que os portugueses não lidam bem com o poder?
Quero dizer que nós, portugueses, historicamente, não fomos e continuamos a não estar preparados e a não ser educados para o poder. O português típico deseja o poder, e inveja o poder de quem o tem. Quem tem poder é sempre visto pelos portugueses como um ser a abater. Porquê? Para que possam substituir os outros nesse poder.

Podemos encarar isso como um defeito constitutivo do carácter nacional?
Podemos. Mas vale a pena perguntar porquê, por que é que esse carácter tem essas características? Porque é que nós, portugueses, somos tipicamente invejosos e temos, tipicamente, a tendência para ver o outro de forma deturpada e como um ser ameaçador?

Porquê?
A nossa história existencial enquanto povo, e a criação da nossa pátria enquanto chão, mostram-nos que fomos sempre assim.

E no entanto somos antigos, temos caminho feito.
Penso que o ser humano muda pouco ao longo de tão curto espaço de tempo. Quero dizer que somos, nós Humanidade, sensivelmente iguais aos primitivos. Apesar de todo o desenvolvimento, que considero fantástico, nós somos, no século XXI, sensivelmente iguais ao que éramos no tempo das cavernas. Sim, é verdade que descobrimos o fogo e tudo o que se lhe seguiu, mas em termos de desenvolvimento do pensamento e de desenvolvimento emocional, pouco mudámos, creio. Se pudéssemos ser enviados a épocas anteriores à nossa, seríamos confrontados com sociedades muito atrasadas, que apenas somos capazes de imaginar cinematograficamente, apesar de o cinema não proporcionar, na minha opinião, uma imagem fiel da realidade. Só a literatura o faz, só ela, escrita num determinado tempo, reproduz a realidade vivida nessa época em que é escrita. Não quero desvalorizar o cinema, mas penso que é uma linguagem que normalmente deturpa a realidade, mesmo quando procura ser fiel a um tempo histórico. Portanto, penso que se fôssemos visitar essas outras épocas, tenho a certeza de que seríamos confrontados com essa realidade tão chocante de nos descobrirmos emocionalmente muito parecidos, se não mesmo iguais aos nossos antepassados. Como sei isto? Porque verifico que continuamos a reagir em relação ao medo ou à indiferença ou à inveja ou ao egoísmo da mesma maneira. Somos os mesmos animais dos primórdios.

Mas não assumimos isso, e aliás nem sequer nos reconhecemos como animais.
Pois não, e esse é um grande problema. Mas há outros: não aceitamos que morremos individualmente. Temos sempre uma visão errada da nossa própria morte. Não temos muitas vezes noção da nossa própria história de vida. Renegamos muitas vezes o nosso passado. Achamos que o presente é feito de futuro, quando na verdade ele é efectivamente feito de passado. Estou a generalizar, claro, há pessoas que são diferentes, mas estou a falar da maioria.

Mantivémo-nos primários. Não compreendemos quem somos, ou como construir a nossa existência.
Sim. É nesse sentido que falo de ausência de desenvolvimento.

Somos criados num registo de sadismo que abafa todos os masoquismos.

Seremos então, nós portugueses, parte de uma Humanidade humanamente subdesenvolvida. Mas talvez a natureza das relações entre as pessoas contribua decisivamente para esse subdesenvolvimento. E também para essa tão grande retenção de tristeza. Refiro-me a todas as relações, que me parecem todas e sempre relações de poder.
Sim, até as amorosas.

Ou seja, existimos nessa dualidade, que é também uma alternância. Ora sou eu que detenho poder sobre ti, ora és tu que o detens sobre mim, e alternamos nesses papéis de poder ao longo da vida. Ainda assim, parece-me que a sociedade portuguesa é maioritariamente constituída por masoquistas. Como há muitos, e muito masoquistas, os sádicos, que são em menor número, vêem-se na necessidade de ter de ser muito eficazes, logo, muito sádicos. É uma caricatura, mas o que pensa disto?
Penso que é verdadeiro. Na minha opinião, Portugal é, em termos de quadro mental, uma sociedade doente. Há uma doença que faz parte da nossa existência enquanto portugueses. A instauração da República não fez de nós republicanos. Somos monárquicos. Gostamos de ser governados por um só. Isso continua na nossa cabeça. Estamos a dias de ir votar, e agimos como se tivéssemos de escolher um de entre dois apenas. Ou votamos rosa, ou votamos laranja. Sim, o grande sádico será um desses. Somos portanto criados num registo de sadismo que abafa todos os masoquismos, isto é, todos os que sofrem em silêncio e que não têm uma força – ou política, ou económica, ou social – para romper com isso. É uma visão neurótica que trazemos do Estado Novo, de obediência e de subserviência.

Mas o masoquismo não pressupõe prazer?
Sem dúvida. Mas quando vivemos num registo de sofrimento, estamos tão confortáveis nesse sofrimento, que já não queremos outra coisa, nem sequer conseguimos vislumbrar que possa existir uma alternativa ao sofrimento. As pessoas costumam dizer que ninguém quer sofrer. Mas isso não é bem assim, porque quando não se consegue imaginar que exista qualquer coisa para além da dor, o sofrimento é tudo o que se conhece e é tudo o que se alimenta – e tudo o que se deseja.

Imagino que tudo isso aconteça num plano inconsciente. Neste momento, por exemplo, há um ar pesado de medo na sociedade portuguesa. Um medo difuso, não saberei bem dizer do quê.
Um medo abstracto, sim. Mas que não deixa de ser um medo baseado numa realidade que desilude.

E necessariamente uma inércia, porque o medo paralisa e gera uma incapacidade para agir sobre a realidade. Indo votar, por exemplo. Por que fazemos assim?
Porque somos criados numa mentira. Há uma noção de integração que na prática, muitas vezes, não passa de uma visão que vivencia e destaca um estado de orfandade.

Que mentira é essa?
É a própria noção de pátria. Pergunto-me onde ela começa. Com D. Afonso Henriques? Começa com a divisão do Mundo? Com o Império? Quando perdemos o D. Sebastião? Quando começou a pátria?

Em que medida isso é mais mentiroso que a pátria francesa ou sueca?
Não sei, teríamos de conhecer a história dessas outras pátrias.

Mas está a questionar o conceito de pátria? Pensa que ele é nefasto?
Não. Penso que é uma ideia aglutinadora que pode até ser saudável. Ou melhor dizendo: que até pode ser protectora. Mas não no nosso caso, porque toda a protecção em demasia não nos prepara para o crescimento. Isso aconteceu com as nossas monarquias, e aconteceu com Salazar e continua a acontecer com todos os governantes desde o 25 de Abril. Porque quando chegaram a Portugal os valores da república e se acabou com a monarquia, isso não significou o fim dos princípios que regiam a sociedade durante a monarquia. Muitas das figuras dominantes que reinavam, que detinham poder durante a monarquia, rapidamente despiram essas vestes para vestir as da república. Mas as pessoas eram as mesmas, e não tinham mudado. E isso repetiu-se com o 25 de Abril também. Onde está o problema?

Não há ruptura.
Isso. O vínculo, mesmo que seja subterrâneo, silencioso, ocultado, permanece.

O que explica decerto que não se façam em Portugal os julgamentos da História. Como foi o caso dos julgamentos dos crimes do Estado Novo, jamais feitos. Nessa medida, a tão grande justaposição de sedimentos de tristeza, essa retenção muito grande, contém também grandes doses de injustiça, de indignidade e de indignação. Mas a realização desses julgamentos seria purificadora, regeneradora do corpo social.
Não havendo ruptura, não há julgamento, e por isso não pode haver regeneração. Mas tem de haver condenação. O 25 de Abril foi sintomático disto que digo. Rompeu-se com o Estado Novo – eis outra ideia falsa, pois tratava-se na verdade de um Estado Velho, com gente velha, de pensamento velho –, mas não se rompeu com os problemas desse Estado. Por isso vivemos numa sociedade onde a hipocrisia se mantém, com outras formas. O que é que isto faz em termos de saúde mental? Faz com que não tenhamos a consciência de que por vezes temos mesmo de nos zangar com as pessoas que nos fizeram mal e que controlam a nossa vida.

Como no caso dos filhos relativamente aos pais?
Sim, pois na génese trata-se do mesmo fenómeno. Os pais têm muito aquela ideia de que os filhos têm problemas porque são rebeldes. Ora, a mim parece-me que hoje em dia não há grande rebeldia na juventude. O que existe é um discurso diferente sobre o que é a juventude. Os pais estão contaminados pelos fenómenos juvenis e tendem até muitas vezes a reproduzir, de forma inconsciente, os conceitos juvenis, pois essa parece-lhes uma boa forma de se manterem jovens. Mas acontece que para os filhos crescerem, os pais têm também de crescer, para que primeiro os filhos olhem para eles com admiração, enquanto os pais os protegem, mas sobretudo para que depois, quando deixam de admirá-los, ou passam a admirá-los menos, os filhos possam assumir a sua identidade própria.

Uma identidade que se constrói justamente por oposição aos pais.
Pois. É nesse momento que normalmente os filhos olham para eles com desilusão. O que não quer dizer que tenham deixado de gostar dos pais. É como com a pátria. É a mesma relação. Quando os que mandam na pátria, os governantes, não nos dão colo quando nós precisamos dele, ou quando nos tiram o colo quando não deviam, nós devemos zangar-nos. Como não o fazemos, vivemos nessa dor, numa interrogação sem respostas. E portanto, quando se tem poder, seja através da política, da paternidade ou da hierarquia numa organização profissional, há tendência para as pessoas se tornarem sádicas, para abusarem desse poder. E fazem-no exercendo o mesmo poder de que foram vítimas. E há uma perpetuação nisso, a tendência para reproduzir e aumentar isso que sofremos em silêncio enquanto não tínhamos poder. O que acontece porque há ou um vazio ou uma revolta. E porque essa revolta não é compreendida por nós, não é trabalhada, pensada, porque não temos tempo para pensar nela, que na maior parte dos casos aliás ignoramos, porque, em suma, não temos a percepção clara da sua existência.

Porque vivemos numa vertigem?
Sim, porque estamos sempre com pressa. Toda a gente diz que hoje em dia não se tem tempo para nada. Isso é outra mentira. Eu não concordo com essa ideia. Penso que há tempo para quase tudo. O tempo quando não existe é porque o gerimos mal. Somos maus gestores da nossa vida. Porque não nos respeitamos. Porque queremos fazer várias coisas ao mesmo tempo: ir ao supermercado fazer compras, ir jogar à bola com o nosso filho (num cenário idílico que de modo nenhum corresponde à maioria dos casos) e estar no Facebook ou a ver televisão.

Uma questão de prioridades que não estabelecemos?
Sim, porque não há uma capacidade pensante individual. Só existe um pensamento colectivo. E como é assim, vamos todos atrás da mesma onda. Claro que isso não nos leva a lado nenhum interessante, pelo contrário afoga-nos, que é o que está a acontecer. Por isso é que as depressões aumentaram tanto. E os suicídios.

Temos a ideia de que os suicídios aumentaram durante o ciclo governativo que agora termina. Confirma?
Não tenho dados estatísticos mas penso que houve um aumento, sim. São casos de desespero, de pessoas que se viram confrontadas com uma realidade financeira-limite, e que não conseguiram imaginar qualquer perspectiva de mudança.

Temos também a ideia de que os suicídios mais recentes em relação com a crise atingiram sobretudo as classes médias, cujo desespero se prende com a impossibilidade de manter os níveis de vida que tinham conquistado, e nem tanto os mais desmunidos economicamente, cujas necessidades práticas de sobrevivência pura e dura escapam a essa lógica de quem se matou porque perdeu o seu poder – poder de compra, designadamente, e status. Será assim?
É assim. São pessoas que perderam os seus poderes materiais, os benefícios, e a capacidade de consumo que assegurava um determinado tipo de vida, automóveis, etc. E digo isto não num sentido narcísico, não: essas pessoas sofrem, e os mais pobres, que nunca tiveram um carro, por exemplo, não compreendem o sofrimento dessas outras pessoas. É claro que elas podem vender o carro, mas isso não resolve o problema, porque a dor interna que isso acarreta – viver sem carro – é totalmente diferente da das pessoas que nunca tiveram um carro. A forma de olhar para a vida é outra, seja de uma forma filosófica, existencial ou realista. São pessoas que não têm uma estrutura mental em que possa encaixar uma existência em que passam a andar de metro ou de comboio. São quadros mentais distintos.

Esse sofrimento é muito silenciado. As pessoas ainda receiam o estigma da doença mental?
A percepção que a sociedade tem da doença mental é errada, penso que ela ainda é apreendida como uma espécie de irrealidade. E há muito preconceito, também. Quando uma pessoa fica desempregada e entra em depressão, as pessoas, para dizer a sociedade em geral, têm tendência para olhar para essa depressão como uma coisa passageira. Mas se o desemprego não é revertido e as pessoas ficam sem uma ocupação, por vezes a depressão instala-se e é muito difícil de curar. Por outro lado, as próprias pessoas não cuidam da sua saúde mental. Não fazem nenhum desporto mental, por exemplo.

Que desporto mental poderiam fazer?
Aprender a pensar. A pensar na sua forma de viver. Por que é que as pessoas em vez de irem todas para casa à mesma hora dar cabo dos nervos nos engarrafamentos, não ficam a descontrair num jardim, ou a ler, e vão mais tarde para casa? As pessoas precisam de arranjar soluções. Caminhar também um óptimo desporto mental, porque permite pensar enquanto se caminha, justamente. Mas as pessoas preferem ir para o ginásio tratar do corpo e depois passar o serão no Facebook. É preciso mudar isto.

Vivemos numa sociedade onde a hipocrisia do Estado Novo se mantém.

A crise tornou visível o sofrimento de muita gente. Quem é que o tem procurado? Com que patologias?
A crise desencadeia sofrimento, há um mal-estar social evidente, e as pessoas precisam de ajuda. Mas se eu tenho a carteira vazia, não tenho recursos para ir ao psicólogo. Nesse sentido, eu acuso todos os políticos portugueses por esse estado depressivo e melancólico do povo. Porque penso que os políticos, quando tomam decisões políticas ligeiras, sem atentar nas consequências, sem consistência, ou sem prospectiva, nós, sociedade, não conseguimos ter estabilidade interna. Enquanto a sociedade finlandesa, por exemplo, investe na educação, acredita num modelo e vai desenvolvendo todas as estratégias para o alcançar na sua forma mais ideal possível, nós, em Portugal, andamos à mercê dos ciclos governativos. Vivemos aos tropeções. Em função do ministro que vem, assim se deita por terra o que fez o ministro anterior e se começa tudo de novo. Na Saúde é a mesma coisa, como na Cultura ou noutras áreas da governação. Não há, portanto, uma acção política prospectiva, e isso cria em nós, no povo português, uma incapacidade de olhar para o futuro. E gera um quadro de saúde mental, ou neste caso de falta dela, muito preocupante. A maior parte da depressão tem sobretudo origem em fenómenos exógenos, isto é, externos às pessoas, exteriores a elas próprias.

É uma patologia social.
Sim, de raiz económica, sobretudo, que se prende com as condições de vida materiais. De quem é a responsabilidade? Obviamente que tem de ser de quem nos governa. Se as pessoas não tiverem a vivência e a percepção de que as políticas visam o longo prazo, obviamente que não se envolvem, o que explica o desinteresse que evidenciam pela política e as enormes taxas de abstenção. Por outro lado, se os políticos mentem, é óbvio que as pessoas desacreditam.

Como vê a relação entre a saúde da mente e a saúde do corpo?
Corpo e mente não estão dissociados. Na nossa sociedade temos tendência para os dividir. O nosso corpo define-nos. Existimos com o corpo mas somos a mente. Uma mente funcional reconhece o corpo tal como ele é. E quem nos conhece bem, conhece-nos até mesmo de costas, porque nós existimos com o nosso corpo.

Há quem não reconheça o seu corpo como sendo seu.
Claro. Mas nesse caso estamos no domínio da patologia. Uma pessoa anoréctica não se reconhece naquele corpo e no entanto ele existe realmente. É um corpo magro, destrunido, à procura de calor, à procura de amor. E aquela mente recusa-se a olhar para aquele corpo. Porque se olhar para ele tem de o encher de amor e de afecto. Mas se a pessoa não teve o amor sufiente dos pais, se não foi acompanhada por eles, a forma inconsciente de lidar com isso é não ver o seu corpo. E por isso mutila-o, estraga-o, auto-destrói-se, porque essa é a única forma que tem de o sentir.

O mesmo acontece com os corpos disformes dos obesos mórbidos, que extravasam em muito os quadros genéticos. São ou não também doentes da sociedade?
São, embora não se vejam como tal. Vêem-se como diferentes. Mas na raiz da obesidade mórbida está uma falta afectiva e a falta, também, em reconhecê-la.

Se afastarmos as doenças por predisposição genética e as doenças contagiosas, podemos ou não afirmar que na raiz da doença está muitas vezes uma mente doente?
Se eliminarmos tudo isso, penso que a mente pode desenvolver, interferir, produzir, ampliar, condicionar, fazer ramificar determinadas doenças. Há características psicológicas comuns do ser humano que quando estão distorcidas ou ampliadas – a ansiedade, a angústia, a melancolia – podem, em casos extremos, afectar o nosso funcionamento fisiológico.

A Olhar – Associação pela Prevenção e Apoio à Saúde Mental
defende o acesso pela comunidade em geral aos mais variados processos terapêuticos da Psicologia. A consciência do crescimento de um profundo mal-estar civilizacional requer uma intervenção preparada – em que os psicólogos clínicos podem ter um papel fundamental e a psicoterapia, como veículo eficaz, pode tomar um lugar de charneira e de igualdade perante outros discursos clínicos de cura, assim haja vontade política. A Olhar pratica preços sociais em consultas de psicologia, neuropsicologia, psiquiatria, pedopsiquiatria, terapia da fala e orientação escolar. Integrada por uma equipa multidisciplinar de mais de duas dezenas de pessoas que, de forma profissional e articulada entre si, desenvolvem acções de intervenção social, a Olhar considera urgente um investimento sem reservas na saúde mental dos portugueses.

Pouca gente fala disso, no entanto. Não há pensamento sobre isso.
Muitas patologias derivam dessa ausência de pensamento sobre a nossa própria existência. Porque a sociedade, os pais, a família, a escola, não nos ensinam a viver. A única coisa que nos ensinam é a ser soldadinhos da vida. Ensinam-nos a vestir uma farda qualquer que, por milagre, faria de nós adultos com sucesso, para satisfazer as nossas próprias falhas narcísicas, ou as dos nossos pais, ou as da família. Conhece muitas pessoas que tenham ensinado aos filhos o significado da vida? O que é estar vivo? O que é existir? Por que é que ninguém nos ensina a tirar o maior partido da nossa existência? Conhece alguma escola em que isso seja ensinado?

Julgo que isso deriva de um equívoco sobre a própria noção de existência humana. A que me parece que se acrescenta um outro equívoco: sobre a noção de ser religioso, que a generalidade das pessoas confunde com as diferentes doutrinas religiosas.
Penso que o ser humano é religioso por natureza. Religioso no sentido de precisar de uma história. É um ser que precisa de criar uma história para existir. Porque se não a tiver, tem o céu por cima e tem a terra por baixo, e morre sufocado. Todos somos religiosos. Até mesmo o ateu, que nessa oposição à história de Deus arranja a sua história para poder suportar a existência. Deus existe no nosso imaginário ou não existe no nosso imaginário. Mas ambas as coisas são escritas pelo nosso discurso sobre elas. Se não tivéssemos palavra, não tínhamos Deus, porque não poderíamos verbalizá-lo. Precisamos dos deuses, sim. Do Deus monoteísta mais comum em Portugal ou de um outro qualquer. A fé é algo que precisamos de ter em nós para acreditar que existimos. Porque a nossa presença só pode ser comprovada através de algo que nos transcende, já que ninguém que seja saudável quer ser Deus.

Houve, nalguns casos, uma transferência da fé em Deus pela fé noutras coisas, em coisas que por vezes não correram bem, como por exemplo o comunismo. E agora vemos incontáveis pessoas mais velhas a viver nesse enorme vazio, embora se digam ateias e afirmem viver muito bem com isso. Bem vemos que não é verdade.
O 25 de Abril foi uma libertação, foi a oportunidade de romper com os dogmas ou com os valores que as pessoas tinham antes de 1974. Essa libertação foi tanto mais eufórica quanto mais repressiva era a sociedade do Estado Novo. Essa sociedade tinha um registo neurótico, claramente, assente na obediência, na subserviência, na aceitação, na passividade. Penso que estamos ainda a aprender a ser diferentes disso e que procuramos um caminho para sair desse quadro neurótico, porque a psicopatia não nos permite viver uma existência plena. Penso que o que fazemos hoje em Portugal é tentar romper com o fardo antigo das experiências impostas por forma a sermos mais autónomos. Mas não é fácil, claro.

Acuso todos os políticos portugueses pelo estado depressivo e melancólico do povo.

Aflige-me muito esse vazio em que está a geração mais velha, a dessas pessoas que em muitos casos perderam a fé em Deus, e depois perderam a fé na política, e outras perderam já toda a sua família, e algumas não têm filhos, etc. O sofrimento em que vivem magoa-me.
A partir do momento em que perdi a minha fé, e perdi a minha convicção política, e perdi a minha família, e os meus filhos estão ocupados com os seus próprios problemas ou na construção dos seus impérios, posso ficar à espera que algo aconteça. Algo que venha de fora, mas cuja espera pode eternizar-se para além da nossa própria existência. Essa espera é normalmente acompanhada por uma grande desilusão e por uma sensação de fracasso e de inutilidade.

Essa tão grande desilusão pode ou não gerar a doença? A doença fisiológica, também?
Nessa fúria, de desprezo pela vida, pela sociedade, pela relação com o outro, as pessoas podem efectivamente transformar-se em receptáculos de doenças.

O vazio abre espaços. Um vazio que contudo o dinheiro, ou a liquidez, não enchem, por mais que se tenha de um ou de outro.
Há também pessoas que procuram ludibriar-se através de uma série de recursos, na minha óptica fantasiosos, e por vezes excessivos, como sejam fazer desporto, ir aprender a dançar, fomentar encontros pseudo-românticos, etc. Mais construtivo será a pessoa enfrentar esse vazio e fazer uma análise da sua vida e ir buscar o seu património mais interessante, que por vezes pode ter sido anulado, ou posto de parte, por circunstâncias várias da vida. Ou seja, em vez de se ficar na desilusão de que não há nada a fazer e de que se está irremediavelmente só, pensar no que é que na vida nos empolgou, ou em que é que fomos especialmente bons e que se calhar pusemos de lado. Essas pessoas de mais idade também não tiveram quem as ensinasse a viver, e por isso olham para a velhice como uma idade em que não há nada para elas fazerem, em que nada têm de fazer. Erro. Há coisas para fazer.

Mas como fazer quando essas pessoas estão deprimidas?
É preciso que percebam que está ao seu alcance não permitir que a sua mente invada as suas vidas com a depressão. Que sejam capazes de aceitar que o seu tempo é o presente. Que entendam, também, que a solidão é a natureza da sua individualidade. O ser humano está condenado à solidão da sua própria individualidade. Podemos partilhar a nossa vida com outros, mas nascemos, vivemos e morremos sós.

Mas e quando a solidão pesa demasiado às pessoas e ocupa todo o seu vazio?
Elas precisam de saber que podem tornar essa solidão partilhável. Abrindo-se aos outros, à comunidade, aos vizinhos. A nossa solidão pode ser partilhada com a solidão dos outros. Há nisso, nas solidões juntas, uma troca, que reduz o sentimento de abandono. Mas para isso é necessário que as pessoas accionem os seus próprios mecanismos mentais, as suas convicções, os gostos que têm pela vida, procurando desenvolver tudo isso.

Não estará a ser demasiado optimista? Acha isso viável relativamente a pessoas que viveram a sua vida na mentira – mentindo a si próprias sobre quem são, por exemplo?
Mudar de atitude só é possível se as pessoas se despirem da mentira que lhes ensinaram. Vou dar um exemplo: em Portugal há uma mentira que continua a ser pensada e dita a torto e a direito: “os filhos cuidam dos pais”. Erro. As pessoas sabem que isso não é verdade, até porque já foram filhos e deixaram os seus pais, de quem também não cuidaram. Estou a generalizar, claro. Por outro lado, escusam de dizer aquilo que normalmente se diz: “que ingratos que são os meus filhos, eu que lhes dei tudo e que fiz tudo por eles”. Erro, e uma mentira, porque os pais não dão tudo aos filhos e por vezes até lhes faltam. Todas estas mentiras e hipocrisias que são ditas e reproduzidas na nossa sociedade como se fossem verdadeiras, são extremamente nocivas. A maioria dos pais gosta que os filhos continuem a prestar-lhes vassalagem para além da sua emancipação, gostam que os filhos continuem a ir almoçar com eles aos domingos e que continuem a ir à sua casa pedir aquelas bênçãos às figuras maternas e paternas. Há famílias que não fazem isso e que são mais saudáveis do que as que fazem. Por outro lado ainda, os pais que não se habituaram à presença dos filhos – uma presença quase sempre subserviente – tornam-se mais depressa autónomos. Os outros, que são a maioria, ficam desmunidos, e quando os filhos emigram, por exemplo, entram num registo depressivo: ligam a televisão o dia inteiro, andam de roupão em casa, por vezes deixam de tomar banho, começam a comer com o tabuleiro no colo ou na cama, e isso instala-se muito rapidamente.

Em que medida uma psicoterapia ou um acompanhamento psicológico pode ajudar essas pessoas a mudar?
Não se consegue mudar o pensamento de pessoas de alguma idade já, mas consegue-se mudar as suas vidas, ajudando-as a criar estratégias de compensação a partir de coisas que elas têm dentro de si, desejos que por vezes estão escondidos, ou que elas não vêem. A minha paciente mais velha tem 94 anos. É uma pessoa lúcida, claro, já que uma terapia em contexto demencial não seria possível.

Como alargar isso à população indiferenciada numa sociedade doente, com velhos deprimidos, e em que a maioria vive uma realidade material extremamente difícil?
Eis uma outra mentira, ou falácia social, se preferir. Obviamente que a sociedade, até por uma questão de lobbies médicos e mercantilistas, fomenta a prescrição médica em detrimento da psicoterapia. Não estou a dizer que a prescrição médica não é necessária em muitos casos, porque é, designadamente em depressões graves, mas a verdade é que existe ainda na nossa sociedade uma leitura errada sobre o valor real da psicologia. Muita gente pensa que a psicologia não ataca a doença mental com a mesma potência que os medicamentos. Acontece que pelo facto de ser uma terapia que assenta no diálogo entre o doente e o psicoterapeuta, não significa que tenha propriedades curativas negligenciáveis.

E no entanto, dizem-nos que vivemos na era da comunicação. E andamos todos muito contentes por podermos ver-nos e falar através da Internet. Mas bem vemos que isso não resolve o sofrimento gerado pela solidão concreta.
Eu noto que a comunicação humana está neste momento muito debilitada. Dizemos que vivemos na era da comunicação, falamos muito da proximidade com o outro, mas essa proximidade não é real. Nós precisamos do contacto com o outro, é essa a natureza do ser humano. Um contacto que não é só físico. É o contacto da presença e do prazer de estar com o outro. O que eu sinto em contexto terapêutico é que esse outro incomoda muitas vezes, porque não há uma tolerância à diferença desse outro. Mas as pessoas estão muito sós, e estar só tira-nos defesas e inibe estratégias saudáveis de lidar com os outros. Por isso as pessoas arranjam muitas vezes animais domésticos. Porque eles são dedicados. E são-no porque têm uma relação de dependência. Mas os seres humanos são mais complexos.

Comments

  1. Fernanda says:

    O que custa mais é ouvir pensionistas e desempregados e classe média com impostos dos pés à cabeça, dizerem :”Isto está mal, mas tenho medo que possa ser pior. Tem de ser assim. Porque sim.”

    O medo está aí. A ignorância e/ou ingenuidade também.

    E já não há paciência para isto.

    Afinal, sempre foram quantos anos a ter medo?

  2. joão lopes says:

    pois eu chamo ao povo português não cobarde ou ingenuo ou ignorante mas sim um dos povos mais egocêntricos de que há memoria.daí a teimosia ,a mesquinhez,a pequena inveja de aldeia,e também uma enorme tristeza de quem tem até medo de sair de casa…não vá perder o próximo episodio da vida de um qualquer “cor de rosa”.

  3. Por falar em estado neurótico, um desabafo:

    Ricardo Araújo Pereira, no seu programa da Tvi, deve ter contribuído para um “e põe lá mais” neurose nas pessoas.

    Ao apontar “baterias” em A. Costa, ao ponto de gozar com a sua afonia, ao poupar críticas acutilantes à coligação, ao mostrar o seu respeitinho (ou será brilhozinho nos olhos?) para com Marcelo, Montenegro, Cristas, ao convidar o “jovem” Sérgio S Pinto, Ricardo Araujo Pereira revelou algo neurótico e não irónico.

    Deve ser a neurose de 1 lesado do BES.

    A tal ponto que o insuspeito João Miguel Tavares afirmou que Ricardo A. Pereira se fartava de “malhar” em A. Costa.

    Quanto ao humor do RAP estamos conversados.

  4. Rui Silva says:

    Qual o quadro mental que justifica que até dos humoristas os portugueses se queixam ?

    Rui SIlva

  5. Licinio Lopes de Resende says:

    Não sei quem são todos vocês que acima fizeram os mais diversos comentários.Contudo, sejam quem forem, tive a ideia de desastrados, que simplesmente acusam o povo português de um modo generico, um pouco obtuso, deixando algo do lado positivo, de um povo bravo, agora acuado pelas mais diversas circunstancias bem conhecidas e que se alastraram pelo mundo e pelos mais diversos paises mundo afora. Vejam em se tratando dos inseridos na União Europeia,o caso da Grécia (o berço da civilização), o que aconteceu,levando em conta ainda outros como exemplo a Irlanda, que em pleno progresso a colocaram de joelhos,produto oriundo de um mundo desigual e acionado pelo poder do capitalismo selvagem do poder especulativo-Sejam mais coerentes nas vossas exposições, procurem ver quem manobra a União destes paises, tendo como cabeça principal a Alemanha. Os mais fracos sempre são e serão punidos pelos mais fortes, pois não deteem força suficiente sob os mais diversos setores, como extensão territorial abundante, tecnologia de ponta e outros mais, que na situação atual,não teem poder de ação apenas lhe resta aceitar todas as imposições, de que são vitimas. Ruim na Comunidade e pior fora dela, não há alternativa no momento em que se encontram.-

    • Sageda Hassamo says:

      Apoiado Licínio Lopes,… Sejam quem for…… que falam no Povo…. Perguntem-se por favor….. Fomos Nós que vendemos PORTUGAL?!! … Quem por nós tomou as medidas?!!!…… Quem Vendeu PORTUGAL?!!! Que mal fizemos nós Povo, por confiar a certos “Drs” .e dar-lhes o Comando para nos Orientar e Falar por NÓS.

      • joão lopes says:

        desapoiado.foi o povo que votou sempre nos mesmos e isso é responsabilidade de quem votou nesses.a democracia exige responsabilidade não só dos intervenientes politicos mas tambem do comum cidadão(o povo).por outro lado se ouvir falar em endividamento privado,tambem existe endividamento que se traduz por:TV cabo,internet e TM.nada contra a TV,mas gastar dinheiro em tv “cor de rosa com muito sangue tipo tvi” não abona nada em relação a certo “povo”.mesmo nada…ou comprar o cm( o mais lido por certo “povo”)

  6. isabel sousa says:

    Há muitas formas de se auto-promover. Esta parece-me uma delas. Que tal ensinar a criar e centrar-se nas «emoções positivas», em vez de meter as pessoas no divã?

  7. Há muitas formas de se auto-promover. Esta é mais uma. Que tal ensinar a descobrir e centrar-se em emoções positivas, em vem de estender as pessoas no divã? É que quanto mais se revolvem as águas, mais o lodo se levanta e mais turvas elas ficam. Uma função extremamente saudável da mente humana é precisamente a capacidade de esquecer e pintar com cores belas o passado, seja ele melhor ou pior.

  8. Licinio Lopes de Resende says:

    Quem é ou sejam Rate This?

Trackbacks

  1. […] 1ª – que a massa abstencionista votou no PàF, compreendam isto de uma vez por todas. Gente desinformada, vítima do desinvestimento na Educação e na Cultura que o PSD/CDS e o PS têm levado por diante, que se abstém por não perceber que o sistema não confere a esse não-voto de protesto o significado que gostariam que tivesse. Gente doente, também. […]

  2. […] «Não havendo ruptura, não há julgamento, e por isso não pode haver regeneração. Mas tem de haver condenação. O 25 de Abril foi sintomático disto que digo. Rompeu-se com o Estado Novo – eis outra ideia falsa, pois tratava-se na verdade de um Estado Velho, com gente velha, de pensamento velho –, mas não se rompeu com os problemas desse Estado. Por isso vivemos numa sociedade onde a hipocrisia se mantém, com outras formas. O que é que isto faz em termos de saúde mental? Faz com que não tenhamos a consciência de que por vezes temos mesmo de nos zangar com as pessoas que nos fizeram mal e que controlam a nossa vida.» Carlos Céu e Silva [entrevista realizada por Sarah Adamopoulos, publicada no Aventar a 2 de Outubro de 2015] […]

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