Carta do Canadá: A casa da Avó

Vai um Outono doce, soalheiro, macio, sereno e lindo. Quem dera que o tempo no Canadá fosse sempre assim, mas não tarda  que chegue o severo inverno de muitos graus  negativos e gelo que, abusador, se estende até Abril.  Foi num Outono assim, há muitos anos,  que desabafei com aquele velho emigrante português o desejo de ter esta temperatura todo o ano. E ele, sábio de experiência, disse de sua justiça: “se o tempo no Canadá fosse assim todo o ano, lá em baixo já não havia ninguém… vinham todos para cá”.  Capaz disso, porque os políticos andam sempre a varrer pessoas pela fronteira fora.  Ia ruminando estes pensamentos enquanto atravessava a rua para me encontrar com a amiga de Tomar com quem ia tomar o pequeno almoço.

Abancámos na mesa comprida e larga em que costumo juntar-me ao grupo de senhoras canadianas  que, após a ginástica,  ali tomam o seu café, os seus croissants.  Pedi licença, em inglês, ao casal chinês na outra ponta da mesa  para retirar uma cadeira do lado deles.  Grande sorriso dos dois e a senhora a dizer-me num português com açúcar: “podemos falar português…  nós somos brasileiros”.  Que boa surpresa! Que festa!  Vivem em São Paulo e tinham acabado de chegar do aeroporto para conhecerem o Canadá.  Mostram-nos a morada duns velhos amigos portugueses que residiram no Brasil muitos anos,  indicámos o caminho a seguir.  Queriam saber como era o povo canadiano.  É bom, ajuda todos,  mas não dá palmadinhas nas costas nem convida logo para casa.  Mas quando chega a convidar, isso quer dizer que temos ali amigos para toda  a vida.  E como é o país? É seguro e tem respeito pelas pessoas, adiantamos.  Suspiram que, no Brasil, não há segurança nem respeito.    É a vida, consolamos nós.   Viajam muito?, queremos nós saber.  Que sim, o dentista e a mulher fazem todos os anos uma grande viagem, de preferência pela Europa.  De Tomar, dizem: “ah a cidade dos templários, como  é linda!”.    Conhecem o quê em Portugal?  Tudo, ao comprimento e à largura.  E explicam: quando chegam ao fim duma grande viagem,  seja em que continente for, tiram sempre uns dias de repouso em Portugal.  Ora essa!  Porquê? Entreolham-se, sorriem tímidos e a senhora esclarece: “Sabe, Portugal tem bom clima, boa comida, bom vinho, um povo óptimo.  Sentimo-nos mimados, acompanhados.   É como ir todos os anos a casa da avó”.

Portugal, Casa da Avó, pode haver coisa mais terna e linda?

Por isso mais entristece , e revolta,  que por causa de maus políticos, falsos políticos,  Portugal seja muitas vezes pátria  madrasta dos  seus nacionais.  Madrasta que os trata mal, lhes mente, os manda embora, porque os bens públicos são usurpados em favor de um pequeno grupo.  Talvez seja tempo de pedir ao povo bom, meigo, generoso,  que não transforme a raiva em fado.   Talvez seja tempo de ao povo lhe dar uma travadinha que inverta esta situação.   Não sugiro direitas nem esquerdas, porque em democracia não se exclui ninguém, como quer aquele senhor que está em Belém a brincar de rei.    Desejo que seja em frente, em linha recta, cortando a direito e aproveitando o que há de melhor num lado e no outro.  Sem complexos, sem medo, por amor de Portugal.

Tanta má língua contra a Grécia e, afinal,  nenhum chega aos calcanhares do Tsipras ou do Varoufakis.  Esses,  vê-se que são antigos, são milenares,  têm a sabedoria que lhes permite  estar acima da espuma medíocre.  E o povo apoia-os.  E a União Europeia, ou leva uma volta, ou acaba.

Comments

  1. Maria says:

    Agora vivemos em casa da avó o ano inteiro!

  2. Ana Moreno says:

    Gosto MUITO! Principalmente da parte sobre a Grécia, que tão mal interpretada foi e que, dando uma lição de força e integridade, está a fazer o que lhe impõem, sim, mas demonstrando a quem quiser ver que os políticos se tornaram marionetas do poder financeiro, servindo-o à custa das pessoas.