Ne me quitte pas

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Foi ao som de “Ne me quitte pas” de Jacques Brel que Bono Vox, ajoelhado,  fez a homenagem dos U2 a Paris e encerrou a iNNOCENCE Tour.

Ver Bono ajoelhado fez-me pensar na política francesa e europeia. Está quase a fazer um ano que regressei a Paris e voltei a ver/sentir o que já tinha visto e sentido poucos anos antes. Desconforto.

Desconforto de muitos franceses, portugueses, africanos ou asiáticos que se sentiam (e sentem) “abandonados” por um conjunto de políticas internas descuidadas que os atiram para os braços da Frente Nacional, uma espécie de “lado negro” da política francesa. E as últimas eleições em França (tanto as europeias como agora as regionais) são disso testemunha.

Numa outra viagem onde visitei várias regiões francesas vi/senti o mesmo. Com uma agravante: nessas zonas o desconforto facilmente era substituído pela intolerância. E quanto mais a sul, pior. Porquê? Porque uma parte minoritária da comunidade muçulmana (sobretudo a segunda geração) não se conseguiu nem se deixou integrar. Preferiu (e prefere) usufruir das regalias da chamada “sociedade ocidental” naquilo que lhe é favorável e diabolizar tudo o resto. E perante isto o que fizeram os decisores políticos e alguns iluminados? Simples, culpar o tal mundo ocidental e desculpar os fanáticos.

“Eles são fruto da nossa sociedade egoísta, deste desenvolvimento desenfreado”, afirmam os iluminados. Esquecendo que esta sociedade que apelidam de “egoísta” é a mesma que defende os direitos humanos, que mudou radicalmente as suas atitudes face às mulheres, que respeita os direitos das crianças e que considera um direito fundamental e inviolável a livre expressão e opinião. E que vive em democracia. Ou seja, exactamente o oposto daquilo que esses fanáticos defendem e praticam. Mais, esquecem a violação diária dos direitos humanos nas sociedades onde o Islão domina política e socialmente. Nunca se lhes viu uma opinião crítica ao que se passa, em termos de liberdades e direitos, em países como os Emirados Árabes Unidos ou no Irão, só para citar alguns exemplos. Depois surge um outro argumento, “a culpa é dos governos ocidentais e do seu cinismo em termos de política internacional”. Sim, boa parte dos dirigentes políticos do mundo ocidental são cínicos mas…são eleitos democraticamente, não defendem o apedrejamento público de mulheres, não mandam enforcar na praça pública aqueles que deles discordam. Não são perfeitos, não senhor. Nem nenhum de nós o é. Uma das suas imperfeições é o politicamente correcto que os faz aceitar que as derivas radicais de uma minoria de muçulmanos é culpa da nossa sociedade. Não, não é.

Se a “culpa” fosse do nosso estilo de vida, certamente que os radicais não seriam uma minoria. Certamente os seus compatriotas não arriscariam a vida para viverem e trabalharem na Europa. O que o politicamente correcto está a provocar é o crescimento da extrema direita e da xenofobia em toda a Europa.

A Europa que defendo, sem fronteiras, agregadora, sempre livre e democrática não pode pactuar com a presença, no seu seio, de indivíduos que pregam o ódio, que fomentam a violência e que, como se viu em Inglaterra e se sente/vive em muitos bairros árabes das periferias das grandes cidades europeias, se manifestam contra o nosso estilo de vida, o estilo de vida europeu, esse mesmo que os acolhe e procura integrar. Sobretudo em França, um país que sempre soube integrar os oriundos de outras geografias – que o digam os portugueses, os asiáticos, os africanos e boa parte dos muçulmanos. Enquanto o politicamente correcto continuar a fazer de conta, é a extrema direita que cresce e que ajudará os outros fanáticos a destruir o nosso estilo de vida.

Ao contrário de Bono que se ajoelhou para homenagear Paris, alguns dos nossos políticos ajoelham-se para não ferir os iluminados. É tempo de se levantarem e dessa forma evitar que amanhã seja toda a Europa a ajoelhar-se perante a intolerância e o fanatismo.

Comments

  1. Nightwish says:

    Protegem os direitos humanos excepto a liberdade de expressão, o direito de reunião, o direito à privacidade e mais uns quejandos. Para sociedades que se quer manter melhor que as alternativas estão a caminhar no sentido inverso. Basta ver a reacção do governo francês.

  2. joão lopes says:

    tem muita razão,mas quem se ajoelha aos pès da arabia saudita? muita gente,pois claro,incluindo europeus e americanos,porque os “costumes” desse paìs,toda a gente sabe como é,mas eles tem petroleo,tão necessario aos estilo ocidental de vida,a tal vida consumista que no fundo é o que toda a gente quer.

  3. J. Ribeiro says:

    Pobres franceses; já não lhes chegava o terrorismo, ainda tiveram de gramar os U2. Não se faz, ninguém merece…

  4. MJoão says:

    Quando é que se tentou verdadeiramente que os emigrantes, sobretudo extra-europeus, fossem integrados? Foi quando se construíram aquelas muralhas onde vivem milhares de emigrantes africanos e que em vez de ruas têm pátios entre os prédios que é para lhes dar mais ar de gueto? Os franceses são extremamente altivos , são de uma enorme soberba , nunca consideraram os emigrantes seus iguais, nem os portugueses ou outros europeus de Sul ou Leste. Basta ter algum contacto com os que por cá andam para se perceber como agem nos seus domínios, mesmo os da França profunda acham-se de uma superioridade inigualável.
    A par disto, o “politicamente correcto” também teve os seus defeitos tendendo a atenuar, com um vernizinho estaliço, as atitudes , claramente, racistas de boa parte dos franceses . Quanto a mim,o velhinho: ” em Roma sê romano” tem os seus efeitos pedagógicos.