Uma ofensa gratuita à sensibilidade das pessoas

CDS

O polémico cartaz do Bloco de Esquerda foi, de longe, a melhor coisa que aconteceu aos partidos de direita nos últimos meses. Retirou o foco da derrota esmagadora que para eles significou a aprovação do OE16, com a cereja da Moody’s no topo, e forneceu um argumento populista e mediático a PSD e CDS-PP, que colocou na sombra o estado comatoso em que ambos os partidos se encontram.

Penso ser mais ou menos consensual que o cartaz foi um tremendo erro da parte do BE, sendo que a imediata demarcação de Marisa Matias e de Francisco Louça do mesmo, a que se seguiu o acto de contrição de Catarina Martins, são ilustrativos disso mesmo. Não obstante, o aproveitamento político imediatamente orquestrado pela direita não é um erro menor e diz-nos muito sobre a actual travessia do deserto que se vive por aqueles lados. E quer-me parecer que o CDS-PP perdeu uma boa oportunidade de ficar calado.

Pela voz de Pedro Mota Soares, os centristas criticaram o cartaz por este ser “uma ofensa gratuita à sensibilidade das pessoas”. Boa! Mas já que estamos no capítulo das ofensas gratuitas à sensibilidade das pessoas, não seria descabido relembrar o CDS-PP e o senhor Mota Soares das várias ofensas gratuitas à sensibilidade das pessoas que protagonizaram nos últimos anos. Porque isto da sensibilidade das pessoas não se resume a questões religiosas. Existem milhares de desempregados neste país que, estou certo, se sentiram gratuitamente ofendidos com a festa de nomeações partidárias com que um certo ministro “enxameou” a Segurança Social. E quem era esse ministro? Pedro Mota Soares.

O CDS-PP podia ter escolhido melhor porta-voz que Pedro Mota Soares para se pronunciar sobre este tema? Podia, mas não era a mesma coisa. É que tal como os desempregados e emigrantes que se sentiram gratuitamente ofendidos pela distribuição de lugares levada a cabo pelo anterior ministro, existem também milhares de portugueses que não estão minimamente satisfeitos com os esquemas em torno da Parque Expo, a tal empresa pública cujo presidente, o centrista John Antunes, nomeado pela ex-ministra centrista Assunção Cristas para liquidar a empresa, tem feito simpáticos ajustes directos ao escritório de advogados onde trabalha, imaginem só, Pedro Mota Soares.

Repito: a sensibilidade das pessoas não se resume a questões religiosas. Nestes tempos de austeridade e de ditadura dos mercados, haverá tanta ou mais gente extremamente sensível a questões como a sua independência financeira, a manutenção da sua moradia ou o dinheiro que não têm para dar de comer aos seus. Onde estava esta preocupação com a sensibilidade das pessoas quando o líder deste partido fez birra para ser vice-primeiro-ministro, birra essa que fez disparar os juros da dívida e causou perdas de milhões para a economia portuguesa, enquanto milhares de portugueses contavam os tostões para sobreviver até ao final do mês? Enfim, moralistas da treta.

Foto@Expresso

Comments

  1. ferpin says:

    Essa história das nomeações e adjudicações na park expo tem todo o ar de ser caso de polícia.
    Não sei o que faz o CDS mas parece viver em impunidade total no que toca à justiça.
    Dá a ideia dum jogo de monopólio em que o portas tirou a carta que livra da cadeia e permite passar na casa da partida e ganhar dinheiro em avenças de vário tipo

  2. Afonso Valverde says:

    Cartaz? O que transmitia o cartaz? Não me lembro…Jesus, sim é um Exemplo para a Humanidade. O resto são mundanidades.