Jesus também tem sentido de humor

JC

Se a doutrina/mitologia (escolher a opção que melhor se adeque às suas crenças) cristã estiver certa, Jesus Cristo está no céu e, creio, a rir-se de toda esta polémica em torno do cartaz do BE. Até porque, rezam os livros, o filho de Deus era um tipo impecável e os tipos impecáveis tendem a ter sentido de humor.

Sobre o tiro no pé do Bloco, pouco haverá a acrescentar àquilo que o J. Manuel Cordeiro aqui escreveu. Era totalmente desnecessário, o timing foi péssimo e só beneficiou a estratégia dos partidos de direita de tentar branquear esse conseguimento que foi a aprovação do orçamento. Com o cartaz da discórdia, o BE chamou a si todos os holofotes e eclipsou por completo o terramoto que se fez sentir no Caldas e na São Caetano à Lapa. Passos e Portas Cristas agradecem.

Foi um erro político. Um erro político da parte de uma estrutura partidária que nos habituou a um tipo de comunicação objectiva e tremendamente eficaz. Uma comunicação que sabe como colocar o dedo na ferida e destacar temas muitas vezes abafados pelo “sistema”. Neste caso, e após uma importantíssima vitória para a defesa da igualdade e dos direitos mais elementares dos portuguesa, este cartaz não tinha qualquer tipo de cabimento. Principalmente vindo de um partido que tem a laicidade como uma das suas principais bandeiras. As reacções, quase imediatas, de Marisa Matias e Francisco Louça ilustram bem o mal-estar causado no seio do partido.

Depois temos a hipocrisia. A hipocrisia daqueles que classificam esta jogada como um insulto à fé religiosa ao mesmo tempo que a tentam instrumentalizar politicamente, aproveitando-se deliberadamente da carga emocional que um tema destes encerra para manipular tantas almas quantas puderem. Crápulas. Não há aqui insulto algum à fé de ninguém. Quanto muito há chacota direccionada para os cristãos de fachada – e tantos que eles são – que gastam o nome de Cristo com banalidades mas que se esquecem que a sua mensagem era de tolerância, de igualdade e de amor. Exactamente aquilo que se conquistou no dia em que os casais homossexuais passaram a poder adoptar crianças.

Isto foi parvo porque um partido político não deve nem tem que se prestar a este papel. Mas Jesus Cristo, como qualquer figura religiosa, não é nem pode ser imune ao humor. Há um ano atrás éramos todos Charlies, rasgávamos as vestes pela liberdade de expressão e agora estamos revoltados porquê? Porque se fez humor com Jesus? Revoltante seria não o poder fazer. E Jesus, como tipo impecável que terá sido, com certeza que apreciará que o Homem se tenha soltado das amarras do fundamentalismo e que tenha hoje a capacidade de brincar consigo. No limite pode até não gostar mas perdoa. É que, ao contrário de alguns seus supostos seguidores, não consta que Cristo tenha sido um fanático. Nem interessado em explorar a fé dos seus pares para obter ganhos políticos.

Comments

  1. Ana A. says:

    Excelente ponto de vista, com o qual concordo!

  2. joão lopes says:

    o cartaz era mau? talvez,mas a apologia do sofrimento imposto pela igreja catolica a todos(hetero ou homo) e o medo é bem pior,ou pelo menos uma vergonha,tal como a caridade.Por outro lado,e que tal fazer um levantamento patrimonial da igreja em Portugal e consequente imposto? afinal,se todos pagassem(ou seja,se todos fossem solidarios) se calhar era mais facil pagar a divida…publica(sem esquecer o dinheiro do estado injectado em ipss)

  3. joaovieira1 says:

    Não sei se Jesus tinha ou não sentido de humor. Sei, porém, que os seres humanos, de um modo geral, apesar da esmagadora maioria não ter tantas razões para isso, possuem um sentido de humor visceral, nem sempre inteligente e fino, mas que funciona como paliativo para uma existência cheia de dramas e surpresas más.

Trackbacks


  1. […] Lembram-se do episódio do cartaz do BE, que tanta polémica causou? Lembram-se dos argumentos dos indignados que, à direita, vociferavam contra o desrespeito pelas crenças e sensibilidades de terceiros que eram cruelmente violentados pela brincadeira de mau gosto do Bloco? Estão recordados? […]