O predador que fala

Se eu fosse um desempregado a morrer de fome, tenho a certeza absoluta de que preferiria um emprego mal pago à morte por inanição, porque o mau, como é evidente, será sempre melhor do que o péssimo.

Não se pode condenar, portanto, o indivíduo que, diante das circunstâncias, opta por uma vida um pouco menos miserável, se é isso que a vida ou o país ou os dois têm para lhe oferecer.

Contudo, enquanto, num país, houver um único cidadão que esteja limitado a escolher entre a frigideira e o fogo, é o país que está a falhar. Se essa situação se multiplica, estamos a falar de um país falhado.

Há uns anos, escrevi sobre enfermeiras que trabalharam a troco de comida (houve quem chamasse a isso empreendedorismo); mais recentemente, espantei-me com o empreendedorismo da exploração de outros enfermeiros; pelo meio, comentei os elogios dirigidos a um menino muito empreendedor.

António Saraiva, ao defender que é preferível a precariedade ao desemprego, confirma o seu papel de macho alfa no bando de bestas quadradas que chamarão empreendedorismo ao acto de tentar encontrar comida no meio do lixo.

Um território dominado por predadores desta estirpe será sempre uma selva. Sociedade e civilização são conceitos diferentes.

Comments

  1. Carvalho says:

    Proponho a nomeação desse Energúmeno Saraiva para o Oscar
    “Pano Encharcado Pelas Trombas”.

  2. ferpin says:

    Defendem como possível uma sociedade em que todos os empregos são directos ao quadro?
    Qualquer empresa ao admitir um funcionário teria que o meter no quadro logo no dia 1 de trabalho?

    Reparem, sem querer defender o saraiva , ele disse (eu ouvi) que achava preferível um contrato a termo que o desemprego. Fiquei com a ideia que ele ao frizar o “contrato a termo”, estava a tirar da equação os miseráveis falsos recibos verde e afins.
    Portanto, nada de que eu discorde.

  3. rangel dos fretes says:

    ferpin por algum motivo existe o periodo experimental de 6 meses que protege o empregador. é o suficiente para despistar mas apostas.

  4. rangel dos fretes says:

    mas não, claro que não se pretende que vá tudo directamente ao quadro. só que o sr saraiva está no limite oposto. ele quer é que “estar no quadro” passe a ser pouco mais que nada. ele e a tralha pafiana. ah, o sonho do despedimento livre…

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