Carta do Canadá – Sombra dos nossos dias


Na Europa e no Mundo, não estamos a viver dias claros e límpidos. Somam-se as sombras da angústia, da preocupação, da incerteza.

Erdogan, o ditador turco cujas subterrâneas simpatias pelo Daesh são tão inexplicadas como as suas opiniões fanáticas acerca das mulheres que estudam, trabalham e vestem à ocidental, acaba de decretar o estado de emergência por três meses – depois dum golpe militar de origem mais do que suspeita que ele aproveitou para caír como um milhafre sobre a população. Tem sido um trágico cortejo de prisões e despedimentos de militares, magistrados, professores e jornalistas. Alguns turcos que fugiram para o mundo livre fazem saber, através das televisões, que há populares decapitando opositores de Erdogan na ponte do Bósforo. Tal qual fazem os membros da seita Daesh, a que não esconde querer estender o Califado à Europa ao mesmo tempo que as suas hostes são bombardeadas e dizimadas no Médio Oriente. Os sequazes de Erdogan que enchem as ruas de Istambul não precisam que a pena de morte seja instituída, por via parlamentar. Já a praticam. Impunemente.

A Turquia é membro da NATO e não se vê um movimento de enérgico repúdio por parte dessa organização militar. Os Estados Unidos soltam umas vagas frases de circunstância. A Alemanha, de Angela Merkel e Schäuble, que negociou com Erdogan uma quota anual de três biliões de euros para que ele retenha os refugiados das guerras e os não deixe entrar na Europa, para além de não mostrar vergonha por essa miséria moral paga com os dinheiros de todos os países da União Europeia, não abre a boca para perguntar qual é a situação dos refugiados que foram expulsos e levados à força para a Turquia. Até ao golpe, sabia-se que centenas de crianças refugiadas trabalhavam em regime de escravatura e muitas outras eram exploradas pelas máfias da prostituição infantil. E agora? Onde estão? Ainda existem? Um estado de ermergência por três meses signfica o completo encerramento do país para o ditador acabar a limpeza que tem vindo a fazer.  Dir-me-ão que ninguém pode fazer nada porque Erdogan foi democraticamente eleito. E eu tenho de lembrar que Hitler também foi democraticamente eleito, com grandes tiradas nacional-socialistas a esconder o nazismo, e todos sabemos o que aconteceu.  Valeu a Inglaterra bater o pé e encabeçar a luta que durou anos e se saldou por milhões de mortos e o aniquilamento de vários países soberanos.

Entretanto, têm-se sucedido os sangrentos atentados terroristas da autoria de fanáticos islâmicos que têm flagelado a França, a Bélgica, a Inglaterra, a Espanha, os Estados Unidos.  Já ninguém duvida que outros atentados terão lugar.  A pouco e pouco, vive-se num clima de medo, de guerra surda. E começam a surgir contornos inquietantes, ao mesmo tempo que o nazismo e o fascismo sobem em flecha. Em Nice, por exemplo, acredita-se que o autor da matança era um psicopata que teria sido manipulado, em poucos dias, por arautos do Daesh. A fazer fé nesta convicção, podemos concluir que, mais dia, menos dia, outros psicopatas serão radicalizados por movimentos extremistas desejosos de subirem ao poder nos seus países.  Hipótese apocalíptica.

Como chegámos a esta lástima? Um generalizado enfraquecimento moral dos países do Ocidente e suas organizações, onde pontificam políticos que mais não são do que pessoas medíocres e venais, sem visão de estado, sem perspectiva de futuro, sem noção de Pátria, que se vão vendendo a tanto por cabeça ao bezerro de ouro das multinacionais. Um enorme desinvestimento na educação e na juventude, jogando os mais novos ao desemprego e à falta de horizontes. Uma política austeritária criminosa, imposta pela Alemanha à União Europeia, que tem achincalhado as soberanias nacionais com chantagens múltiplas, que governa com dois pesos e duas medidas, ocasionando a erosão do tecido económico-financeiro dos países membros e levando, logicamente, ao desemprego massivo, à ruína e ao desespero.  Este caldo de cultura malsão vive de par com o desastre do Médio Oriente, provocado pela Guerra do Iraque com fundamento em mentiras e trapaças veiculadas por quatro criados de quarto do grande capital numa reunião realizada, desgraçadamente, em terra portuguesa por um dos servos ser então primeiro-ministro ministro na nossa terra.

A situação é grave e preocupante. Mas muito mau seria que nós vergássemos a cabeça e deixássemos caír os braços. NÃO, NÃO e NÃO. O nosso dever é estar de pé, olhos bem abertos e os punhos prontos. O nosso dever é exigir dos dirigentes que tenham coluna vertebral e não cedam a chantagens. Bem bastou o que fez o rebanho de ovelhas negras no governo passado, sempre de bandeirinha na lapela e sempre a rastejar lá fora e a pisar cá dentro.  É hora de reunir e de mandar calar os idiotas que se intitulam comentadores e não passam de quadrilheiros, especializados em fugas de informação do Conselho de Estado, do Governo, de tudo, porque querem transformar Portugal num pátio de cantigas.  É hora de os mandar trabalhar, de se deixarem de viver pendurados no orçamento da nação.

Comments

  1. O dedo está na ferida: “enorme desinvestimento na educação e na juventude”. Estava ainda a meio do 1º parágrafo e já estava a pensar nisso. Na mouche. Não menosprezado os outros motivos lá está. A falta de espinha dorsal da classe política, principalmente daqueles que nem hesitam em vergar-se aos desígnios do grande capital. Mas o desprezo pela educação é o pior por fere a longo prazo e por muito tempo. E se a jovens pouco ou nada educados ainda lhes adicionarmos uma existência de precariedade profissional, então cria-se um cocktail de tristeza, que fazem deles presa fácil para os extremistas. E por extremistas estou a referir-me quer a radicais islâmicos do Daesh quer a dirigentes de extrema direita. E aqui é que está o ridículo desta situação: na sua essência, não há qualquer diferença entre os 2. Para nós que frequentamos estes locais e reflectimos sobre estes assuntos, um personagem como o Donald Trump não passa de um tema para piadas de stand up ou um nome muito feio que chamamos a alguém quando estamos irritados. Não nos passa pela cabeça levar um babuíno daqueles a sério. É quase irreal que uma pessoa com uma mentalidade tão repugnate como ele se atreva a falar em público sequer. Mas o que é certo é que ele foi nomeado candidato à presidência dos EUA! Mesmo que seja epicamente derrotado em Novembro pela Hillary, a triste realidade é que uma fatia significativa da população norte americana se identifica com ele e está disposta a dar-lhe o controlo de um dos exercítos mais poderosos do mundo, sem falar no arsenal de armas! E não é dificil perceber como se chegou a este ponto. A educação a sério nos EUA é extremamente elitista. Podem ter as melhores universidades do mundo, mas quem quer que entre nelas, ou pertence aos 1% ou fica endividado para o resto da vida. Em contraste, o ensino básico e secundário está entre os piores do mundo, havendo escolas onde ainda se ensina o creacionismo! O país com maior número de prisioneiros per capita. Há consequências nisto e o seu nome é Donald. Fico preocupado, muito mesmo com a situação. Mas não posso dizer que estou surpreendido..

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