Discurso dos muros


O mundo murado (Novembro de 2015)

Estava eu a compor o álbum com fotos dos grafitos do muro de Gaza quando, na televisão, se dava a notícia da construção de um muro anti-emigrantes em Calais, construção ordenada pelo Reino Unido e aceite pelos panhonhas dos franceses. Caspité!! O trumpismo avança e tem acolhimento em países governados, já não digo por democratas, nem sequer inteligentes, ainda menos sensatos mas, vá lá, por gente relativamente normal; com um arcaboiço intelectual ao nível de um 1º ciclo de escolaridade, digamos. Falsa esperança. Há uma espécie de rarefacção neuronal provocada por um ar vindo de Oeste, que perigosamente alastra pela Europa e contra a qual o bendito anti-ciclone dos Açores nada pode. Nos EUA, ainda ontem Trump repetia, naquele estilo de alforreca falante, “faremos o muro”! Refere-se, claro, ao muro que separará a União do México e que, segundo ele, será pago por este país. Esta parte da promessa não está esclarecida, já que não sabemos como se irá forçar os mexicanos a pagar o muro. Claro que se perguntarmos ao Donald, ele não deixará de responder; talvez com uma ameaça de invasão, como é costume. Impossível? Já ouviram discursos do homem? Pois, lá está.

Mas, objectareis, o mostrengo tem quem vote nele? Pois tem, digo eu. Muita gente. É a esses que me dirijo. Porque todas as outras pessoas com um QI semelhante ou superior a 11/12 anos – ou menos…- dispensam esta explicação, pois reconhecem o que é óbvio. E, notem, nem me ponho no lugar de um opositor a Trump mas, piedosamente, ao lado dos que lhe compram as ideias(?).

Sejamos breves: a construção do muro de Trump, tal como a construção do muro dos britânicos, é uma das ideias mais estúpidas paridas pelo génio humano – e como este foi pródigo em ideias estúpidas! – e – ouvi-me trumpistas! – não só não terá o resultado anunciado pelo alarve candidato, como terá o efeito contrário. Passando por cima dos milhares de milhões de dólares que pagareis por ele – ou pela invasão do México… -, ao som das gargalhadas planetárias que tal motivará, o muro não impedirá uma única entrada nos EUA, antes as facilitará. Acabou aquela aflição de saber se já se entrou no vosso território, já que a maioria das fronteiras não estão desenhadas no chão, a dificuldade de escolher o lugar de passagem, já que o topo do muro providenciará um excelente ponto de observação, a foçanguice dos guardas fronteiriços, que, graças ao muro estarão mais descontraídos e desatentos e, cereja no topo do bolo, a passagem do muro será acessível a todas as algibeiras, a todas as classes sociais.

É agora altura, se me permitem, oh desatinados trumpistas, de me virar para os meus amigos mexicanos, apresentando-lhes algumas soluções fáceis e de baixa tecnologia, sublinhando o hilariante facto de um recurso de meia dúzia de dólares – ou pesos – vencer facilmente um colosso de milhares de milhões.

Ora aqui estão, caros povos do Sul candidatos a passear pelo Norte por via pedestre, algumas soluções, das quais junto ilustrações. Atrevo-me até a sugerir a algum empreendedor local um negócio que podia ter como consigna publicitária “Com ferramentas Baptista, não há muro que resista”; é só uma ideia. Sim, eu sei, estais a pensar, e bem, que a construção do próprio muro é uma esplendorosa oportunidade de negócio. Tendes razão, mas lembro-vos que o negócio principal de Donald Trump é, precisamente, o imobiliário. Sendo assim, a empreitada está entregue…

Observai pois que, desde a humilde fateixa ninja até à perfuradora manual motorizada, passando pela prática e barata escada telescópica, ninguém fica excluído do acesso a uma solução. E notem a vantagem adicional: isto também vos livra dos vossos compatriotas traficantes de gente, os “coiotes”. Mais: qualquer destas soluções pode ser usada por um número indeterminado de utentes. Não há limite para o número de pessoas que pode subir a mesma corda, a mesma escada, atravessar o mesmo buraco. E lembrai-vos: o pior muro é o que se ergue nas nossas cabeças, não nas nossas fronteiras.

Para concluir, mesmo sendo admirador do vosso imenso património musical, atrevo-me a sugerir uma canção para acompanhar as vossas actividades trans-fronteiriças: “Lá em cima está o Tiro-Liro-Liro, cá em baixo está o Tiro-Liro-Ló…”.

Arriba, arriba!…

Comments

  1. Ricardo Almeida says:

    O muro entre o México e os EUA ainda se torna mais ridículo e inútil se tivermos em conta que uma das artimanhas mais engenhosas usadas pelos traficantes mexicanos para passarem droga e pessoas pela fronteira é… um túnel.
    Esta estratégia foi tornada famosa por outro traficante famoso, El Chapo, que um dia teve essa ideia maravilhosa enquanto observava um buraco no solo feito numa das várias casas que este usava como esconderijo em cidades fronteiriças.
    Alguns deles são de tal forma elaborados que até têm ventilação e iluminação elétrica. Até dá para fazer uma pausa para chá e bolachas a meio da travessia.
    Por isso força nisso Donald. Vai lá gastar os teus milhões em construir essa inutilidade. A única coisa que vais conseguir é dar emprego aos escavadores profissionais mexicanos.
    Infelizmente lá terão os poucos americanos sensatos ter que aturar estas alavidades enquanto o governo Norte Americano não exigir um mínimo de Q.I para validar uma candidatura à presidência,

    • ZE LOPES says:

      Desculpe lá, ó Ricardo, mas o muro vai ser muito útil. Como sabe as empresas de construção estão em crise. Quem lhe diz que a Mota Engil, por exemplo, não terá ali uma oportunidade de negócio? Sim, já que a da reconstrução do Iraque, admitida na altura por Durão Barroso, atendendo à experiência que empresas portuguesas tinham no tempo do Sadam parece não ter vingado…

  2. Esta conversa dos muros faz-me sempre lembrar a linha Maginot. Isto é, nunca serviram para nada, a não ser para enriquecer os construtores.

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