A minha promiscuidade é melhor que a tua


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Não tive dúvidas quando veio a público que três secretários de Estado tinham sido agraciados com viagens e bilhetes para jogos do Euro2016, pagos pela GALP. Na altura escrevi – e mantenho – que governantes sérios não aceitam presentes de empresas privadas. Mas o espectáculo a que ontem se assistiu no Parlamento, protagonizado por falsos moralistas e virgens ofendidas que habitam sedes partidárias de vidro, é degradante e insulta a memória recente dos portugueses. 

Telmo Monteiro, o ex-ministro dos despachos em cima do joelho, referiu que “bolas de Berlim e vendedores de bolas, fisco em cima deles. Já com a Galp vamos à bola“. Talvez sejam saudades de Paulo Portas, mas dá a sensação que o deputado do CDS-PP não estará recordado do anterior titular da pasta, que nem de propósito é do seu partido. O tal Paulo Núncio que punha o fisco em cima de todos excepto uns quantos VIPs que tinha numa lista. Já agora, em que parlamento estava Telmo Correia quando a famosa lista VIP surgiu? E quando o nome de Paulo Núncio foi associado ao processo dos Vistos Gold, por alegados favores e Miguel Macedo? E quando o ex-secretário de Estado deu luz verde para a legalização de 3,4 mil milhões de euros escondidos no estrangeiro, permitindo que os seus proprietários ficassem ilibados de qualquer irregularidade associada a esse dinheiro, nomeadamente os dirigentes do Banco Espírito Santo que se livraram de qualquer acusação relativa a luvas recebidas no negócio dos submarinos? Enfim, são promiscuidades democrato-cristãs. Deus perdoa. Como perdoou Paulo Portas, Assunção Cristas, Luís Nobre Guedes, Pedro Mota Soares e outros convivas do Largo do Caldas. Tal como terá perdoado o próprio Telmo Monteiro. Amém.

Melhor que Telmo Monteiro, só mesmo António Leitão Amaro. O deputado do PSD apontou o dedo ao governo argumentando não se tratar de um acto isolado mas de “um padrão de conduta inaceitável que faz regressar a promiscuidade entre política e negócios“. Regressar? Mas ela alguma vez foi a algum lado? Então e a contratação de Maria Luís Albuquerque pela Arrow? E a contratação de Sérgio Monteiro, com um salário milionário, para vender o Novo Banco? E os antigos assessores que José Pedro Aguiar-Branco nomeou para funções-chave de importantes empresas públicas e que posteriormente transitaram para empresas privadas com lugar cativo nas viagens promovidas pelo ex-ministro? E envolvimento de Miguel Macedo no caso dos Vistos Gold? E a Tecnoforma de Passos Coelho e Miguel Relvas? A lista é longa. Será que Leitão Amaro também dá lições de moral aos seus companheiros de bancada, ou considerará ele que a promiscuidade entre política e negócios que envolva os seus amigos representa um tipo de padrão de conduta mais aceitável do que a dos secretários de Estado do PS?

Foto@The Independent

Comments

  1. Joe Baptista says:

    No fundo ninguem se aproveita. A honestidade não é um acto de favor, sobretudo entre servidores de Estado a corrupção começa por um excelente e bem regado jantar, companhia agradável e de satisfazer os mais íntimos desejos e continua por aí a fora. Os políticos andam de cocarás, perderam ou nunca tiveram verticalidade. Quem se lembra de Egas Moniz?

  2. Um clássico Português, escritor, referia-se á prostituição com a seguinte frase : QUE PUT.e.DO TIO ALFREDO! Só que a prostituição era outra, menos dourada, mais baratinha e CRIMINALIZADA como atentado ao pudor… velhos e relhos tempos onde cabia a palavra DECÊNCIA.

  3. Ricardo Almeida says:

    Lindo é ter o Telmo a fazer referência ao caso da multa do vendedor de bolas de Berlim. É o que dar ter o Insurgente como única fonte de informação. Depois dizem-se parvoíces, revela-se quão idiotas somos e cimenta-se a ideia de que o CDS nestes dias não passam de um bando de idiotas numa estufa de vidro a atirar pedras em todas as direções e a surpreenderem-se com o som de vidros a partir.
    Com a quantidade de tiros nos pés que o CDS tem dado nos últimos dias, seria de esperar que as munições estivessem quase no fim, mas aparentemente estes armaram-se até aos dentes desde 2011 para cá.
    Desde o início do ano que as intervenções da direita no parlamento são um espectáculo que tem tanto de triste como de cómico. Espero sinceramente que continuem. O canal da AR está finalmente a tornar-se interessante.

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