Bob, o bardo


Os zangados da literatura estão, na sua indignação, a promover Dylan a grande – ou mesmo genial! – músico, tentando, assim, diminuir-lhe a obra poética. “O que ele é é músico” – proclamam. Ora eu, que gosto de Dylan, não o considero um genial músico, um grande cantor e, muito menos um, sequer, razoável instrumentista. Na verdade, sendo um melodista de mérito, com algumas boas ideias musicais que se quedam na sua mais pura simplicidade, é um cantor de voz deveras limitada – para dizer o mínimo – e um ainda mais limitado instrumentista. Dylan é um bardo, um trovador, um poeta que canta as suas palavras. E é aí que se lhe vislumbra a grandeza. Tanta, que acabamos por lhe perdoar as limitações como interprete. E mais: fizemos da sua voz rouca e limitada, do seu estilo simples e básico, valores artístico por si mesmos. É pela palavra que Dylan se eleva aos grandes. E como a palavra é bela, todo o conjunto se ergue como excepcional.
Há muitos anos, encontrei entre os alfarrábios da loja do Ricardo, ali do Arco da Amedina, uma volumosa edição artesanal – e pirata…- das “lyrics” das canções do Bob Dylan. Estava a ler o meu achado na mesa do canto da Brasileira e não tardou a piada sobre se me ia pôr a cantar. Não ia. Mas confirmava esta evidência: há uma grande diferença entre um letrista e um poeta. E raramente se encontram na mesma pessoa. Dylan é uma das excepções. Por cá, José Afonso e Sérgio Godinho – entre os poetas-cantores – são bons exemplos, como Ary dos Santos, Alexandre O’Neill e David Mourão Ferreira o são entre os que têm o segredo de fazer poesia que (se) canta. O movimento que, nos últimos anos, tem trazido para a canção grandes poetas, deu belos resultados; e também disparates intragáveis.
Quem quiser que se entretenha na florentina discussão de saber se o que Dylan faz é literatura ou não. Se o seu nariz cabe no catálogo teutónico de judeus, se os seus genes lhe traem a origem russa. Quero lá saber. Como o Poeta, eu “canto o peito ilustre” Dylaniano.

Comments

  1. Nome Obrigatório says:

    “não o considero um genial músico, um grande cantor e, muito menos um, sequer, razoável instrumentista”

    Tão-pouco é um genial letrista.
    Talvez seja um razoável letrista.
    Como inúmeros outros.

  2. De facto. Dylan é um poeta que cantou os seus poemas. Tem mérito como poeta. Como músico gosto de o ouvir como gosto de ouvir fado, não havendo contudo grande mérito no que à música diz respeito, embora goste da sua respiração e voz rouca. O mesmo para Godinho que acho que canta sempre a mesma música, mas pronto, isso sou eu. A poesia continua e vive sem a música que a emoldura.

  3. anónimo says:

    Há quem precise de pôr uma etiqueta, para poder encaixar o individuo num preconceito, e fazer juízos de valor.
    Cantor, escritor, poeta, tudo ao mesmo tempo, que interessa?
    É sobretudo, um ser humano que viveu o seu tempo com grande atenção e lucidez, que em todas as circunstancias deu a cara e lutou pela humanidade, contra a desumanidade, e que o exprimiu de forma tão lúcida e apaixonada, que arrastou consigo toda a geração do seu tempo.
    Um ser humano como poucos.
    Nos conturbados tempos que correm, tantos crimes contra a humanidade, não há equivalente ao Bob Dylan.

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