Negócios da Índia


sakhti
Desde o seu planeamento em 2006 que o novo Parque Empresarial de Águeda, o Parque Empresarial do Casarão, obra pensada, projectada e comercializada pelo executivo socialista aguedense, executivo que cessará funções este devido à impossibilidade de Gil Nadais se recandidatar ao cargo, está envolto numa enorme polémica e é motivo de discussão entre os munícipes.

A longa demora nas obras, a falta de empresas interessadas na aquisição de lotes no referido espaço para construir unidades de produção, a desistência verificada por parte do LIDL em ali se sediar com um novo entreposto de mercadorias para a região centro, devido às péssimas acessibilidades rodoviárias de acesso ao Parque, o excessivo despesismo cometido pela autarquia em 2012 na instalação de postes de alta e média tensão no parque quando ainda não existia nenhuma empresa a laborar no espaço, aliada a um forte consumo energético 24 sobre 24 horas da iluminação pública que se verificou desde 2012 até aos dias de hoje, para literalmente nada produzir foram alguns dos problemas publicamente levantados sobre a forma em como foi gerido todo o processo por parte do executivo camarário aguedense.

Porém, os problemas não se resumem ao que acabei de enunciar…


Em Maio de 2015, quando tudo apontava que o Parque Empresarial de Águeda redundasse num tremendo desastre deste executivo por falta de captação de investimento, eis que Gil Nadais, no seu habitual estilo garboso, decidiu calar as críticas da oposição com o anúncio do primeiro grande investimento para o dito Parque: a CMA tinha assinalado um protocolo de aquisição de terrenos para instalação de uma unidade de produção no Parque com a multinacional indiana Sahkti. A Sakhti, presente em Portugal desde há largos anos com uma unidade de produção no concelho da Maia, vislumbrou no Casarão a possibilidade de alargar a esfera dos seus negócios em Portugal, com a projecção de uma empresa que se destina a fabricar peças de segurança crítica automóvel para mercados externos, ou seja, trata-se de uma fundição para a indústria automóvel.

Poucas semanas passaram até ao dia em  que o executivo camarário e Jorge Fresch, o CFO da multinacional indiana para Portugal, aquando da visita deste último a Águeda para a observação do local escolhido pela empresa e da assinatura do dito protocolo, prometeram o sonho americano, perdão, o sonho indiano a todos os Aguedenses. Ao contrário de outras grandes multinacionais que declinaram a proposta, a Sakhti veio para ficar. Desde cedo, os seus responsáveis fizeram crer que a proposta feita por Águeda tinha sido superior a todas as outras, como por exemplo, a do concelho de Mangualde, um concelho que neste momento está melhor servido ao nível rodoviário que o concelho de Águeda, com a vantagem de ter no seu tecido empresarial um dos construtores cliente da empresa indiana.

Com uma mala cheia de promessas e de rupias, Fresch prometia a criação de um projecto-escola com um objectivo expresso a longo prazo de dar “mais e melhor pão aos aguedenses”, um investimento de 80 milhões de euros em duas fases, e a criação de 1650 postos de trabalho directos divididos por duas fases (150 na fase de arranque da produção) e 1500 dentro de 3 a 5 anos. Isto sem falar na promessa da criação de 10000 postos de trabalhos indirectos numa região em que uma apreciável falange de empresas fornece directamente a industria automóvel.

Contudo, outro problema emergiu: sediando-se a fundição  num parque que dista a menos de 3 km do leito do Rio Águeda, o principal curso hídrico da região, curiosamente o leito que serve grande parte do abastecimento de água do concelho e de concelhos vizinhos, seria preciso, aos olhos de muitos, realizar um estudo ambiental para perceber não só o impacto que terá a sua actividade nos cursos de água. Como já trabalhei numa fundição que trabalha para a Indústria automóvel em Aveiro, situada perto da bacia hidrográfica do Rio Vouga, conheço ao pormenor os riscos de contaminação que uma fundição pode promover se alguma coisa correr mal nas operações de gestão de resíduos perigosos como são os óleos utilizados pela empresa para a lubrificação de equipamentos, a sucata e os restos de sucata utilizados na fusão do metal nos fornos bem como a limalha de ferro que é atirada indiscriminadamente para o ar e para os solos do ecossistema pela clássica não utilização de filtros nas chaminés por parte dessas empresas para reduzir os custos de actividade. A Sakhti não será decerto excepção neste ponto em que muitas empresas violam claramente as normas ambientais.

A questão é que o último estudo ambiental promovido pela CMA data de 2009, ou seja, 6 anos antes da assinatura deste protocolo, não tendo sido feito outro que demonstre que esta empresa não irá poluir as bacias hidrográficas, bacias que em vários anos apresentaram água de má qualidade ou de qualidade apenas “aceitável”, o que motivou por exemplo que a Praia Fluvial do Souto Rio e de Bolfiar, duas das mais utilizadas no verão pelos munícipes estivessem interditas e se assemelhassem na altura a um autêntico esgoto a céu aberto.

Feita esta breve introdução, vamos ao motivo directo pelo qual estou a escrever este post.

Em entrevista recente a um dos semanários da Região, o Região de Águeda, Jorge Fresch veio afirmar que a empresa está a sentir muitas dificuldades em contratar na região, apontando a baixa taxa de desemprego na região (6,4%\20% de desemprego real) o que não se pode tomar como uma verdade universal que justifique tais dificuldades. As dificuldades no recrutamento desta empresa prendem-se obviamente por outros motivos: a clássica utilização por parte das empresas deste segmento na utilização de trabalho temporário devido a volatilidade dos seus fluxos de produção (o mercado automóvel tem um pico forte no verão e um pico mais fraco no segundo semestre, voltando a ter um pico forte nos meses de Dezembro e Janeiro), regime que afasta muita gente pela falta de estabilidade que promove a médio prazo no trabalhador (incerteza no vínculo laboral o que por si só gera insatisfacão, possibilidade de não ter direito ao subsídio de desemprego se o período de descontos consecutivos for inferior a 12 meses, dificuldades na obtenção de crédito bancário durante aquele período para não falar que um trabalhador com um contrato a termo certo de curtíssima duração raramente consegue aceder ao crédito bancário), e obviamente, o pagamento de salários baixos.

Sei de fonte segura que esta empresa anda a prometer 600 euros líquidos de salário a licenciados e o ordenado mínimo aos restantes, em regime de contratação precária com vínculos que são renovados mensalmente até aos 18 meses, para um trabalho que fisicamente é deveras exigente num ambiente desgastante para a saúde do trabalhador pelas altas temperaturas dos fornos, pelas poeiras libertadas pelo ferro em tosco, pela amina que será necessária na indispensável macharia e pela necessidade de em alguns postos de trabalho, à socapa da lei, os trabalhadores terem que pegar manualmente em dezenas senão centenas de peças com mais de 10 kg (algumas com 30 e 40 kg) para executar as segundas operações de rebarbagem e corte de rebarbas. Outros terão por exemplo de estar 8 horas com esses instrumentos de corte nas mãos. A utilização abusiva desses instrumentos (rebarbadoras, martelos pneumáticos, biaxes) provocam a deformação dos ossos das mãos num curto espaço de tempo.

Face à remuneração e às condições de trabalho oferecidas, não me admira que existam centenas de pessoas a dizer não ao esclavagismo puro e duro que esta multinacional indiana vem oferecer para Águeda.

Comments

  1. Com papas e bolos lá se vão enganando os tolos.

  2. Meu caro, é tão simples quanto isto. Se oferecem 600 euros e não encontram quem queira trabalhar, talvez devessem oferecer 650. E se continuarem a não encontrar, passar aos 700 e por aí em diante. Ainda que não acreditem, o mercado funciona mesmo por si próprio, várias vezes tenho defendido que não são precisas Leis, existirá sempre um patamar abaixo do qual não se encontra quem queira trabalhar, tal como existe outro acima do qual não é possível pagar…

Trackbacks

  1. […] como algumas críticas (colocadas com um espírito de elevação e boa educação) na sua página em relação a este assunto que já me motivou a escrever aqui no […]

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