A noite em que Ederson foi a muralha vermelha


ederson

O futebol, por mais voltas e manobras que possamos arranjar nos números das estatísticas, é uma ciência exacta: vence quem marca mais golos que o adversário. Quem é mais eficaz à frente da baliza, vence. E o Benfica foi mais eficaz que o Dortmund. Não se trata de felicidade, felicidade que também existiu mas sim de eficácia: nas duas oportunidades que os encarnados tiveram durante os 90 minutos, marcaram numa. Em 11 oportunidades de golo construídas pelos jogadores do Borussia, nenhuma delas se materializou. O resto? Bem, o resto foi Ederson, coração, alguma sorte à mistura, o carácter perdulário dos alemães e duas gigantes exibições de Luisão e Nelson Semedo no sector defensivo encarnado.


O “Dortmund da Luz” não foi o “Dortmund de Alvalade” – os princípios de jogo característicos da turma comandada por Thomas Tuchel estiveram lá e até permitiram aos alemães construir oportunidades de golo atrás de oportunidades de golo. Mas a eficácia do futebol germânico, demonstrada no primeiro tempo do jogo de Alvalade não surtiu no Estádio da Luz. A este nível, a ineficácia total paga-se bastante cara.

Jogo com selo de Champions.

O domínio da partida pertenceu aos alemães, apesar do Benfica ter entrado a todo o gás na partida com uma ala direita demolidora, facto que permitiu a Sálvio ter aos 5 minutos a primeira oportunidade de golo.

A partir daí, o futebol de ruptura assentou que nem uma luva à identidade de jogo dos alemães. Com o fantástico lançador que é Julian Weigl, devidamente coadjuvado no perímetro de criação por Ousmane Dembele e Raphael Guerreiro, à falta de mais criatividade nas alas no que ao último terço concerne, o Borussia foi tentando aplicar na Luz o seu futebol pragmático que visava lançar por alto as desmarcações de Marco Reus e Pierre Emerick Aubemeyang nas costas dos centrais encarnados. O criativo extremo alemão e o rapidíssimo avançado gabonês passaram grande parte da partida sediados entre Luisão e Nelson Semedo (no caso de Reus) e Luisão e Lindelof (no caso do avançado gabonês) à espera dos passes de ruptura dos seus jogadores da linha média. A estratégia foi positiva tendo gerado alguns frutos, mesmo apesar do facto de Aubemeyang ter sido apanhado 5 vezes em fora-de-jogo no primeiro tempo, muito por culpa da inteligência demonstrado pelo sector defensivo do Benfica no “momento do passe”. O gabonês teve poucos minutos depois uma oportunidade redondinha nos pés, na cara de Ederson, para poder mudar o destino de jogo. O remate, por cima, confirmou uma exibição horrorosa do africano em Lisboa.

Face ao pragmatismo trabalhado pelos alemães, à verticalidade do seu jogo e à capacidade em criar situações de ruptura, aliadas a uma pressão alta asfixiante que não deixava Pizzi partir para as transições e que obrigava Fejsa, na pressão a meio-campo, a saltar de jogador em jogador, a equipa do Benfica sentiu necessidade de baixar as linhas para encurtar o espaço dos alemães para trocar a bola a meio-campo e cortar alguma profundidade ao jogo da equipa de Thomas Tuckel. Mesmo assim, a equipa germânica teve o mérito de conseguir construir um engodo na sua circulação que baralhou por completo os encarnados quando por exemplo, na sua fase inicial de construção, já dentro do meio-campo encarnado, com a participação dos centrais nos processos de construção, através de curtas trocas de bola, os jogadores do Benfica eram fixados literalmente a “cheirar o esférico” para este ser depois variado para o centro ou para o flanco contrário.

Os alemães tiveram bastante posse de bola nos 15 minutos finais perante um Benfica remetido ao seu meio-campo, ganharam todas as divididas, foram construindo lances fantásticos na interior esquerda e na ala esquerda com vistosas combinações entre Marcel Schmelzer, Guerreiro e Reus, mas, com algumas falhas no último passe, permitiram que os encarnados saíssem para o intervalo com um generoso empate.

Rui Vitória teve obviamente que mexer na estratégia encarnada ao intervalo. Não poderia ter feito outra coisa do que contrariar a estratégia de pressão alta que já tinha rendido várias recuperações de bola aos alemães, principalmente a Raphael Guerreiro e a Dembele no primeiro tempo, com a adopção dessa mesma estratégia no início do 2º tempo. E essa estratégia rendeu a vitória a uma equipa que até ali tinha sido um autêntico e redondo zero no plano ofensivo. O Benfica pressionou bem o adversário na sua saída de jogo, ganhou um canto e do magnífico lance de bola parada, Luisão teve o mérito de colocar Schmelzer ceguinho de todo na área à sua procura para ir cabecear o esférico que caiu redondinho na esfera de actuação de Mitroglou. O grego fez um fantástico domínio, só ao alcance dos grandes avançados e, com Burki totalmente estendido (não esperava que o grego conseguisse dominar aquele cabeceamento) na direcção do cabeceamento do “Girafa”, atirou para o fundo das redes.

Por outro lado, a entrada de Felipe Augusto para o eixo central do meio-campo foi o balão de oxigénio que Fejsa precisava para crescer na partida depois de 45 minutos em que o internacional sérvio esteve sempre em clara inferioridade numérica no seu raio de acção.

O momento galvanizou o até então silencioso público da Luz. O Borussia voltou a reagir muito bem ao golo sofrido e voltou à carga, colocando os seus centrais a manobrar a primeira fase de construção dentro do meio-campo encarnado. Mais do mesmo.

Os alemães construíram muito, construíram bem, remataram muito, remataram bem, voltaram a encostar um Benfica bem mais solidário do que aquilo que tinha sido no plano defensivo no primeiro tempo às cordas, beneficiaram de um penalty correctamente assinalado pelo árbitro italiano Nicola Rizzoli a castigar um “braço na bola” de Fejsa na área que Aubemeyang desperdiçou com um remate ridículo à figura de Ederson (o guardião do Benfica não teve qualquer mérito na defesa desta grande penalidade porque até eu a defendia) e tentaram fazer a bola entrar nas redes da baliza defendida por Ederson de todos os modos e feitios. O guardião encarnado foi gigante e foi justamente eleito o Man of the Match. Quando o brasileiro não foi chamado a intervir, valeram aos encarnados os corajosos e brilhantes desarmes do capitão Luisão. O experiente central encarnado tremeu quando num lance dentro da área cortou a bola de bico contra Nelson Semedo, colocando a novamente nos pés de Aubemeyang na cara de Ederson, compensando posteriormente com dois desarmes importantíssimos na entrada da área, um quando Reus se preparava para puxar do gatilho depois de uma inflexão em drible da direita para o centro e outro, também muito importante, minutos depois, a Andre Schurrle.

Nota final para a arbitragem do árbitro italiano Nicola Rizzoli. O juiz transalpino fez uma arbitragem aceitável na Luz. O seu critério largo permitiu alguma fluidez ao jogo. Não teve necessidade de agir no capítulo disciplinar porque o jogo não o obrigou. Contudo, Rizzoli esteve mal ao não assinalar uma falta clara de Ederson sobre Dembele no limite da área (fica a dúvida se o brasileiro estava ou não a pisar a linha da grande área quando sarrafou o jovem francês) e perdoou na 2ª parte a expulsão por acumulação de amarelos a Fejsa ao não disciplinar o trinco sérvio com o amarelo no lance do penalty. Fejsa acabaria por ser penalizado com o cartão posteriormete quando travou Dembele em velocidade numa arrancada do antigo jogador do Rennes no meio-campo. Nesse lance, caso tivesse sido devidamente disciplinado no lance do penalty, seria expulso.

Comments

  1. Konigvs says:

    Li um pouco na diagonal mas não concordo de todo quando se diz que Ederson não teve mérito na defesa do penalti.
    Primeiro porque se diz que um penalti bem marcado é atirar para o meio da baliza porque o guarda-redes vai cair sempre para um lado ou para o outro; e depois, precisamente por isso, aquilo que faz parecer ridículo o remate do avançado “alemão” é o esperar até ao último do guarda-redes, até perceber que a bola vai para o meio. Um penalti à Panenka pode fazer do Postiga um exímio marcador de penaltis, ou então, quando o guarda-redes não se mexe, pode fazer do Jackson Martinez um completo idiota. Como em quase tudo na vida, o mais difícil é fazer parecer as coisas fáceis, mas aqui no caso, para mim, o mérito vai todo para o Ederson.

    • Obrigaste-me a ter que ir rever novamente o lance. Não concordo com a tua opinião, mas respeito-a. Não vou estar aqui a tecer considerações sobre se um penalty é bem marcado se for para o meio ou se for ao ângulo porque cada jogador tem uma forma diferente de os marcar. Como antigo chutador aos postes no rugby, a marcação de uma bola parada depende de várias condicionantes: da concentração do jogador no momento, da parte do pé que utiliza para dar determinado efeito na bola, da distância a que está a chutar (condicionante que leva o jogador a empregar no remate uma determinada força), da avaliação do comportamento momentâneo do guarda-redes por parte do jogador que vai chutar (se vai ficar na linha de golo, se vai sair, se vai cair para um dos lados…) e, muito importante, da postura corporal do jogador no momento do remate. Se o jogador tiver o tronco inclinado para cima o remate sairá alto. Se o jogador tiver o tronco inclinado para baixo, o remate sairá baixo.

      No caso concreto, nota-se que o Ederson pede ao Aubemeyang para rematar para o lado direito e balança-se na linha de golo para esse mesmo lado. O Aubemeyang não sente o sinal e parte sem convicção para a bola. Denota-se que o avançado gabonês utiliza a parte de dentro do pé para dar a entender que vai rematar para a esquerda do guarda-redes. Quando remata, o guarda-redes ainda não se atirou. E faz-lhe um mero passe. Se o objectivo era colocar a bola para a esquerda do guarda-redes deveria ter puxado a bola com recurso à zona do dedo maior do pé porque é essa que dá um belo efeito à bola naquela circunstância.

      • Konigvs says:

        Um penalti bem marcado é indefensável, não tem discussão. Existem muitos especialistas que falham clamorosamente, estou-me a lembrar por exemplo do Maradona de quem o Ivkovic defendeu dois penaltis. Ou de especialistas na baliza, como o Yashin, que defendeu (deixa ir à Wiki) 150 penaltis! mas com quem Eusébio não se impressionou minimamente e meteu-a lá dentro. E lá está, o Eusébio fazia a coisa simples. Mandava uma bomba lá para dentro, e se o guarda-redes se metesse à frente, entrava baliza adentro junto com a bola. Outro que batia os penaltis assim quando chegou a Portugal, era o Cardozo. Só que depois lembrou-se, ou lembraram-no, sei lá, de querer ser artista, e começou a bater colocado. Resultado: Oscar Cardozo é o jogador que detém o recorde de mais penaltis falhados da Liga Portuguesa! e falhou ainda o penalti em 2010 contra a Espanha pelo Paraguai. Lá está, marcava sempre de forma fácil, mudou, para depois se tornar o pior marcador de penaltis de sempre.
        No caso de ontem, se o Ederson, como todo e qualquer guarda-redes, se atirasse para um dos lados ao calhas, o penalti do Aubemeyang teria sido bem marcado; como o guarda-redes foi mais esperto, agora já é o avançado que é idiota, quando muitos jogadores batem precisamente para o meio. Na minha opinião, que vale o que vale, neste caso, há mais mérito do guarda-redes, que demérito de quem bateu, porque bateu em força e a meia altura, não foi um daqueles casos, como tantos outros, em que se fez um passe rasteiro ao guarda-redes.

        • Temos pontos de vista diferentes sobre este lance! Mas como já te disse, respeito a tua visão. O Yashin! Eu pessoalmente não acredito muito nesse mito. Não há suporte de imagens dos campeonatos soviéticos de então que provem que o Yashin defendia assim tantos penaltys. O que me faz crer que esse foi o mito que o regime soviético construiu à volta do jogador para o usar como uma forma de projectar poder. Mas que o gajo era, pelos vídeos que circulam pelo youtube, uma autêntica aranha, lá isso era!

  2. Edrson fez duas defesas “impossíveis”, somente.

  3. Konigvs says:

    E agora já percebi quem é que ensinou o Cardozo a falhar penaltis!

    “Ó mister mas eu marco sempre golo de penalti, vamos mudar para quê?
    – Confia em mim Oscar. Eu vou-te tornar no pior marcador de penaltis de sempre”!

    Jesus, aquele que tudo sabe. Jesus cria, os outro imitam!

  4. O Cardozo era de longe a curta, média ou a longa distância o melhor rematador do Benfica na era Jorge Jesus. Falhou alguns penaltys certo mas também marcou imensos de livre.

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