Assim vai o rectângulo…


Teodora Cardoso teve esta semana uma expressão infeliz, quando considerou milagre o défice de 2,1%. Em primeiro lugar porque milagres não existem e bastaria dizer o óbvio, mais uma vez existiram medidas extraordinárias sem qualquer redução estrutural da despesa. A senhora não é política, não lhe peçam grandes discursos ou tiradas retóricas, mas anda nisto há muitos anos para ver a competência posta em causa por ilusionistas políticos que dominam a arte da demagogia. Alguns dos que a criticam agora, aplaudiam-na quando ela na anterior legislatura também colocava o dedo na ferida, desagradando ao governo de então. É assim a independência, não tem que se agradar a ninguém, fazer jogo político, obedecendo a estratégias partidárias.

Mário Centeno pode ter apostado no perdão fiscal para conseguir o bom resultado que obteve, não custa reconhecer que superou o objectivo a que se tinha proposto e por isso está de parabéns. Principalmente porque nesta matéria ninguém tem moral para falar, é intelectualmente desonesto criticar o actual governo nesta matéria. A lógica é sempre a mesma, quando não se pode dizer que o resultado é mau, aponta-se baterias ao método utilizado. Faz parte do jogo política, mas a oposição não fica bem na fotografia ao enveredar por estes caminhos.
Medidas extraordinárias, desde aumentos temporários de IVA a vendas de património, passando por perdões fiscais, sempre foram utilizadas. Os anos passam, sucedem-se os governos e logo aparece a velha cantilena, justificando uma qualquer medida que lhes permita alcançar um resultado contabilístico que os deixe bem na fotografia. O que não vejo e nunca vi, foi coragem política para reformar o país. Os socialistas têm fama e já agora proveito, de gastadores, mas em grande medida, o monstro foi criado por Cavaco Silva e todos os que lhe sucederam, não pararam de engordar. Porque é mais fácil, porque rende votos. No dia em que algum partido apresente aos portugueses propostas concretas e uma vez eleito as coloque em prática, talvez volte a acreditar em políticos. Ainda recordo as propostas do PSD em 2002, de reduzir o asfixiante peso do Estado através do choque fiscal. Uma vez eleitos, aumentaram impostos.
Nunca fui um entusiasta da integração europeia, porque Bruxelas está cheia de regras e regulação. No entanto se encontro um lado positivo na moeda única, será a impossibilidade dos governos empobrecerem os portugueses com sucessivas desvalorizações. Não fora isso e teríamos tido os vendedores de banha da cobra em S. Bento, pelo menos os 3 últimos teria sido garantido, porque é sempre mais fácil roubar um pouco a todos, do que afectar as diversas corporações que parasitam o país. Que dizer de “intelectuais” que consideram incómoda a presença de turistas ou políticos que apregoam virtudes no consumo interno, desvalorizando exportações, enquanto falam em garrote da dívida ou ditadura do défice?
Tivemos o BPP, BPN, Banif, agora o BES, mais um triste exemplo e espero que um dia não venhamos a descobrir que a CGD não passou de mais do mesmo, uma verdadeira teia de interesses e financiamentos obscuros. A quem serviu a resistência da PT à OPA da Sonaecom? A quem serviu o ruinoso negócio PT/OI? Quem financiou os projectos OTA/TGV/Alcochete? Quantos ex-governantes estão hoje em empresas que actuam em áreas de negócio que tutelaram politicamente? E quantos lugares no Estado estão ocupados por titulares de cartão partidário em vez do mérito? Quantos estudos e pareceres foram encomendados sem terem servido para coisa nenhuma?
O velho corporativismo do Estado Novo está longe de ter desaparecido, não se pode chamar capitalismo a um sistema que não procura uma livre concorrência em busca de competitividade e eficiência. Portugal até pode ser um local agradável para viver a reforma ou fazer turismo, principalmente se for estrangeiro, mas é demasiado mau para quem pretende investir e não tiver ligações ou acesso a favores políticos. O resultado está à vista, só não vê, quem não quer ver…

Comments

  1. Bom texto, apontando muito bem a realidade político-económica.

  2. tá bem tá says:

    o delírio do costume com a pós-verdade do costume.

    a dona teodora falhou! PONTO. mesmo sem medidas extraordinárias, o défice era inferior ao que ela projecto ainda em setembro. PONTO.

    bem sei que os almeidas e as teodoras desta vida acham que “sustentável” é empobrecer ainda mais os portugueses. é a filosofia à monentegro: o país pode estar bem se as pessoas não estiverem.

    ganhem vergonha.

  3. Rui Naldinho says:

    Eu não diria melhor. António, hoje voto em si.
    Pena é, que você não nos brinde semanalmente com coisas destas, e prefira dar umas “tangas ao pessoal”, tentando acicatar a ira das hostes.
    Você, melhor do que ninguém, sabe que o Tuga tem o coração ao pé da boca.
    Cumprimentos

  4. Dou-lhe os parabéns por manter a coragem de escrever e bem, neste blog, em que pelos comentários dos trollś a diversidade de opinião recebe tanto insulto, presumo que até incomoda a maioria, ou então apenas os trolls,e os outros calam-se.
    A verdade oficial , pelos vistos ainda há muito imbecil que suspira por ela.

  5. Ferpin says:

    Tem a noção que sem o dinheiro do perdão fiscal o défice ficava bem abaixo de 3%?

    Se tem, mentiu no seu artigo.

  6. Mais um texto do mesmo autor a ver se faz dos outros parvos – e logo elogiado pelo previsível cristovao,

    Um texto desenvolvido em torno de uma trafulhice inicial: A de que Teodora criticava Passos Coelho, Paulo Portas, Vítor Gaspar e Maria Luís Albuquerque. Quando Teodora os criticava era para exigir mais cortes, mais austeridade. Ou seja, quando criticava era para os legitimar, para lhes dar um ar bondoso.

    Não era por ser cientificamente honesta. Servia para o mesmo que os jornalistas, e logo tecnicamente isentos, Gomes Ferreira, Camilo Lourenço e outros que tais. Para fazer de polícia mau comós raios e auxiliar os polícias bons. [Quando é que o Expresso revelará o nome de avençados que disse que tinha?]

    Depois o autor afirma como se fosse verdade que o défice foi ajudado pelo PERES. Ora, o que se diz é que o défice já cumpriria mesmo sem isso. Como não fiz cálculos, nem vi os números, não sei quem diz a verdade. O autor desta posta também os não fez e nem fazemos ideia se os saberá fazer. Mas assumiu que são aqueles dos partidos onde tem votado que têm razão. Os mesmos tipos que sem se rir conseguiram descobrir cinco bicicletas nas ciclovias lisboetas.

  7. Fernando says:

    A Teodora “não é política” diz o António DE Almeida. LOL. Ela pode não ser política mas não faz outra coisa senão política. Segunda pérola do António DE Almeida: “quando ela na anterior legislatura também colocava o dedo na ferida, desagradando ao governo de então”. Se o Passos pedia austeridade, ela dizia que era preciso mais. Ela não discordava do Passos em relação à substância, achava é que ele era muito comedido. Resumindo: António Propaganda Almeida no seu melhor. O António ainda vai ser nomeado para cabeça de lista nas autárquicas de Lisboa pelo PSD.

  8. Paulo Marques says:

    O que era bom, para os libertários, era ser cada um por si e se tivesse azar na vida, a culpa é dele. Ao menos diga logo ao que vem, pode ser que tenha menos elogios.

  9. Paulo Só says:

    Portugal pode não ser um bom lugar para quem quer investir, mas é ainda pior para quem não tem o que investir, e não pode escolher outro lugar para viver ou ter nascido. Para quem se apercebe que a igualdade de oportunidades é uma treta.

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