Emil Forsberg: desmistificar a verdadeira posição 10


A propósito da posição de Chico Geraldes, ouvi João Alves dizer num dos últimos episódios do programa playoff dizer uma baboseira de todo o tamanho. Afirmou o luvas pretas nesse episódio, perante o sábio Rodolfo, tantas vezes citado aqui no Aventar por um grande amigo meu, que o clássico número 10 é um jogador que joga obrigatoriamente atrás dos avançados, com a função de criar no corredor central. Respeito muito o João Alves mas, à semelhança do que os compadres da terra dele (Albergaria-à-Velha) dizem ao tasqueiro quando o vinho não é maduro (por norma uma reserva com mais de 6 anos), o João Alves está passado. Como futebolista foi um grande jogador, tendo aberto o filão do estrangeiro para todas as gerações que se seguiram. Como treinador foi mediano. Como comentador, a idade, bem, a idade pesa-lhe e fico-me por aqui: está passado!


O 10 clássico não morreu. O Chico é um 10 ao contrário do que o Jorge Jesus diz. Não é um segundo avançado armado em poacher,  não é um falso 9, não é um falso 8. Quem vos vender este tipo de jogadores nestas posições, é um profundo desconhecedor da teoria da redondinha. O Jesus afirmou há bem pouco tempo que o Chico é um segundo avançado. O Chico pode ser o que ele quiser. É um 10 que pode jogar atrás na posição do Adrien, que pode jogar à frente na posição do Alan Ruiz, na ala esquerda, na ala direita – o Chico será o que Jesus quiser porque possui para além de toda aquela técnica uma profunda inteligência a jogar.

O 10 clássico não é um jogador fixo numa determinada posição no terreno, é jogador que tem uma função muito peculiar em campo. Não se pode dizer que as equipas que possuem um em campo tem mais sucesso que as outras. Afirmar isso seria estar a ser muito redutor perante a autêntica lei de Murphy que é o futebol, ao contrário do que muitos pensam. Criticar é fácil, ler o que se passa lá dentro é mais difícil, ser capaz de explicar é uma arte cujo dom a poucos pertence.

Como função em campo, a função de ser o criativo da equipa (vide aqui inteligência vs criatividade a propósito do post que escrevi sobre outro 10 que não joga necessariamente no corredor central, o dinamarquês Christian Eriksen) um número 10 que se preze precisa de ser um jogador capaz de ser criativo, rápido de processos, imprevisível (para conseguir apanhar o adversário de surpresa de forma a invadir o espaço adversário ou conseguir criar condições para que um companheiro de equipa o faça; efeito superioridade numérica), habilidoso no drible, capaz de “ver” e ler o jogo com olhos de ver, e tecnicamente dotado no capítulo do passe. Este tipo de características são aquelas que se adaptam à função, não existindo qualquer ligação específica entre a função e a posição. O 10 clássico é aquele vagabundo que anda portanto solto no meio-campo adversário servindo como o jogador criativo que faz a interligação entre o meio-campo e o ataque.

É nesta função que se tem destacado o internacional sueco Emil Forsberg no RB Leipzig. A equipa alemã, uma das surpresas desta temporada (no seu ano de estreia, aquele que é considerado o clube mais odiado de toda a Alemanha está a obter provisoriamente um surpreendente 2º lugar na Bundesliga) muito deve a sua actual posição na tabela ao internacional sueco. Está claro que tal notoriedade, analisada à lupa, não é virgem: o treinador austríaco Ralph Hasenhuttl sabe o que faz, conhece os jogadores que tem, criou uma estratégia de transição à medida de dois jogadores (essencialmente do nº8 Naby Keita e de Forsberg) e aplica-a com uma perfeição extrema: sempre que a bola cai nos pés de Keita, este descortina automaticamente a posição do sueco e coloca-lhe a bola para que ele faça o que lhe compete fazer: acelerar e criar o jogo, promovendo um futebol ultra rápido no terceiro terço do campo que permite vantagens à equipa. Por vantagens entendam-se a possibilidade da equipa progredir (invadir o espaço adversário) nos espaços onde não existem defensores ou nos espaços onde a equipa tem superioridade numérica. Forsberg cria portanto esse tipo de situações com o seu fantástico drible, com a sua fantástica capacidade de aceleração de jogo, com as suas vistosas fintas, com as rápidas soluções em tabela seguidas de abertura (leia-se variação de jogo) para o flanco contrário, aberturas que quase sempre criar situações muito vantajosas para o lateral direito da equipa (o Leipzig joga num 4x4x2 losango – versão fechada) Benno Schmitz. Tudo isto sem ter que ser forçosamente aquele jogador criativo que joga atrás dos avançados no corredor central.

Tudo isto partindo das alas conforme o que é demonstrado no vídeo em epígrafe.

Por detrás do segredo do sucesso de Forsberg está um pormenor que poucos conhecem: o internacional sueco faz da agilidade e da destreza os seus pontos fortes para desequilibrar em virtude de ter praticado floorball na sua adolescência. O sueco só trocou o floorball pelo futebol aos 17 anos. Isso explica tudo. O floorball é um jogo de pavilhão muito praticado nos países nórdicos, muito similar ao Hóquei em Campo (se estiver errado corrige-me Armindo) embora seja praticado num espaço mais reduzido (em pavilhão) com um esférico, se assim lhe posso chamar, e com equipamentos diferentes daqueles que são utilizados no Hóquei em Campo. Contudo, sem querer entrar em pormenores sobre aquilo que desconheço na sua raiz, parece-me ser um jogo disputado com um pace mais rápido que o Hóquei em Campo e com um pouco mais de agressividade nos contactos. Transportando essa realidade, não me admira a capacidade que o sueco tem de fugir ao tackling adversário. É efectivamente um jogador esquivo.

Para compor o bolo, Forsberg tem uma meia distância temível e é um exímio batedor de bolas paradas.

Comments

  1. Ferpin says:

    Se o Chico vai ser o que Jesus quiser… vai acabar na equipa B.

  2. Não creio meu querido amigo.

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