Serei só eu a sentir o cheiro a esturro no ar?

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Na madrugada de Sábado, Estados Unidos, França e Reino Unido decidiram bombardear instalações militares do governo sírio, alegadamente relacionadas com a produção e armazenamento de armas químicas, alegadamente usadas contra a população civil e indefesa de Douma, um dos últimos bastiões rebeldes nas imediações de Damasco, que alegadamente acertaram os alvos a que se propuseram.

O ataque vem na sequência de tweets contraditórios de Donald Trump, um clássico do governante socialite, que num dia felicita Putin pela vitória numa eleição fraudulenta, para no outro afirmar que a relação entre as duas potências está pior do que nos tempos da Guerra Fria. Em poucas horas, o anedótico presidente norte-americano conseguiu ameaçar que os mísseis iam a caminho, para depois afirmar que tais movimentações poderiam estar para “muito breve ou nem por isso”. Ter um maluco aos comandos da máquina de guerra do império tem destas coisas. E a nomeação de John Bolton é a cereja no topo do bolo da falta de noção deste mentecapto com ogivas.

Apesar da hesitação nas redes sociais, Donald Trump lá ordenou o ataque. Trump, Macron e Theresa May, a aliança dos alegados defensores absolutos das democracias ocidentais, que bombardearam a Síria porque organizações alegadamente não-governamentais e não-identificadas teriam provas de que Assad teria usado o seu arsenal químico contra a população civil. E cai vai disto, que vem aí o livro do Comey e para tirar o sono ao presidente americano já cá andam a Stormy Daniels e o Dino Sajudin, o porteiro que, alegadamente, sabe demais. Uma sessão de pirotecnia vinha mesmo a calhar.

Coincidência das coincidências, Sábado era precisamente o dia em que chegariam a Douma os peritos da Organização para a Proibição das Armas Químicas, para uma investigação independente ao alegado ataque químico. Mas a perícia, como viemos a saber, teve que ser adiada. Porque não esperaram as potências ocidentais pela auditoria dos técnicos que legitimamente representam uma organização internacional perfeitamente identificada, e da qual fazem parte, ao contrário dessas ONG’s, alegadamente no terreno, que, alegadamente geridas desde Londres ou Paris, surgem sempre que as tropas do regime ganham terreno aos rebeldes, que alegadamente também produzem armas químicas? Porque não aguardar mais uns dias, já que a Síria e os seus depósitos de gás cloro e sarin não iam a lado nenhum?

Talvez tenha sido apenas um movimento imprudente, normal em lideranças erráticas e néscias como a de Donald Trump. Talvez tenha sido a pressa de encobrir algo que, alegadamente, poderia colocar o argumentário da decisão militar em causa. Talvez tenha sido uma demonstração de força, para colocar o cleptocrata russo à prova. Talvez nenhuma das anteriores. Mas uma coisa é certa: se a tríplice ocidental não tinha nada a recear de uma investigação da Organização para a Proibição das Armas Químicas, sobre a qual tinha obrigação de estar informada, não só pela responsabilidade acrescida de ser composta por países directamente envolvidos no conflito, que integram o Conselho de Segurança da ONU na exclusiva condição de permanentes, mas essencialmente por serem membros de pleno direito da OPAQ, podia perfeitamente ter esperado mais alguns dias. Mas não esperou. Serei só eu a sentir o cheiro a esturro no ar?

Comments

  1. Bento Caeiro says:

    Para além de tudo o que acima se diz, que trás à superfície os jogos de poder na zona, uma questão se põe, para a qual será necessário encontrar uma resposta. Tendo sido bombardeadas as fábricas onde, alegadamente, estariam os produtos químicos; muitos deles, certamente, armazenados, então como foi possível a sua neutralização, considerando que não se verificaram quaisquer efeitos na população?

  2. Antonio Medeiros says:

    É verdade, Bento, este fulano não merece crédito, ameaçam vidas e vidas pelo simples prazer de usar a força para satisfação pessoal e a imprensa corrupta patrocinada por eles na América Latina esconde ou disfarça os interesses do capitalismo “liberal”


  3. Não, João Mendes, não é o único a sentir o mau cheiro de toda esta mafia política e hipocrisia criminosa do Ocidente, estamos consigo nestas reflexões mas somos poucos, que o pessoal do biscato quotidiano anda já a correr é para o bem bom do sol de primavera e com a comunicação social a dar-lhes futebol e desinformação é o que temos nós por aqui, que a nível internacional as denúncias e indignação acontecem mas surdas e ao longe e logo esquecem e só alguns atentos reflectem seriamente apreensivos com assuntos tão sérios neste mundo nas manápulas com espigões dos poderosos a tornar-se cada vez mais num sítio muito perigoso para se viver, para nós e nossos vindouros !!

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