Junta de Boys ou a Intolerância Política à Lactose

Em 2018 um conjunto de bracarenses criou um programa de autor na RUM – Rádio Universidade do Minho, chamado “Junta de Boys”. Sublinhe-se a originalidade do nome para um programa divertido com o fito de analisar a realidade local. Segundo sei, um (ou mais) dos seus autores pertenceram, nos idos de 90/00, ao blogue “Avenida Central”, um dos melhores blogues locais/regionais da época e que foi uma enorme dor de cabeça para a Câmara Municipal de Braga liderada, à época, por Mesquita Machado (PS). Aliás, sobre isso, cito um dos autores:

Já não é primeira que um projeto de discussão da política local em que participo é objeto de censura súbita… O primeiro caso teve a ver com as Conversas Desbragadas, do ProjetoBragaTempo, em 2001. O objetivo era debater a cidade de Braga com especialistas, de forma informal, com entrada livre e participação do público. Parece simples mas gerou – e ainda hoje geraria – imensa animação que foi bem aproveitada pelos muitos jornais que tinham sede ou delegação em Braga em tempos de cinzentismo mesquitista. As Conversas realizaram-se no salão do Ferreira Capa e, no dia da 3ª Conversa, avisaram-nos que seria a última. Claro que as Conversas não pararam e mudaram-se logo para o antigo Nosso Café [que nunca pôs quaisquer entraves]. Muitos anos depois foi a vez da Revista Rua. Com o propósito assumido da polémica nascia a rubrica Avenida da Liberdade. Eu escrevia à esquerda e o Rui Moreira à direita. Escrevemos o que entendemos sobre o mesmo tema durante várias edições até que a direção nos pediu uma pequena pausa… Até hoje! Coincidência: logo depois, a Rua entrevistou com grande destaque o Presidente da Câmara e passou a celebrar contratos com o Município… (Luís Tarroso Gomes, Junta de Boys)

Ora, nestas coisas o poder político lida sempre muito mal com a crítica. E nestas matérias, nenhum partido é virgem. O mesmo Luís Tarroso Gomes explica: “A origem da censura também é difusa, e normalmente, radica em interesses económicos indiretos. Por exemplo, a Câmara de Braga não dá dinheiro à imprensa, através das mais diversas vias e contratos, para que a imprensa se cale. O que faz é dar quantias suficientemente generosas para que esses órgãos de comunicação, frágeis pela quebra de receitas publicitárias, fiquem agarrados a esse apoio. E por sua vez estes tornam-se mansinhos para assegurar a renovação do apoio assim pondo em causa a fiscalização democrática. Se fosse num governo seria um escândalo. Mas a nível local pode fazer-se quase tudo sempre em perfeita impunidade“. Nesse aspecto, o chamado “Poder Local” aplica a censura com uma facilidade impressionante. O caso de Braga não é único nem novo. E nem tão pouco é distinto do que se passa em autarquias rosa, laranja, azuis ou vermelhas.

Normalmente, os críticos apontam aos gabinetes de comunicação esquecendo que estes apenas fazem o seu trabalho cumprindo as directrizes do poder político. O que existe é uma tremenda intolerância à crítica, fruto de uma espécie de bolha em que vivem os detentores de cargos públicos. Uma bolha que os faz acreditar piamente que este tipo de programas, as críticas no facebook ou no jornal local são de uma dimensão gigantesca quando, na realidade, são apenas lidas/comentadas/ouvidas pelos restantes membros da bolha. E que bolha é essa? Os amigos do autarca, os políticos do município, os crentes e devotos dos partidos daquele concelho. Ou seja, 0,05% da população e/ou dos eleitores. Contudo, o autarca acorda e vê 200 chamadas, 500 mensagens e outros tantos emails dessa malta da bolha a comentar o artigo ou o podcast e pensa: “Foda-se, esta merda está em todo o lado”. Não, não está, está apenas e só num pequeno círculo que se alimenta e alimenta o autarca.

Tenho inúmeras histórias e casos desses que testemunhei e participei, no passado, no exercício de funções de consultor de comunicação. Uma delas, passível de ser contada em pequenos pormenores, foi a de um autarca que estava muito reticente em colocar publicidade num determinado canal de televisão. O homem achava que ninguém via esses programas. Ora, o gabinete de comunicação do dito avisou os amigos, os camaradas de política, a família e todo o cão e gato (sem esquecer a oposição ao homem) do dia e hora da entrevista que o santinho ia dar ao referido canal. Foi remédio santo. No final da mesma, era ver o telemóvel a tocar, as mensagens a cair, os emails de parabéns de todos e mais alguns. Todos? Sim, todos os da bolha. Os tais 0,05%. Conclusão, o canal e o programa afinal eram os maiores. Qual CNN, qual quê!

Essa bolha tolda a inteligência do indivíduo. Para o bom e para o mau. Um bom exemplo é o Ricardo Araújo Pereira e os seus programas de humor. As suas críticas demolidoras ao Chega evitaram o resultado do Ventura nas presidenciais? Claro que não. Então significa isso que este tipo de programas como o “Junta de Boys” não servem para nada? Errado. Servem. Desde logo para colocar os detentores de cargos públicos à defesa e evitarem de fazer asneiras (ou disfarçarem melhor), servirem de travão à proliferação de boys e girls, a pensarem duas vezes antes de ajustar directamente o que quer que seja. São um instrumento de fiscalização mais eficaz que as Assembleias Municipais. Condicionam e ainda bem. E são, sobretudo, o exercício da liberdade de expressão.

A liberdade de expressão é a lactose da esmagadora maioria dos políticos. São intolerantes a ela. Uma intolerância que se manifesta, sobretudo, quando estão no poder. Eu não conheço o Luís Tarroso de lado nenhum mas, se ele não se importa, deixo-lhe aqui uma saudação especial e um pedido: Não te cales. E se estás a ser censurado, é bom sinal. Significa que estás a fazer o que é correcto.

Comments

  1. Filipe Bastos says:

    Ah, o mega-corrupto Mesquita. Só mesmo em Portugal, este país geograficamente europeu, pulhiticamente sul-americano, ele podia continuar à solta. Uma vergonha do tamanho do Minho.

    Concordo com o Sá, as coisas são assim. Muitos eleitos sentem-se… eleitos, não no sentido corriqueiro e temporário duma partidocracia, mas no sentido predestinado do termo.

    O popó com motorista, os lambe-botas e yes-men, o poder, o tacho e o penacho vão-lhes inculcando essa convicção no bestunto; com ela vêm a confiança da impunidade e a paranóia de serem criticados. Quanto mais anos no poleiro pior.

    Sendo justo, a tal bolha não existe só na classe pulhítica: muitas empresas e pessoas raramente vão além da sua. Nos jornalistas, ‘activistas’ e comentadeiros é a norma; vivem em circuito fechado nos artigos, twitters e facebooks uns dos outros.

    A liberdade de expressão é essencial, mas não chega. Os políticos devem ter medo. Medo da cadeia, medo de gastar a massa roubada, medo de apanhar, medo de sair à rua.

    • POIS! says:

      Pois pois!

      As FB27 em ação. O terrorismo de sofá volta a atacar!

      Não sabe é ainda para onde se há-de virar e por isso continua em reflexão profunda.

      Assim, tipo, vão batendo que eu já lá vou a ter.

    • Filipe Bastos says:

      Essa atitude não ajuda, POIS.

      Estes pulhas só se safam pela apatia, por falta de tempo e pelo receio dos cidadãos: receio pelo seu trabalho, pela sua família, pela vida que têm. E por isso eles ficam impunes.

      Temos de ultrapassar isso. Imagine que em vez da alienação da bola, uns milhares de pessoas de norte a sul se juntavam para vigiar e malhar na classe pulhítica, e em todos que nela mamam: nas autarquias, nos subsídios, nos favores.

      Quantas casinhas e popós de luxo graças a tal mama? Era name and shame, era denunciar e malhar. Fazem queixa? Arranja-se álibis, paga-se custas judiciais. Aprendamos com os trafulhas e mamões; eles protegem-se, nós também.

      Parece-lhe pouco? Desengane-se: nenhuma outra mudança política ou social faria tanta diferença em Portugal. Nada, absolutamente nada faz tanta falta como isto.

      É malhar, POIS. Malhar, malhar, malhar.

      • POIS! says:

        Pois tá bem!

        Mas o que V. Exa. faz é não distinguir minimamente a quem se refere. Seja coerente: quais são os indivíduos a que se refere? Sim, faça uma lista! V. Exa. é um iluminado, tem o dever de orientar “a carneirada”!

        “Os políticos” é uma expressão muito vaga. Dissesse isso na Bielorrússia e aconteceria uma de duas coisas: ou V. Exa. era “malhado” ou far-lhe-iam a vontade e quem era malhado eram os políticos contrários á ditadura.

        Tal como o Mamadou que tanto o incomoda e que disse, no limite, o mesmo que V. Exa está a dizer, ia com bilhete só de ida.

        Sim, Sr. Bastos: é pelos motivos segundo os quais diz que descrê na justiça, aquela que acusa de estar ao serviço “dos políticos” para os safar, que V. Exa. passa impune nestas suas incitaçõezinhas à violência indiscriminada. Ou nas sua constante reprodução de acusações sem provas. Funcionasse a justiça e outro galo cantaria.

        E pode crer que o dia em que “os políticos” tiverem medo de sair à rua V. Exa. estará numa situação bem pior que a atual. Aos mafiosos, tanto lhes faz, têm segurança e não se assustam facilmente. Os que não o forem, e há muitos, V. Exa. é que insiste em colocar tudo no mesmo saco, esses ficam em casa.

        Tenho de lhe lembrar o que aconteceu lá pelas Alemanhas. Qualquer “jovem hitleriano” defendia o mesmo que V. Exa. repete continuamente: temos que “meter medo” “aos políticos”. E meteram! Oh, se meteram!

        E já agora, a propósito de “malhar”: não se esqueça que colocou aqui há dias uns comentários preconceituosos sobre as pessoas do Porto. Talvez alguém se incomode e resolva dizer que há que “meter medo” aos lisboetas…Assustá-los, “malhar, malhar, malhar” Cada um incomoda-se com…o que o incomoda…

      • Filipe Bastos says:

        A quem me refiro? Violência indiscriminada? POIS, as suas respostas são curiosas: acusa-me de um crime, e ao mesmo tempo censura-me por ser ineficaz nesse crime.

        ‘Incrimine-se, Sr. Bastos! Seja concreto no seu incitamento à violência contra a classe no poder.’

        Até seguranças de mafiosos, até torcionários têm família e vida privada, POIS. Mesmo numa ditadura, os ditadores só se safam porque as pessoas não se unem.

        Tal como é fácil propor é fácil recusar: não tenho coragem ou vontade suficiente, logo é má ideia. Não contem comigo. Os Bastos são uns fachos, uns anarcas, uns nazis.

        Fiquemos como estamos. Tenhamos juizinho. E respeitinho. Não mudemos nada. Amochemos. Sejamos bons cidadãos. Tenhamos ‘confiança nas instituições’.

        O resultado está à vista, POIS. Mas tenhamos fé: passou ainda pouco tempo. Vamos esperar outros 45 anos.

        • Paulo Marques says:

          Epá, afinal é só unirem-se! Vou avisar Xinjiang, Taiwan e Burma que afinal são é preguiçosos.

        • POIS! says:

          Pois tá bem!

          Quando uma coisa começa eu quero saber para onde vai. Tão simples como isso. Comece a simplesmente “malhar nos políticos” e, quando se virar para o lado, vai ver os legionários do Venturoso do seu lado.

          Viu o que se passou com as “primaveras árabes”?

          “Amochado” anda V. Exa. há muito. A olhar para as árvores “chulecas” e a não perceber nada da floresta.

          45 anos…de onde vem esse número “arredondado”? Olhe, Sr Bastos, se V. Exa. viver mais 45 anos agradeça-o ao Serviço nacional de Saúde, que não saiu do nada, foi uma opção política.

          Contra a vontade de muitos. E imposta pelos que viveram a “ditadura soft”, como V. Exa. lhe chamou

        • Filipe Bastos says:

          Pois 45 é o nº de anos – arredondado – da bandalheira abrileira que tanto o satisfaz. Vamos em 45 anos de saque, de partidocracia mafiosa e impune.

          Entendo a resistência. Deve pertencer à geração que fez esta bela merda, ou que assistiu à sua lenta e ruinosa construção. E agora uns mal-agradecidos põem tudo em causa. É como dizerem-nos que o nosso tempo passou; que aquilo a que demos valor não presta para nada; que temos de partir e reconstruir tudo; que estamos errados e que temos de mudar. Ninguém gosta disso.

          Um meu velho conhecido, que tem o blog Irritado, tem convicções diferentes das suas (é monárquico, direitista e conservador), mas reage exactamente da mesma forma. Não é só ideológico; parece sobretudo geracional.

          • POIS! says:

            Pois pois!

            As “gerações” explicam tudo!

            Brilhante, Sr. Bastos! Continue que vai longe. A “geração” é um verdadeiro sortilégio! Não é necessário mais nada. Basta pertencer a uma, áquela que V. Divina Excelência invente e está tudo dito!

            Assim se faz um “cientista político”.

            Se isto é uma bandalheira devia ter conhecido a outra.

    • Paulo Marques says:

      Só mesmo em Portugal! Londres e Nova Iorque são portuguesas, só o Costa é que não sabe.

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