“Enquanto há Moedas, há amigos”: a noite eleitoral onde todos ganham e ninguém perde

A vitória de Carlos Moedas em Lisboa, apoiado por uma coligação com pelo menos uma mão cheia de partidos, teve um condão: o de fazer esquecer o PSD da estrondosa derrota autárquica que teve.

Se hoje lermos o que dizem militantes e simpatizantes do PSD, parece-nos (e confunde-nos) que o partido foi o grande vencedor da noite eleitoral. Não foi; está no lote dos 3 maiores derrotados, ao lado da CDU e do meu BE.

Em sentido contrário, pelo que lemos e vemos, parece que o PS foi o maior derrotado, quando, analisados os resultados, pode até ter saído reforçado destas eleições. Sim, a CM de Lisboa é a maior Câmara do país; mas não é a única, e tampouco é mais do que qualquer outra. No geral, podemos dizer, apesar dos resultados do BE e da CDU, que a esquerda ganhou as eleições, à boleia do PS (o que se pode repercutir nas próximas legislativas). A direita, por seu turno, teve vitórias residuais (PSD em Lisboa, Coimbra ou Funchal, por exemplo) e, no restante, foi à boleia do Chega (este último que consegue índices interessantes de votação em territórios onde grassa mais pobreza e falta de alfabetização).

Aliás, como já li por aí: Moedas não ganhou. Foi Medina quem perdeu. E perdeu estrondosamente, como alguém já não perdia há algum tempo. Foi penalizado pela sua arrogância e prepotência, pela falta de humildade ao não saber estar perto da sua população e pela ilusão de que bastava agarrar-se à bóia (leia-se, à estrutura partidária) para se ver a salvo. Agora, não só deixa a CM, como deixa uma pesada herança ao seu sucessor: é que o PSD elege o presidente da CM mas tem minoria em relação à esquerda; se do PCP se podem esperar acordos pontuais, do BE pouco pode esperar o PSD.

Em resumo, vence, mais uma vez, o PS (e a oposição tem sido sempre tão fraca que tão cedo não se vislumbra uma mudança de paradigma). Perde o PSD, apesar de vitórias residuais. CDU e BE são, com muita pena minha, os maiores derrotados da noite eleitoral. Quanto ao CDS, as coligações com o PSD e com o camião-tir carregado de outros partidos, conseguiu escamotear a vergonhosa situação dos centristas, mas é notório que está, cada vez mais, em queda livre (não sei até que ponto não terá de se coligar com o PSD em 2023 para se conseguir manter à tona). O PAN e a IL mostram que não têm capacidade para passar, em legislativas, dos 3/4% de votos (a IL, à boleia de Rui Moreira no Porto, ainda tentou festejar uma vitória que, diga-se, nunca será sua). Quem vence mesmo é o Chega, que se consegue implantar por todo o país, especialmente nas zonas em que os salários são acima da média nacional, onde existem mais índices de criminalidade e no interior do país, onde a pobreza e a falta de escolaridade são óbvias, mostrando que consegue arregimentar votos de ricos e pobres, desde que o ódio às minorias exista.

As ilações, tire-as quem quiser. O circo volta em 2023, certamente com novos trapezistas, equilibristas, palhaços ricos e pobres.

“É muito mais difícil matar um fantasma do que uma realidade.” – Virginia Woolf

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    A derrota do PS em Lisboa e em Coimbra, cidades com um forte simbolismo nacional, apesar do PS ter alcançado quase 150 autarquias, é bem mais problemático do que parece.
    Se é verdade que Moedas só acrescentou 3800 votos aos resultados de 2017, também é verdade que Medina perdeu 25500 eleitores. Também é verdade que o BE não foi o receptor de algum desse descontentamento do eleitorado.
    Estas eleições digam já o que disserem foram um cartão amarelo ao PS. E foram uma derrota de António Costa, mais até do que Medina.
    O PS, apesar dos resultados eleitorais nas legislativas de 2015 e 2019 lhe terem dado apenas uma maioria relativa, é incapaz de enxergar que jamais terá uma maioria absoluta nos próximos tempos, necessitando obrigatoriamente do BE ou do PCP/Verdes para governar.
    Alimentado pelo receio do regresso da direita ao poder por parte do eleitorado, tem gerido o país como se este fosse uma Quinta sua, onde promete e acorda com os parceiros (PCP), o que não cumpre, promove a endogamia, mantém incompetentes no governo apesar dos escândalos.
    O que se passou em Lisboa foi uma espécie de “ensaio sobre a cegueira”, daquilo que pode muito brevemente passar-se a nível nacional.
    Era bom que o PS tivesse algum juízo, coisa que manifestamente não tem manifestado.

  2. jorge paulo sanches da cruz says:

    É a vitoria da decência e da civilidade contra a arrogância, o oportunismo e a boçalidade da xuxaria. Na minha terra perderam pela mesma razão. Depois de 45 anos de incompetência, amiguismo e prepotência o povo fartou-se e deu-lhes uma derrota estrondosa. Para uns ganharem outros têm de perder, como é obvio.

  3. luis barreiro says:

    Este panfleto tenta apagar a estrondosa derrota do bloco de esterco.

    • POIS! says:

      Pois não me diga! O quê?

      As hostes do Venturoso Enviado, afinal, foram derrotadas?

      Até em S. Braz de Alportel o Venturoso Braulio teve 3%!

      Realmente não estive muito atento, mas não contava. Fez falta um chalupa em Lisboa e outro no Porto e outro Venturoso galo cantaria!

    • Paulo Marques says:

      Não sei do que fala. O partido a que se tenta referir não perdeu nenhuma câmara e subiu a votação.


  4. Moedas, um homem sempre pronto a funcionar por quem manda, assim como o companheiro da foto (que está com uma barba de grunho…)


  5. E Coimbra com tantos partidos na coligação, logo tantos interesses, tem um potencial tremendo para ser um saco de gatos…. não estou a ver as pessoas daquela coligação pensarem apenas nos interesses dos munícipes, isso vai contra a cultura dominante na Tugalândia!

    • POIS! says:

      Pois não sei…

      Um caso curioso: a presidência da câmara de Coimbra foi atribuída ao PSD mas, na realidade, o clínico presidente foi proposto pelo…”Nós, Cidadãos”. Não deveria ser esse partido o “vencedor”?

      Na vereação há dois vereadores do “Nós, Cidadãos, Vós Plebe”, três Laranjões um Azulão.

      Em Felgueiras atribuiu-se a presidência ao Livre, e não ao PS, com quem estava coligado. O critério devia ser o mesmo.

      • Tuga says:

        Na União Nacional, dos anos 60, não nesta, quem mandava era o Botas, mas havia por lá muitos Presidentes (Boi Cavalo etc) fantoches

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