A Sinfonia da Morte, de Carlos Loures – I

Aventar inicia hoje a apresentação de vários excertos do livro “A Sinfonia da Morte”, de Carlos Loures. Eis a primeira parte:

 

Uma noite de Verão, na serenidade indestrutível da sua aldeia serrana,  Jorge viu no telejornal as imagens da demolição por implosão do edifício de um grande hotel na Florida. Com a sua idade e com tudo o que lhe fora dado observar durante a sua longa vida, embora amasse muito mais o futuro do que o passado,  as inovações e descobertas científicas, os prodígios tecnológicos,  já quase não o surpreendiam,  por mais fantásticos que se apresentassem. Digamos, estava saturado de prodígios – se visse, por hipótese,  astronautas a pousar na superfície de Marte, não abriria a boca de pasmo. Talvez se limitasse a beber mais um gole de aguardente velha e a puxar uma fumaça ao seu cachimbo de boa madeira de bruyère, a vulgaríssima torga ou urze portuguesa, mas que nas tabacarias insistiam em tratar pela designação francesa. O francesismo da nossa sociedade era, aliás,  uma fatalidade,  dir-se-ia que quase atávica. Como  Eça de Queirós dissera anos antes, o Portugal do século XIX era um país «traduzido do francês em vernáculo».  Na primeira metade do século XX, continuava a sê-lo. Depois, o inglês ganhou terreno e substituiu o francês como língua franca. Mas essa é outra história. Entretanto, a frase de Eça aparecera numa revista do Teatro do Príncipe Real levemente modificada – «Portugal é um país traduzido do francês em calão» – e foi assim, nesta versão mais popular, mais chula, que a frase pegou e passou a ser citada por quase toda a gente,  mesmo até por aqueles que não suspeitavam sequer da existência do autor.

O cachimbo fora  comprado há mais de sessenta anos na «Tabacaria Orge»,  da Rua do Ouro. Ali estabelecera, durante dias,  o seu posto de observação à porta da casa de Margarida, situada no lado poente da rua e, à falta de outros pretextos, fora comprando coisas a esmo, entre as quais diversos cachimbos que, durante muitos anos, apenas serviram de ornamentação à consola da lareira do salão. O hábito de fumar cachimbo era relativamente recente, posterior ao início da Segunda Guerra,  pois começara apenas quando deixara de conseguir facilmente no mercado os únicos cigarros que, não sendo um fumador inveterado, apreciava – os egípcios Abdulla – «Imperial Preference»,  que comprava em belas caixas de folha-de-flandres, ornamentadas e coloridas a verde e a dourado.

Fumar um Abdulla, não era bem um vício, era mais um ritual de comunhão com a imperecível memória de Luciano e com a recordação daqueles dias escaldantes, embora frios, do início de Fevereiro de 1908. Quando começara a usar os cachimbos, mais de trinta anos após os ter comprado,  tivera de lhes queimar devidamente os fornilhos, incendiando rum de boa qualidade no seu interior, como mandavam as regras. As boquilhas não serviam já, pois,  ou tinham-se dilatado e estavam demasiado apertadas ou, pelo contrário, haviam-se contraído e  caíam dos fornilhos,  e, deste modo, por uma razão ou por outra,  tiveram de ser todas substituídas.

Voltando à notícia da televisão. O que causara algum impacto no seu espírito fora que, ao descrever a demolição do grande edifício, o comentador tivesse utilizado aquele termo, implosão, numa acepção substantiva pertencente ao foro da Engenharia, ou, talvez  mais propriamente, ao da Física. Era um conceito novo para ele. Embora a sua formação académica fosse de raiz jurídica, as questões linguísticas sempre lhe tinham interessado muito.  Conhecia, sim, a palavra  como substantivo, mas da área específica da fonética e da fonologia. Era assim que o seu velho Morais e outros  bons dicionários o registavam – como sendo uma fase da articulação de uma consoante oclusiva, anterior à tensão, durante a qual os órgãos fonadores assumem a posição para o fechamento de que resulta a oclusão. Nesta nova acepção devia provir,  por certo, de uma americanice. Mais uma das muitas que tínhamos de suportar, pensou.  Por isso, procurou num dicionário de inglês, um Webster’s, e, os resultados foram nulos – implosion era também ali palavra afectada à área da fonética. Porém não desistiu e num dicionário enciclopédico ilustrado, de edição portuguesa muito recente que comprara sobretudo em intenção dos bisnetos, acabou por descobrir o significado que procurava – «fenómeno físico através do qual um meio sólido ou um corpo oco, submetido a uma pressão externa superior à sua resistência mecânica é esmagado violentamente e tende a concentrar-se num volume reduzido». Aí estava a resposta para o que vira no ecrã: um ruído seco e surdo e o que fora um grande e luxuoso hotel, sumira-se, como se o filme da sua construção estivesse a ser projectado de trás para diante, numa nuvem de fumo. Quando o fumo se dissipou, a imagem mostrava um concentrado monte de escombros,  reduzido face à enorme dimensão que o edifício tivera segundos antes.

Matutando em tudo o que vira acontecer ao longo da sua vida, concluiu que em Portugal, mais do que revoluções, tinham ocorrido implosões. Não ia ao ponto de afirmar que o domínio leonês, pressionado pela nobreza nativa que rodeava Afonso Henriques, implodira; nem que o mesmo acontecera às dinastias afonsina e de Avis, ou ao domínio castelhano sacudido em 1640. Era velho, mas não tanto que pudesse afirmar que o desaparecimento dos dinossáurios se devera a um fenómeno de implosão. Apenas passava agora em revista aquilo a que assistira desde que, quase setenta anos atrás, recém-formado em Direito, viera a Lisboa tratar de assuntos do pai, munido de procurações, atestados, de mil e uma recomendações da mãe, do pai e, sobretudo, das pícaras sugestões do seu primo Luciano. Pudera observar como o constitucionalismo monárquico, a ditadura franquista, a dinastia dos Braganças, a primeira República e agora a ditadura criada por Salazar e o domínio colonial tinham caído. Por implosão. Falta de resistência à pressão externa. Tal como o grande edifício do hotel de Miami, que sugado internamente quase desapareceu numa nuvem de pó. Também agora, quase sem tiros, um regime que durara meio século implodira e desaparecera numa nuvem de poeira, pairando no ar como um fantasma. Talvez também acontecesse assim noutros lugares. Em Portugal, pelo menos ultimamente,  as dinastias, os regimes, as ditaduras, implodiam. Oxalá não acontecesse agora o mesmo à democracia pela qual esperara tantos anos. Oxalá não se sumisse numa nuvem de preceitos constitucionais, de oratórias vazias, de «incontornáveis» alinhamentos internacionais… Oxalá os cravos, a onda fraterna que inundara as ruas e as praças do País não implodissem também.

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