A Sinfonia da Morte, de Carlos Loures

Aventar continua hoje a apresentação de vários excertos do livro “A Sinfonia da Morte”, de Carlos Loures. Eis a segunda parte:

Agora, parado nos degraus da estação do Rossio, Jorge, um pouco aturdido e indeciso, cismando sobre o caminho a tomar enquanto contemplava a limitada nesga do Rossio que lhe era dado ver, lembrou-se da metáfora das inocentes carpas e do sinistro congro invocada por Luciano na tal agradável tarde do Outono anterior. Tentou apreciar através dos olhos críticos e cinicamente irónicos do primo o fervilhar daquele formigueiro de gente que, com gestos precisos, como se soubesse  exactamente para onde ia, atravessava a praça, o entardecer e a vida em todas as direcções. Gente, trens, carruagens, faetontes, anacrónicas caleches, tipóias de praça, pesados e chiantes eléctricos amarelos, um ou outro, muito raro, e buzinante automóvel, na desordem supostamente ordenada do fim da tarde daquela sexta-feira invernal.

A viagem fora longa e incómoda, estava ainda com as pernas entorpecidas pelas muitas horas em que estivera sentado no compartimento.  Saído de Celorico da Beira de madrugada, mudara de comboio na Pampilhosa, tomando depois o «rápido» que vinha do Porto para Lisboa através da linha principal. Monotonamente, as estações sucediam-se, Alfarelos, Soure, Pombal, Lamarosa, Entroncamento…  Como se, por qualquer prodígio divino ou tecnológico, se deslocassem meteroricamente à frente do comboio, as mulheres que vendiam água em bilhas, frutas ou bolos, pareciam ser sempre as mesmas em todas as paragens, percorrendo lentamente as plataformas e apregoando as suas mercadorias com gritos estridentes.  No Entroncamento tivera tempo suficiente para descer, beber um café e comprar alguns  dos jornais do dia, todos eles enxameados de preocupantes notícias, como, aliás, passara a ser normal nos últimos tempos.

Olhou o céu donde, por entre as nuvens, desciam agora as primeiras sombras da tarde. Havia um ar frio e um vento que, encaminhado pelas ruas Augusta e do Ouro, vinha desde o Tejo fazer que os repuxos dos lagos salpicassem com gotas de água os apressados transeúntes. Felizmente não chovia nesta altura, embora o empedrado da praça estivesse ainda molhado de um aguaceiro recente. Este vento e os salpicos de água, bem como talvez as chuvadas breves, mas fortes, tinham enxotado dos bancos de pedra, agora encharcados, que rodeavam a placa ornada, com ondas alternadas pretas e brancas de calcário e basalto, os seus habituais clientes, pedintes, velhos reformados, poetas desocupados, uma ou outra prostituta, velhotas que traziam milho para os bandos de pombos que enxameavam a praça…

Um homem corpulento, com grandes bigodes, com uma chapa metálica no boné de pala rígida e envernizada, vestindo uma pesada samarra, leu, sob o seu sorriso evocador das palavras do primo Luciano, algum acanhamento provinciano, que não, evidentemente, as interrogações filosóficas, e ofereceu-lhe, num galego-português não muito diferente do acento beirão a que Jorge estava habituado, os serviços de um hotel, o «Americano» logo ali, junto à estação, na Rua do Príncipe, ao lado da «Brasserie Príncipe». Recusou distraidamente com um sorriso ao mesmo tempo que agarrava com firmeza a  mala de viagem a que o galego procurava a todo o transe deitar a mão, na sua ânsia de apresentar serviço. Desceu os escassos degraus e, atravessando o Largo Camões, entrou no «Café Gelo» pela porta da Rua do Príncipe. A propósito do Largo Camões, refira-se que na toponímia lisboeta abundavam as referências camonianas, sobretudo desde 1880, ano em que se tinha comemorado  o tricentenário da morte do poeta.  Além de uma rua Luís de Camões, uma dos Lusíadas e outra rua Jau, todas em Santo Amaro,  Alcântara, havia ainda o mencionado largo, junto da estação do Rossio e a Praça Camões, onde, no cimo da Rua Garrett, em 1867, fora inaugurado o monumento ao vate, da autoria do escultor Vítor Bastos.

Circunvagou o olhar pela horda pardacenta de funcionários públicos, militares, estudantes, ociosos, burgueses na sua maioria: colarinhos engomados e engravatados,  paletós e sobretudos escuros, impermeáveis cinzentos,  coloridos aqui e além por algum casaco alvadio e pelos capotes e dólmanes  azuis, de golas vermelhas e botões dourados, de um ou outro oficial. Sentou-se numa mesa junto da janela, pousando a grande mala de cabedal no chão,  junto de si. Na mesa ao lado, um rapaz de cabelo cortado curto,  bigode alourado, grandes olhos castanhos, com uma expressão séria e triste, ainda jovem, com talvez um pouco menos de trinta anos, dissertava acaloradamente sobre o caos orçamental, sobre os escândalos dos tabacos e dos adiantamentos à casa real. Os companheiros, outros três, também jovens, embora menos, assentiam grave e distraidamente, como se escutassem uma litania por todos sabida de cor. Em  quase todas as mesas se discutia política.

A suspensão pelo Governo de cinco jornais, a grande vaga de prisões, incluindo as dos chefes republicanos e a do líder monárquico dissidente,  a  ida do ministro  da Justiça, a Vila Viçosa com o decreto do presidente do Conselho, João Franco, que iria permitir o desterro dos políticos da oposição para as Colónias, e as múltiplas especulações sobre a decisão que o rei iria tomar (assinaria, não assinaria?), os violentos confrontos armados entre a polícia e grupos de populares da terça-feira anterior, eram os principais temas da generalidade das conversas. Parecia haver fortes descargas eléctricas no ar que ali se respirava, uma atmosfera densa, quase palpável,  olorosa a roupas molhadas pela chuva, a tabaco, a cerveja, a café.

Jorge recordou os receios e as ânsias de sua mãe, que temia que ele corresse algum perigo no ambiente, agora já não apenas boémio e dissoluto, como também tumultuosa e perigosamente revolucionário, da capital. Embora a situação vista da Aveleira-de-Cima e descrita na linguagem seca do telégrafo ou no estilo empolado dos jornais parecesse ainda mais catastrófica, sob a aparência de normalidade, de um dia igual a todos os outros, respirava-se em Lisboa, realmente, um carregado e denso clima de tensão. Na mesa ao lado, o jovem louro e magro vociferava agora, com um perceptível acento alentejano, contra a família real, a «cambada», como ele se lhe referia, mas sobretudo contra o chefe do gabinete de ditadura, o alvo principal de todos os ódios e paixões que percorriam o país de ponta a ponta: João Franco.

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