Falando de Democracia: Cultura e televisão

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Estes dois substantivos têm vindo a distanciar-se, como se pertencessem a idiomas diferentes. Cultura e televisão, será que ainda têm alguma coisa em comum? No começo da década de 90, Marlon Brando dizia numa entrevista que já não faltaria muito para que algum «génio criativo» se lembrasse de, num reality show, pôr pessoas a defecar perante as câmaras. Numa roda de amigos comentou-se esta profecia do grande actor e, embora reconhecendo que a qualidade da televisão generalista baixava de ano para ano, pareceu-nos exagerada. Não havia ainda aqui a moda dos reality shows. Quando a inefável TVI lançou o Big Brother, alguns dos mesmos amigos recordaram a entrevista de Brando e começaram a perceber onde ele queria chegar. O nível cultural dos participantes era tão básico, o léxico e o universo conceptual utilizados tão rasteiros, que não exigia grande esforço imaginar qualquer deles a concretizar perante as câmaras a profecia de Marlon, caso tal lhes fosse pedido pela «realização». (Conversando com Mr. Hugh House, director do departamento de cursos de inglês da BBC, queixava-me da má qualidade dos programas televisivos em Portugal. Resposta: – Então você não sabe que a função da televisão é ser de má qualidade?).

Falando dos programas actuais, alegou-se como desculpa a falta de cultura dos portugueses, o baixo índice médio de escolaridade. Alguém disse – «Mas o conceito do Big Brother não é português». E outro recordou – «Há trinta anos, com um índice de escolaridade mais baixo, as ruas das cidades ficavam desertas nas segundas-feiras à noite, pois estava quase toda a gente a ver o Zip-Zip, um programa que, apesar do bom nível do conteúdo era apreciado por uma larga faixa da população. Hoje em dia, as audiências aumentam na razão directa do número de telenovelas que um canal apresenta. Se às telenovelas, geralmente más, se somarem os tais reality shows e uns concursos idiotas, os índices de audiência sobem em flecha. A televisão generalista percorre uma espiral descendente – os canais na sua fúria de competirem na guerra das audiências, procuram colocar-se ao nível da incultura geral e, nesse esforço de «chegar às massas», com telenovelas tontas, talk shows inqualificáveis, concursos de pseudo cultura-geral, contribuem para o défice cultural dos telespectadores que terão tendência cada vez a preferir programações mais pobres. É sempre a descer.

Sobre este tema, encontramos palavras esclarecedoras num pequeno livro de Karl Popper, um grande filósofo britânico de origem austríaca (1902-1994) – Televisão Um Perigo Para a Democracia: "Por ocasião de uma conferência que dei há alguns anos na Alemanha tive o ensejo de conhecer o responsável de uma cadeia (de TV) que se deslocara para me ouvir juntamente com alguns colaboradores. (…) . Durante a nossa discussão fez afirmações inauditas, que se lhe afiguravam naturalmente indiscutíveis. «Devemos oferecer às pessoas o que elas esperam», afirmava, por exemplo, como se fosse possível saber o que as pessoas pretendem recorrendo simplesmente aos índices de audiência. Tudo o que é possível recolher, eventualmente, são indicações sobre as preferências dos telespectadores face aos programas que lhes são oferecidos. Esses números não nos dizem o que devemos ou podemos propor, e esse director de cadeia também não podia saber que escolhas fariam os telespectadores perante outras propostas. De facto, ele estava convencido de que a escolha só seria possível no quadro do que era oferecido e não perspectivava qualquer alternativa. Tivemos uma discussão realmente incrível. A sua posição afigurava- se-lhe conforme aos «princípios da democracia» e pensava dever seguir a única direcção compreensível para ele, a que considerava «a mais popular». Ora, em democracia nada justifica a tese deste director de cadeia (de TV), para quem o facto de apresentar programas cada vez mais medíocres corresponde aos princípios da democracia porque é o que as pessoas esperam. Nessas circunstâncias, só nos resta ir para o inferno!» Um inferno ao qual vamos descendo, abandonando toda a esperança, como preconizava Dante, sempre que accionamos o comando. Um inferno onde vale meter todo o lixo. Já para não falar nas manipulações…

Vem isto a propósito da entrevista de Manuela Moura Guedes ao bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto, no dia 22 de Maio de 2009, no chamado «Jornal Nacional» da TVI. No seu habitual estilo truculento, o bastonário disse à pivô verdades duras como punhos, daquelas que muito raramente se escutam em televisão. Pode aceder-se a parte da entrevista em http://www.youtube.com/watch?v=5K_F53MXVrc – Aconselha-se vivamente.

De facto, a «informação» que naquela estação (e não só) se pratica deixa muito a desejar, misturando-se de maneira avulsa, opiniões com factos e não se fazendo a destrinça do que é uma e outra coisa. Isto, como muito bem disse Marinho Pinto não é jornalismo, mas sim «julgamentos sumários disfarçados de jornalismo». A televisão tem este poder de eliminar factos e de criar factos, de manipular a realidade e de a apresentar conforme melhor for servida a necrofagia e o sensacionalismo que parecem ter tomado conta do jornalismo em geral e, por outro, os interesses, políticos, económicos, dos grupos a que o canal seja afecto. «É uma vergonha», estou inteiramente de acordo com Marinho Pinto. Sobre o poder da televisão, dizia Karl Popper na sua obra já citada, que, nos nossos dias a, a televisão assumiu um poder colossal, potencialmente o maior de todos, «como se tivesse substituído a voz de Deus». Afirma ainda que em democracia não pode haver poderes incontrolados, pois a essência da democracia consiste precisamente em submeter o poder político a um controlo. O poder da televisão constitui, pois, um grave perigo para a democracia e esse perigo agudizar-se-á se não conseguirmos pôr cobro aos abusos dos canais televisivos – «Nenhuma democracia pode sobreviver se não controlarmos esta omnipotência», dizendo ainda: «A democracia, como expliquei algures, não é mais do que um sistema de protecção contra a ditadura, e nada no seio da democracia proíbe as pessoas mais instruídas de comunicarem o seu saber às que o são menos. Pelo contrário, a democracia sempre procurou elevar o nível de educação; é essa a sua autêntica aspiração. As ideias deste director de cadeia (de TV) não correspondem em nada ao espírito democrático, que sempre foi o de oferecer a todos as melhores oportunidades. Inversamente, os seus princípios conduzem a propor aos telespectadores emissões cada vez piores, que o público aceita desde que se lhes acrescente violência, sexo e sensacionalismo".

Não sei se Popper tem razão quando diz que a democracia «não é mais do que um sistema de protecção contra a ditadura». Esta definição parece-me redutora. Mas isso seria entrar numa outra discussão. Quanto a mim, Popper tem toda a razão quando nos alerta para os perigos de um meio que, tendo o poder de substituir a informação pela manipulação, pode destruir a democracia, instaurando em seu nome a ditadura dos media, por sua vez instrumentali
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dos por interesses políticos e económicos que nada têm de democrático. Os governantes, os actuais e os anteriores, só se preocupam com as manipulações quando elas os atingem, como fez Sócrates na entrevista de 21 de Abril, na RTP, concedida a José Alberto Carvalho e Judite de Sousa, em que denunciou o mesmo Jornal Nacional da TVI e aquilo que naquele canal passa por ser um serviço informativo, dizendo que o que ali se faz não é jornalismo, mas sim «caça ao homem» e que se trata de um «telejornal travestido». Isto, porque foi atacado a propósito do caso Freeport. E quando, ali e noutros espaços «informativos», outras pessoas, a verdade e a Democracia são atacados?

Todos sabemos que nenhum governo da «democracia» que temos, exercerá uma acção pedagógica, profilática e terapêutica sobre os órgãos de informação. Não estou a falar de censura política, de repressão ou de limitações impostas à liberdade de imprensa (como em resposta a Sócrates o director da TVI, vitimizando-se, se apressou a vir denunciar o que lhe parecia subjacente às palavras do primeiro-ministro). Estou a falar do inverso: a comunicação social não se transforme ela mesma num odioso instrumento de repressão. O que começa a acontecer. A liberdade de imprensa exige por parte dos profissionais um grande sentido de responsabilidade, o que raramente se verifica. Estou a falar de um cotejo sistemático e permanente entre o código deontológico que rege a profissão de jornalista e a prática exercida pelos respectivos profissionais. Nunca esquecendo que, a maior parte das vezes, muito bons jornalistas, submetidos a direcções ligadas a grupos político-económicos e não só, são obrigados a escolher entre a honestidade e o emprego, entre o pão e a verdade. Para se extirpar este tumor que não cessa de aumentar, tem de se ir bem fundo na incisão e não ficar pela solução fácil de punir ou diabolizar as «mouras guedes» que mais não são do que as pontas visíveis e emergentes de gigantescos icebergues submersos.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Pois, Carlos, a ideia que é transmitida é que não há alternativa. Ora, creio, que essa ideia de que não há alternativa, é profundamente antidemocrática!


  2. Eu por mim nem precisavam de me pedir que defecasse sobre os autores destes programas de reality shows, e sobre os yuppies de gravata armados em sérios dominadores do país e em cima de alguns governantes..quando quiserem é só dizer!

  3. Isac says:

    "Para se extirpar este tumor que não cessa de aumentar, tem de se ir bem fundo na incisão e não ficar pela solução fácil de punir ou diabolizar as «mouras guedes» que mais não são do que as pontas visíveis e emergentes de gigantescos icebergues submersos." – presumo que estes icebergues sejam os interesses corporativos, que se movem sem olhar a meios, apenas numa direcção: rumo ao lucro. Perdão, dar aos consumidores o que eles querem. Não aprecio o funcionamento imperialista da América, mas têm uma vantagem em relação a todo o mundo: estão à frente no tempo. E sempre que existe um problema é só procurar na América porque eles já passaram por isso. Neste aspecto, há um filme relativamente desconhecido chamado "Network" (http://www.imdb.com/title/tt0074958/) (http://www.imdb.com/title/tt0074958/)) do Sidney Lumet que mostra bem a realidade televisiva por dentro. Não sei se já estaremos no ponto do filme, mas é fácil de perceber que, como fenómeno imparável que é, a televisão portuguesa caminhará nesse sentido.

  4. dalby says:

    it’s just scaring..

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