Falando de democracia: Um eléctrico chamado socialismo (I)

Socialismo? Façamos no nosso tranvia de palavras construído, uma breve viagem pelo termo. É um vocábulo sobre o qual se podem escrever (e têm escrito) milhares de páginas, teses e tratados com numerosos volumes. Vamos tentar brevíssimas definições de dicionário – Peguei em dois, no de José Pedro Machado e no de Antônio Houaiss. O primeiro é muito sucinto: «substantivo masculino. Sistema daqueles que querem transformar a sociedade pela incorporação dos meios de produção na comunidade» (…) «pela repartição, entre todos, do trabalho comum e dos objectos de consumo». A definição de Houaiss é muito mais extensa, por isso vou ficar-me pela primeira acepção – «conjunto de doutrinas de fundo humanitário que visam reformar a sociedade capitalista para diminuir um pouco das suas desigualdades». A definição de José Pedro Machado reflecte mais a matriz marxista do termo e o seu longevo lugar na genealogia do socialismo utópico, enquanto a de Houaiss (aquela que eu perversamente escolhi), se aproxima mais da realidade, da praxis dos partidos socialistas actuais – gosto sobretudo da expressão «doutrinas de fundo humanitário», porque me faz lembrar as senhoras da Caritas a distribuir latas de leite condensado pelos pobrezinhos.
Nestas crónicas, a «memória das palavras», como diria o José Gomes Ferreira, assume papel relevante. Revisitando mais uma vez o passado, volto às «Questões e Alternativas», revista de que já vos falei. Publiquei no seu primeiro número, de Março de 1984, um artigo com o mesmo título que escolhi para a presente crónica. Naquela primeira metade da década de 80, a avançada socialista na Europa era impressionante: em 1981, François Miterrand vencia as eleições em França; Em 1983, Andreas Papandreu, Felipe González e Mário Soares ganhavam também as eleições nos seus países. Em Itália, o Partido Socialista Italiano ganhava posições. No que se refere a França, enquanto a União Soviética manifestava preocupação pela derrota de Giscard d’Estaing, Reagan endereçava calorosas felicitações a Miterrand… Nestes 25 anos decorridos, o eléctrico chamado socialismo, qual metro de superfície, percorreu rapidamente alguma da distância que ainda lhe faltava para se assumir como força do centro-direita e como campeão do neo-liberalismo económico. Os socialistas ficam sempre muito irritados quando os acusamos de, com o PSD, terem tecido uma sólida teia de interesses. Há pessoas que, quer o seu partido esteja no Governo ou na Oposição, têm os interesses, os cargos garantidos (os «tachos», como diz, simplificando, o nosso bom povo). Mas será isto uma calúnia?
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Há dias recebi por e-mail uma mensagem muito interessante escrita pelo professor José Ricardo Costa. «A Idade das Trevas», foi o título dado. Com a devida vénia, transcrevo alguns excertos, resumindo o restante. Diz ele que ao ajudar o filho a preparar um teste de História e ao estudar a Idade Média, em que «a nobreza vivia fechada sobre si própria», usufruindo dos privilégios que criava, recordou que os nobres «relacionavam-se entre si, casavam-se entre si, frequentavam os mesmos castelos, participavam nas mesmas festas e banquetes». E José Ricardo Costa chega à conclusão, curiosa no mínimo, de que em Portugal, há décadas dominado pelo PS e pelo PSD, se verifica uma feudalização da sociedade, bem como uma organização cada vez mais endogâmica. E passa a explicar que um bom exemplo dessa endogamia «é o casamento entre a filha de Dias Loureiro, amigo íntimo de Jorge Coelho, e o filho de Ferro Rodrigues, amigo íntimo de Paulo Pedroso, irmão do advogado que realizou a estúpida investigação para o Ministério da Educação e amigo de Edite Estrela que é prima direita de António José Morais, o professor de José Sócrates na Independente, cuja biografia foi apresentada por Dias Loureiro, e que foi assessor de Armando Vara, licenciado pela Independente, administrador da Caixa Geral de Depósitos e do BCP, que é amigo íntimo de José Sócrates, líder do partido a que está ligada a magistrada Cândida Almeida, directora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal, que está a investigar o caso Freeport, caso onde se tem evidenciado um presidente da Eurojust de seu nome Lopes Mota que, por um acaso da vida, auxiliou essa indefectível democrata e defensora do poder local chamada Fátima Felgueiras. Felizmente que este país tem como ministro da Justiça um Alberto Costa que, a não se aquela questão das pressões sobre um juiz em Macau, há cerca de 20 anos, pouco ou nada tem feito.» (…) «Talvez isto ajude a explicar o que se passa com a Justiça, a Economia, a Educação» …(e eu acrescento e com a Saúde, e com a Cultura, etc.). José Ricardo Costa termina perguntando «se haverá gente em Portugal a beneficiar com a degradação da escola pública?» Uma pergunta retórica, claro. Perante esta densa teia de «coincidências», só me lembro do «lugar-comum» inventado pelo excelente poeta e jornalista que era Eduardo Guerra Carneiro – «isto anda tudo ligado».
(continua)

Comments

  1. maria monteiro says:

    “isto anda tudo ligado” e abençoado…

  2. luis Moreira says:

    É o que faz 11 anos no poder nos últimos 14. Renovar, alternar é fundamental e é uma das grandes vantagens das democracia. Esta gente está há demasiado tempo no poder e as tentações são muitas.Os que vão para lá levam algum tenpo a organizar a rede.

  3. carlos fonseca says:

    Se me é permitida a preferência, eu opto pela ‘densa teia de coincidências’. Que densidade e que coincidências!

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