Dia Um, Ano Primeiro

Aqui posto de comando
Do movimento das Forças Armadas

De súbito, a manhã ficou mais clara:
uma ave luminosa invadira o tempo,
rasgando com as asas a cortina brumosa,
a toalha de pus, a cirrose do medo.
De repente, tudo assumiu outro sentido
na poalha dourada da luz amanhecente
com os soldados, os tanques, os comunicados,
com as espingardas floridas e com a gente.
O silêncio derramou das suas feridas
um rio de fogo que destruiu as mordaças
e um grito colectivo de raiva e esperança
inundou as ruas, as praças e as avenidas.
Um hálito de futuro as percorreu;
uma inscrição floresceu vitoriosa
sobre a pedra musgosa de um velho muro
como um murro nos dentes da opressão.
A criminosa apatia que por tantos anos
nos enevoara o gesto e sufocara a voz
esfumava-se na rosa evanescente da alvorada
e surgia agora transformada em canção.

Um mundo de intermináveis corredores,
de cárceres, de tortura, exílio e morte
diluía-se no ácido subtil desta alegria,
que ocupara a cidade, o país e todos nós.
Pela noite, enquanto quase todos dormiam
eclodira a soleira, o limiar de um novo tempo:
o assassínio, a fome e a ignorância
pareciam já só uma recordação pungente.
Os milhões de cérebros violentados
por décadas de estupidez e crueldade
pareciam ser produto da nossa imaginação
ou ter existido apenas num pesadelo atroz.
Adormecêramos velhos, ciciantes e derrotados,
acordávamos jovens, iluminados e vitoriosos
e isso deixava-nos atónitos e boquiabertos,
cegados pela luz feroz da liberdade.
Falo do instante, do momento feito de horas
em que o tempo se suspendeu solene
enquanto se esvaía a noite da repressão
e a manhã clara nascia, incandescente.

Não falo do tempo em que, hesitantes,
procurávamos a bússola, o sextante, a vela
para navegar Abril, para sulcar o oceano
que o coração do povo abria generoso à Revolução.
Falo, sim, do momento em que o chacal
se escondeu, amedrontado, no fundo do covil,
espiando-nos a esperança, sonhando anoitecê-la
em setembros e marços de ódio e de vingança.
(Nas nossas mãos espreitavam já talvez
as garras de dilacerar revoluções e matar sonhos,
dentro de muitos de nós despontavam sementes
de outras novas e cinzentas servidões).
A luz atravessou o prisma de cristal da vida
e explodiu em mil cintilações de cor
perfumando o pulmão dos velhos medos
com um seta de amor, um estilhaço de sol…
Desse momento falo, do instante breve e puro
em que o Paraíso pareceu estar à mão dos nossos dedos;
não, não é do passado que vos falo – juro,
pois foi no futuro que Abril aconteceu.

(Do livro O Cárcere e o Prado Luminoso)

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