A Sinfonia da Morte, de Carlos Loures

Aventar continua hoje a apresentação de vários excertos do livro “A Sinfonia da Morte”, de Carlos Loures. Eis a sexta e última parte:

Chegaram, no final do corredor, a uma sala lugubremente iluminada por velas. Sentado a uma mesa estava um homem encapuchado. Fez um gesto com as mãos. Os raptores deixaram-nos sós. Era um sujeito aparentemente alto e forte e que, quando falou, revelou uma voz  de pessoa educada e habituada a comandar, utilizando uma linguagem cuidada e com boas maneiras:

– Não sei se o meu amigo conhece ou se recorda daquela fala do Hamlet em que ele diz, mais ou menos assim, salvo erro, para sua mãe, a rainha Gertrudes – «Talvez eu seja cruel, mas apenas quero ser bom» – suspirou – na vida e na política também é assim, muitas vezes, para sermos bons, temos de ser cruéis. Por isso, o trouxemos até aqui desta forma desagradável e a esta hora imprópria. Peço-lhe, desde já, imensas desculpas.

Sem saber porquê, Jorge, pareceu-lhe já ter ouvido antes aquele timbre de voz, aquela maneira de  pronunciar correcta e totalmente as palavras, ao contrário do que acontecia entre os lisboetas em que, sobretudo nas camadas populares, muitas das sílabas eram comidas e na sucessão de vogais mudas havia palavras que pareciam bizarras sequências de consoantes. Não falava também com as vogais abertas do Norte e eliminando os vês ou com a pronúncia da sua Beira, com ceceios e abundância de xis, nem com o característico português cantado do Sul. Aquele cuidadoso escandir das palavras, aquele silabar ritmado das frases, que lhe parecia já ter ouvido noutro lugar, estaria próximo de um hipotético português-padrão que alguns homens das gerações anteriores, geralmente formados em Coimbra, caprichavam em manter como traço cultural distintivo do português eivado de simplificações fonéticas e de modismos que os jovens gostavam de utilizar pelas mesmas razões: fidelidade à tribo. O seu pai falava assim também, embora não de forma tão pronunciada. Ele próprio utilizava um português filtrado em Coimbra, dificilmente identificável do ponto de vista regional, ao contrário de Luciano que gostava de exibir, de assumir com exuberância e orgulho a sua condição de beirão, falando ostensivamente axim, como diziam os alfacinhas. Mas não conseguiu lembrar-se onde ouvira já aquela tão correcta como estranha maneira de usar o idioma.

Fez um gesto de assentimento com a cabeça:

– Lembro-me bastante bem dessa fala. E Shakespeare até, salvo erro, diz a seguir, também pela voz de Hamlet: «Isto começou muito mal, mas o pior ainda está para chegar!», qualquer coisa neste género – Jorge recuperara a serenidade e a aparente lhaneza do encapuchado pusera-o, de certo modo, mais à vontade. «Pelo menos»,  pensou tentando tranquilizar-se, «parece ter sido ultrapassada a fase das navalhas».

Uma gargalhada sonora e expontânea saiu por detrás do balandrau negro:

– Essa é boa!  Esperemos bem que não. Esperemos que o pior já tenha passado.

Após uma pausa, o mação começou por indagar sobre as suas preferências ideológicas. Jorge disse a verdade, que era um ferrenho, um convicto adepto da República embora o assassínio do rei e do herdeiro do trono tivesse sido, na sua opinião, um excesso desnecessário e cruel. O homem pareceu ficar satisfeito com a resposta. E depois de um breve silêncio,  desbobinou o seu discurso. Estava completamente ao corrente da sua relação com Margarida e sabia que ele se referira a uma reunião que tivera lugar em casa da jovem actriz e que tinha conhecimento do que se dissera nessa reunião. A bem da Revolução que estava iminente, aconselhava-o a não dar com a língua nos dentes, sob pena de ele e a rapariga virem a ter graves problemas. Até mesmo as suas vidas ficariam em perigo, pois havia questões em jogo que tornavam completamente  irrelevantes as vidas de um jovem bacharel de Celorico da Beira e de uma insignificante actrizita do teatro de revista. «Como o amigo calcula, de ambos os modelos há à venda no mercado a três o vintém!», disse tentando fazer humor para quebrar a tensão que o ambiente e as circunstâncias haviam criado, o que, obviamente, não conseguiu. Jorge esboçou um pálido sorriso, mas não achou graça nenhuma. Cogitou: «Mau, mau, lá voltamos nós novamente às ameaças».

Depois de uma breve pausa, o sujeito disse-lhe também que nunca estivera nos planos da Maçonaria matar o rei e o príncipe real. Nem tal coisa pensar! Que o alvo do atentado sempre fora o João Franco. A mudança do objectivo definido pelas instâncias superiores, fora decidida exclusivamente pelos elementos do grupo à última hora. Isto correspondia inteiramente à versão que os conspiradores tinham combinado tornar oficial. Jorge assentiu com repetidos acenos de cabeça, como se acreditasse.

– Uma surpreendente e desagradável questão de indisciplina que, de modo algum, é habitual na nossa organização. Nunca tinha acontecido uma coisa assim – concluiu, acrescentando com uma nota de dramático pesar na voz – Mas, coitados, também, na verdade, os nossos pobres companheiros pagaram com as suas vidas esse indesculpável e trágico acto de indisciplina.

Na reunião, tinham dito mais ou menos o mesmo. Só que, em vez de indisciplina tinham usado outra expressão, menos respeitosa, mas talvez mais sincera, mais objectiva: «tontice militante», era assim que tinham dito. A versão referida na reunião  da Rua do Ouro  e que ele escutara era a que ficara a valer para efeitos de consumo externo. Jorge continuava a assentir com a cabeça.

Em seguida, o polido cavalheiro ralhou-lhe pedagógica e mansamente, como quem critica uma pequena travessura infantil,  por andar envolvido com a protegida de um senhor deputado, tão respeitável e poderoso:

– Não é coisa que um rapaz decente como o senhor, com os seus princípios, com a educação familiar e a formação académica que recebeu, deva fazer. Não é nada bonito, mas eu compreendo; também já tive a sua idade. Os sentidos imperam sobre a razão, é biológico e natural – fez uma pequena pausa e prosseguiu – Mas isso está ainda no começo, é apenas um devaneio juvenil com pouco mais do que um dia de duração, é melhor terminar já, senão depois vai custar-lhe bastante mais. Digo-lho, meu amigo, por experiência própria – disse, parecendo deveras preocupado com a vida sentimental do rapaz.

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