Falando de democracia: Sobre a homofobia (I)

Hoje em dia, uma das preocupações de quem quer estar politicamente correcto (e de bem com a «democracia» que temos) é a de não ser considerado homofóbico. O termo é relativamente recente, datando de 1971 e terá sido inventado pelo psiquiatra norte-americano George Weinberg, aparecendo pela primeira vez na sua obra Society and the Helthy Homosexual (1972). O raciocínio para a construção do neologismo foi linear = homo+fobia, homo de homossexual e fobia, do grego phobos (aversão, receio, nevrose obsessiva contra algo). Porém trata-se de uma construção apressada, feita com uma impaciência tipicamente ianque. Senão vejamos.
A palavra homo tem duas acepções principais: pode ser um prefixo e um elemento de composição de palavras científicas, indicando semelhança, igualdade, identidade, como por exemplo, no campo da botânica, se diz que um capítulo é homogâmico. O adjectivo significa que as flores que constituem o capítulo são hermafroditas e semelhantes. Numa acepção mais corrente, homo é um substantivo masculino da área da Antropologia e significa o género da família Hominidae, género representado pelo homem actual, ou seja, a espécie humana. Portanto, à letra, teríamos homofobia = aversão à espécie humana. Não era, por certo, esta a ideia de Weinberg. O que se quer dizer com homofóbico é que se trata de alguém que tem aversão a gays e lésbicas. Disseram-me que o termo correcto seria um complicado palavrão: homofilofóbico, ou seja, aversão ao que gosta do igual – Homofóbico é um disparate, embora eu tema que, tal como outros que por aí circulam, tenha vindo para ficar. Mas não é um erro muito importante, desde que saibamos do que estamos a falar. Porque mais do que analisar o termo filologicamente, importa abordar o seu conteúdo conceptual – ser ou não ser contra os homossexuais, eis a questão – isso, sim, é importante.
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Não sou contra (nem a favor) dos homossexuais enquanto tal. Desde cedo me habituei a não perguntar aos amigos ou às amigas qual a sua orientação sexual. Sempre me interessou o que as pessoas pensam, como pensam, como utilizam a sua inteligência e nunca a sua sexualidade serviu de base à avaliação que delas faço, isto embora tenha sido educado no pressuposto de que a homossexualidade é uma aberração, uma doença, uma perversão. Numa época em que os homossexuais viviam na clandestinidade, bati-me contra preconceitos estúpidos, nunca esperando viver até a um tempo em que, contra a muralha de betão erguida pelas convenções sociais, se erguesse uma outra, talvez feita de flores criptogâmicas, mas igualmente imbecil – aquela que os lobies da comunidade gay laboriosamente constroem, pretendendo criar novos preconceitos e instaurar uma nova ordem sexual dentro da qual é crime, ou pelo menos é censurável e démodé, ser hetero. Com a idade, deixei de ter paciência para fundamentalismos, venham eles de onde vierem.
Há mais vida para além do sexo, embora haja quem não aceite essa realidade – a orientação sexual não define totalmente a pessoa, sendo apenas uma pequena parcela do todo que ela constitui. Diz-se que Leonardo da Vinci era homossexual. Sandro Botticelli não o seria. Se eram uma coisa ou outra, o que tem mais importância, as suas opções sexuais ou a sua genialidade como artistas? O que nos ficou destes dois mestres florentinos do Quattrocento não foi o rasto da sua sexualidade, fosse ela homo ou hetero, mas sim as suas obras. Quando nos extasiamos ante A Virgem dos Rochedos, do Leonardo, ou perante A Primavera, do Sandro, o que nos interessa a sua orientação sexual?

Na realidade, existiu e ainda existe discriminação. É impossível negá-lo, sendo repugnante a boçalidade com que os homossexuais são muitas vezes tratados e igualmente odiosa a parafernália de termos, de anedotas, de ditos pretensamente espirituosos que lhes são dirigidos. Porém, alguns dos activistas e militantes dos movimentos de gays e lésbicas têm a sua quota de responsabilidade na discriminação de que são alvo ao construírem o negativo do molde em que tais boçalidades se vazam e forjam. Por exemplo, a «marcha de orgulho gay» é um espectáculo feito para incomodar e chocar o inimigo, a maioria hetero. O resultado., ao ser um espectáculo tão boçal e repugnante como as invectivas tradicionais, é justificar a continuação da injustificável discriminação. A mim incomoda-me não porque me choque, mas porque é, na minha opinião, uma exibição deprimente, um puro acto de provocação, vazio de conteúdo. Orgulho em quê? Ninguém deve ter orgulho em ser hetero ou homossexual – uma coisa ou outra são circunstâncias biológicas ou educacionais, não são privilégios ou estigmas e, muito menos, coisas com que as pessoas se devam orgulhar ou envergonhar. Movimentos de homossexuais? São tão necessários quanto movimentos de apreciadores de vinho tinto (e pensando bem, são ainda menos necessários). Falo por mim: adoro vinho tinto e limito-me a bebê-lo, sempre com moderação, por causa da idade, e se possível de boa qualidade – mas nunca perderia tempo a militar num movimento «pró-tintol» que pretendesse, por exemplo, que se pudesse conduzir sob o efeito do precioso néctar.
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Nem só os activistas gay são responsáveis – a má consciência de quem herdou uma cultura de discriminação violenta (a «democrática preocupação do politicamente correcto») leva gente honesta e sabedora a bater-se por causas sem sentido como a do casamento entre pessoas do mesmo sexo. O casamento é uma instituição que, fora os aspectos jurídicos, meramente contratuais, está em crise. Nunca houve tantos divórcios. Mas os homossexuais querem ter direito a casar e há quem gaste tempo e argumentação a discutir o tema. O casamento tem como objectivo primeiro a procriação. Essa é a fundamentação original, embora depois possam ter surgido outras razões, nomeadamente as de carácter afectivo1. Numa luta pela extinção do casamento alinho já, mas perder tempo a defender que um casal gay possa unir-se sob a bênção de um clérigo ou numa conservatória do registo civil, é coisa que nunca farei. Se querem que as fotografias da boda venham nas «revistas do coração», destinadas a débeis mentais (heteros e não), não precisam de nenhuma lei específica – o direito à idiotice está aí para ser «democraticamente» usufruído. O romantismo de uma união amorosa não pode ser reduzido a meia dúzia de clichés de gosto duvidoso, grinaldas, marchas nupciais, arroz… – ou é algo que vive nos corações de quem compartilha esse sentimento ou é mera e pirosa exibição. Para mim, isto é válido tanto para «heteros» como para «homos». Dou um exemplo pessoal: quando me casei, a minha mulher era ainda menor (tinha 20 anos) e a mãe exigiu que ela fosse «fardada» de noiva. Ou era assim ou só havia casamento quando a pequena atingisse a maioridade, disse ditatorialmente a senhora. Então (como bom democrata) coloquei duas hipóteses: ou eu vestia um pijama durante a cerimónia ou, em alternativa, não haveria fotografias. A minha sogra optou por que não houvesse fotografias. Recentemente, ao fazer investigação para escrever uma pequena biografia do grande filólogo Manuel Rodrigues Lapa, soube que, tendo casado cerca de quarenta anos antes, teve, em situação similar, uma atitude muito semelhante à minha.

Comments

  1. dalby says:

    Carlos gostei do seu artigo e pouco há a adiantar, a não ser de que o casório gay lhe parece (e a mim!) irrisório mas porque você teve o direito máximo a escolher essa máxima social de accomplishment! ELES E ELAS NÃO! E ATÉ LHE DIGO, serão ironicamente ‘eles e elas’ que um dia o irão salvar, porque parece que os straight não o querem muito já…O ARROZ, AS FOTOS E ISSO TUDO, é a imagiologia que atrai muita gente..deixe as pessoas ter direito ao folclore mesmo que pareça ridículo…não conhece as silly love songs? São ridículas mas importantes..Quanto ao orgulho, ele só existe porque eles não podem, à vontade, andar na rua aos beijos e de mão dada como você andou com a sua mulher..nesse dia do orgulho…há a ilusão de que o podem fazer..a ilusão do poder…Não vejo nada contra. Vi em Madrid há 5 anos, 2 milhões na rua….é impressionante… E QUER DIZER ISTO: NINGUÉM PODE IGNORAR QUE EXISTEM! e há muita gente que os vê juntos assim livres e «escandalosos» uma ou outra vez na vida!ALÉM DISSO E PELOS PIORES MOTIVOS JÁ É UM BUSINESS, UM PACKAGE DE TURIMSO!! IMAGINE O QUEEN ‘S DAY EM AMSTERDAM!!!E AGORA..QUANTO AO SEU CASAMENTO, E À SUA SOGRA…EU VOU QUERER UM DIA SABER, AQUI NUM POST, A SUA REACÇÃO QUANDO A SUA FILHA OU FILHO QUISEREM ALGO COM QUE VOCÊ NÃO CONCORDE!!!..QUERO SABER E VER E VERIFICAR DA SUA DEMOCRACIA TAMBÉM!! NÃO É UMA CRÍTICA, É UMA DECLARAÇÃO..vou estar curioso à sua reacção! ENTRETANTO PARABÉNS PELO SUCESSO DO SEU CASAMENTO! SE FOR COM A MESMA, A RELAÇÃO JÁ DURARÁ HÁ 20 ANOS! É OBRA PARA OS TEMPOS QUE CORREM!OUTRO CONSELHO….SE A SUA SOGRA VIER JANTAR AÍ A CASA, DEIXE O SACO DO REMÉDIO DOS RATOS LONGE DE SI E DAS TENTAÇÕES!


  2. […] (primeira parte aqui) […]


  3. […] (primeira parte aqui) […]


  4. Ação democrática legitima (a de afirmar que os homossexuais são perseguidos) de pessoas de grande habilidade de Mídia; a qual cito no Blog que vou sugerir no seguimento para conhecimento e avaliação.
    Quando digo grande habilidade no saber como tratar Notícias e Informações; isto decorre do fato da maneira ruidosa e coerente como conseguem transformar um fato (lamentável é claro) em um factóide (fato maximizado, ampliado acima da sua real razão de ser) de grande repercussão, como é feito diversas vezes que ocorre algum tipo de agressão a homossexuais; cujos números estão muito aquém das agressões contra a mulher e as mútuas entre torcedores, pelo fato fútil de serem torcedores de Times diferentes… Comento isto aqui como elogio à forma inteligente como os homossexuais trabalham os Meios de Comunicação, reproduzindo aqui e ali elementos de Merchandising para aprovar o PLC 122.
    É estranho e difícil para eu entender como os homossexuais e a Mídia que têm dentro da sua comunidade ─ hoje e no decorrer da história ─ pessoas inteligentes semelhantes aos filósofos gregos homossexuais: o grande retórico Lísias e o inteligentíssimo Aristófanes, autor do Mito do Andrógino, ver, obra O Banquete da Platão ─; também artistas, intelectuais, pessoas de várias formações acadêmicas e principalmente as da área das Letras; não atentem para o que chamo de estupidez lingüística, que é o chavão acusativo HOMOFÓBICO (de homo-fobia), sabendo-se que homo (latim, homem), homo (grego; igual, semelhante; que é usado em homofobia) e fobia (grego, φόβος ─ medo com decorrente ação retro-ativa de fugir). Do que se conclui que: ao chamarmos alguém de homofóbico estaremos dizendo exatamente ser aquele que tem o sentimento de medo (fobia) a vítima desse (o criminoso no exato entendimento do termo) que lhe infunde medo.
    Não tenho nada absolutamente nada contra os reais direitos dos homossexuais; entretanto tenho tudo contra O PLC 122 OU A DITA LEI HOMOFÓBICA (este é o título do meu Blog), cujo endereço é http://www.verdaderespeitoejustica.blogspot.com , no qual, demonstro ser esta lei, não aquilo que defende os direitos dos homossexuais e sim, um odioso instrumento de Censura; como também está de maneira sintética (sinopse) em outro Blog meu, endereço  http://www.sinteserespeitoejustica.blogspot.com .
    P.S.: Apenas para reforçar como lembrete e gerar interesse ou curiosidade com relação ao Blog citado. CLAUSTRO + FOBIA, FOTO + FOBIA e algumas outras fobias têm plena assertiva nas suas construções, pelo fato óbvio de que quem está enclausurado ou diante de uma forte luz, desesperadamente busca fugir. O que aconteceu com as pessoas que têm conhecimento lingüístico? E o bom senso, o que foi feito dele (no não haver cuidado com o que se escreve e veicula), quando se mantêm o absurdo chavão chamado HOMOFOBIA, que é exatamente contra aquilo que se quer defender?.. Obrigado e parabéns pela dignidade democrática de respeitar opiniões.
    Atenciosamente JORGE VIDAL

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