Falando de democracia: Direita e Esquerda

A raiz dos conceitos de direita e esquerda estará, segundo sempre ouvi dizer, no facto de nas assembleias políticas anteriores e posteriores à Revolução de 1789, os políticos mais conservadores se sentarem à direita da mesa da presidência e os mais radicais à esquerda. Na Assembleia Nacional (1789), a expressões «gauche» e «droite» eram aplicadas respectivamente a republicanos e a monárquicos; na Convenção Nacional (1792), o termo usou-se para distinguir jacobinos de girondinos. Os primeiros eram defensores dos chamados sans-cullotes, os deserdados da fortuna; os segundos eram deputados que representavam a burguesia ilustrada, hesitante entre a monarquia constitucional e a república.
De então para cá, o campo semântico dos dois termos foi-se alargando e especializando, incorporando contributos e empréstimos vindos de todas as áreas do conhecimento e, da localização, aleatória de duas facções nos hemiciclos da França de fins do século XVIII, os conceitos de direita e esquerda saltaram para a liça das grandes lutas sociais e políticas. O poeta Jean-Arthur Rimbaud disse que era preciso «mudar a vida». Karl Marx, (que, tal como Engels, nunca disse ser «de esquerda»), afirmou que era indispensável «transformar o mundo». Eis aqui duas boas sínteses para o conceito de esquerda, a mudança da vida e a transformação do mundo, numa palavra, a Revolução. A direita, também com contributos os mais diversos, vindos também de todos os quadrantes do conhecimento, procura conservar o que considera serem valores intemporais – reage mal à mudança da vida e pior a todas as transformações do mundo que não sejam regressos ao passado.
Existe desde há uns anos a esta parte, eu diria desde que, na prática, PS e PSD se fundiram num só partido, a tendência para afirmar que os conceitos de esquerda e de direita deixaram de fazer sentido. Outro elemento que contribuiu para a criação desta ideia foi o colapso do chamado «socialismo real». Mal ou bem (eu penso que mal), esse tipo de socialismo era associado à esquerda e, tendo ruído e com ele a dicotomia que justificava os blocos militares, as pessoas, ficando sem uma das suas referências básicas, entenderam que todas essas coisas de que se falou muito depois de 1974, nomeadamente a luta de classes, tinham tido o seu acto final. Tal como num mapa, se não tivermos a indicação de onde se situa o Norte, nunca encontraremos o Sul (e vice-versa). Era, diziam alguns, o fim da História e o fim da Política. Saturadas da interminável querela, as pessoas suspiraram de alívio.
Esta conclusão, de que já não faz sentido a dicotomia esquerda/direita, quando inocentemente tirada pelos cidadãos comuns, é compreensível; porém ouvi políticos profissionais, comentadores e analistas políticos, politólogos, gente com responsabilidade, argumentar no mesmo sentido. E, nesses casos, já não acredito em inocência, tanto mais que foi a «inocência» dos segundos que terá induzido a dos primeiros. Porque, claro, meus amigos, o fim do conceito de esquerda e direita, o fim da concepção da luta de classes e a extinção do próprio conceito de classe, são tudo coisas que interessam muito à direita e à falsa esquerda e à direita travestida. Porém todos esses conceitos só deixarão de fazer sentido quando a vida tiver mudado e o mundo se tiver transformado num local onde não existam desigualdades sociais; a fome, a miséria, a doença, todas as chagas sociais, tiverem sido extintas. O «fim» dos dois conceitos, já era, desde há anos, tema de discussão por essa Europa fora, sobretudo em democracias mais antigas do que a nossa, como a italiana. Vejamos.
Em meados dos anos noventa, saiu em edição portuguesa a obra do italiano Norberto Bobbio, Direita e Esquerda (Destra e Sinistra), com o subtítulo Razões e significados de uma distinção política. Definindo as palavras que constituem o título, diz Bobbio: «Os dois conceitos – «direita» e «esquerda» – não são conceitos absolutos. São conceitos relativos. Não são conceitos substantivos ou ontológicos. Não são qualidades intrínsecas do universo político. São locais do «espaço» político, representam uma determinada topologia política, que nada tem a ver com a ontologia política: Não se é de direita ou de esquerda, no mesmo sentido em que se diz que se é «comunista», «liberal» ou «católico». Por outras palavras, «direita» e «esquerda» não são termos que designam conteúdos definitivamente assentes. Podem designar conteúdos diferentes, de acordo com as épocas e as situações». Isto parece-me correcto – Lembro como a generalidade dos oposicionistas à ditadura do Estado Novo eram considerados «de esquerda», vindo-se a revelar depois da Revolução que uma boa parte deles passou, em função das opções político-partidárias que fez, a ser considerada de «direita». Mais adiante, Bobbio acrescenta: «Convirá também notar que «esquerda» e «direita» são termos que a linguagem política veio utilizando desde o século XIX até aos nossos dias para representar o universo conflitual da política. Todavia, esse mesmo universo pode ser representado, e foi-o de facto noutros tempos, por outros pares de opostos, alguns dos quais têm um valor descritivo forte, como «progressistas» e «conservadores», e outros têm um descritivo fraco, como «brancos» e «negros». O par «brancos- negros», também só exprime uma polaridade, isto é, significa apenas que não se pode ser ao mesmo tempo branco e negro, mas não permite de modo algum perceber quais são as tendências políticas de uns e de outros». Como se infere do que nos diz Bobbio, não se é de esquerda ou de direita tout court; é-se de esquerda ou de direita em relação a um determinado referencial, nem que seja apenas relativamente à mesa da presidência.
Esta «geometria variável» que acompanha a aplicação dos conceitos de opostos em política é um dado a ter em conta, sempre que falamos de «esquerdas» e de «direitas» e que nos deve levar a ser um pouco mais rigorosos. Sobretudo, cuidado com as imitações, como nos avisa o Sérgio Godinho.

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