Falando de Democracia: Lixo e televisão

Woody Allen, disse algures que, na Califórnia, não se deve deitar fora o lixo – «Eles reciclam-no sob a forma de programas de televisão». O problema é que este conselho passou a ser válido fora da Califórnia, mesmo na Europa, particularmente em Portugal. Dissemos num texto anterior que as palavras cultura e televisão estavam a deixar de fazer sentido quando aparecem em conjunto; a palavra lixo, porém, coaduna-se perfeitamente com a televisão que se faz dos nossos dias. E tanto assim é que Gustavo Bueno, o pensador espanhol, criador do conceito de Materialismo Filosófico, publicou em 2002 um livro a que chamou «Telebasura y democracia», ou seja «Telelixo e Democracia». O subtítulo da obra é elucidativo – «cada povo tem a televisão que merece». Afirmação que tem graça, mas que não pode corresponder à verdade. Quando um povo é muito inculto tem tendência a preferir programas fúteis, idiotas mesmo. Isso não significa que «mereça» que lhe sirvam o lixo que ele prefere.

É uma interpretação muito redutora do princípio democrático que obriga a respeitar a vontade das maiorias, esquecendo que é função das instituições democráticas do Estado proporcionar meios para as pessoas elevarem o seu nível cultural e educacional. Mas, aparte este slogan que não sei se é da autoria de Bueno ou de algum «génio» do marketing, o livro é muito interessante. Não conheço tradução em língua portuguesa, mas tudo o que ali se diz sobre a qualidade da televisão espanhola é aplicável, por maioria de razão, à televisão portuguesa que, pelo que tenho visto, consegue ser pior do que a do estado vizinho, embora isso pareça difícil. Para além do lixo servido como entretenimento e que cria dependência nos telespectadores, há a vertente política de um meio que Karl Popper, como já vimos noutro texto anterior, não hesitou em classificar como «um perigo para a democracia»-

O eixo temático do livro de Gustavo Bueno é a observação sistemática que o reputado filósofo fez sobre o Big Brother (Gran Hermano, na versão espanhola), programa visto diariamente por onze milhões de telespectadores. Os índices de abjecção e de indigência mental alcançados em Espanha, parecem não terem ficado nada a dever aos que em Portugal se atingiram. Lembremo-nos de que em França o programa não foi autorizado devido à sua falta de qualidade. Isto demonstra que, mesmo em democracia (eu diria, principalmente em democracia) pode e deve haver mecanismos que impeçam certas «liberdades», das tais que são inimigas da Liberdade. Para quem vê os canais franceses torna-se evidente que, com uma ou outra concessão às tais «liberdades», o nível médio é bastante superior ao dos canais peninsulares. Na televisão espanhola, tal como na nossa, a programação procura corresponder ao gosto da audiência e se ela quer lixo, é lixo que recebe: «A audiência na sociedade democrática é que manda e a televisão-lixo tem que obedecer a esta procura», diz Bueno. Como dizíamos numa crónica anterior dedicada a este tema, a televisão vai progressivamente baixando o seu nível e com a sua impressividade e imensa capacidade formativa, gera um estirpe de telespectadores cada vez mais dependentes do lixo – telenovelas, talk shows, reality shows, concursos, e o próprio lixo vai diminuindo a sua qualidade para poder corresponder à procura. É a tal espiral descendente de que falávamos e que poderá conduzir, segundo a profecia de Marlon Brando, ao extremo de pôr pessoas a satisfazer necessidades fisiológicas em frente das câmaras.

Como referi na tal crónica anterior sobre a televisão, quando o actor disse isto, há mais de quinze anos, parecia um exagero, mas cada vez vai parecendo mais verosímil. Porque, como afirma Gustavo Bueno, os índices de audiência na sociedade democrática é que orientam a produção de novos programas. E Bueno remata o raciocino dizendo que não será por razões éticas ou morais, «mas sim por razões de simples sobrevivência democrática». E cita Lope de Veja, grande dramaturgo espanhol dos séculos XVI e XVII: «homem de teatro que conhecia as leis do mercado séculos antes da televisão: “Se o vulgo é néscio, é justo falar-lhe néscio para lhe dar prazer.”» Será verdade que o néscio e o inculto, por uma questão de preguiça intelectual, têm prazer em que lhes falem na linguagem e segundo os conceitos que melhor dominam, sem terem que fazer esforço mental.

Mas, seguindo este critério, o néscio nunca deixará de o ser.

Comments


  1. Quando a televisão se tornou um negócio, o telelixo começou a ser produzido. Não se trata de dar às pessoas o que elas querem, trata-se tão somente de dar aos accionistas o lucro que eles querem. O resto da conversa é treta, desculpe-me.

  2. isac says:

    Eu também sou bastante crítico em relação à TV e ao negócio associado. Mas eu tenho aqui um pequeno catálogo de uma galeria de arte (Serpente) em que o autor, António Preto, expõe fezes suas em pequenas campânulas de vidro. A instalação/exposição chama-se “não deitar papéis para a sanita” e que eu saiba não passou na televisão. Se calhar não é uma questão de telelixo, mas uma questão de lixo mais generalizada, até porque nesta situação as pessoas é que se deslocaram lá para ver! Não sei o que o Marlon Brando diria disto.


  3. Carlos Narciso: claro que todos os accionistas querem aquilo a que chamam o «retorno do investimento», sem se preocupar com o que produzem, tem razão. Mas, conforme tentei expor, a qualidade da programação é, por esse motivo, condicionada pelo gosto das maiorias. Nunca tem de me pedir desculpa por discordar. Abraço. Isac: o lixo não existe só na TV, já o sabíamos. Isso que me conta da exposição de arte escatológica é curioso, não tinha ouvido falar. De facto, as pessoas parecem gostar de consumir lixo; mesmo litaralmente. Abraço.

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