O amish de Famalicão marcha para Lisboa

Há um amish em Famalicão que, enquanto encarregado de educação, tomou uma decisão radical: não deixar os seus educandos frequentar uma disciplina OBRIGATÓRIA do ensino básico.
Acho muito bem. Tão bem que decidi seguir-lhe o exemplo. Há uns dias, apanhei uma multa por circular a 130 km/hora na auto-estrada. Não vou pagar a multa. Porque acho que 130 km/hora numa auto-estrada é perfeitamente razoável. E tal como no caso do amish de Famalicão, sou eu que faço a lei e cumpro-a se quiser.
Inicialmente, não percebi o que o incomodava na disciplina de Educação para a Cidadania: É a igualdade de género? É a interculturalidade? É a sexualidade? É a participação democrática? É o bem-estar animal e o ambiente?
Acabei por perceber quando li sobre o assunto. Afinal, este católico radical, membro da Associação Portugueses das Famílias Numerosas, já em 2009 andava a lutar contra a educação sexual nas escolas; pouco depois, andou a recolher asinaturas contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo; tem como advogado João Pacheco de Amorim, do Partido Pró-Vida (hoje integrado no Chega), cabeça de lista do Chega nas Legislativas e irmão de Diogo Pacheco de Amorim, ideólogo desse mesmo Chega; esteve recentemente a manifestar-se na Assembleia da República contra um eventual referendo à morte medicamente assistida; faz parte da Plataforma Resistência Nacional (o nome diz tudo). [Read more…]

Ao meu aluno que passou hoje

Meu querido aluno,
Sei bem o que representa o ensino básico, objectivos gerais e não sei quê, mas queria dizer-te isto porque acho que há limites…
País e professores passam o ano inteiro a dizer-te, a ti que frequentas o ensino básico, que deves estudar muito se queres passar. Se não estudares, reprovas.
Olha que não é verdade. Em termos de avaliação, todo o ano lectivo é a maior mise-en-scéne que algum dia conhecerás.
Fica a saber que, estudes muito, pouco ou nada, o resultado será o mesmo. Mais uns níveis 4 ou 5, talvez, mas se te contentares com um 3, basta fazeres figura de corpo presente. Ou nem isso…
Não é o que te dizem, claro. “Estuda, vais ter negativa. Vais reprovar”.
Tretas. Os teus pais sabem que não é verdade. A menos que sejam burros.
Sabes, querido aluno, em algumas escolas os professores têm de fazer uma justificaçāo oficial quando dão menos de 96% de positivas. Numa turma de 20 alunos… é fazer as contas. [Read more…]

A palhaçada

Santana Castilho*

Segundo a Rádio Renascença, o diploma que instituía o modelo integrado de avaliação externa das aprendizagens no Ensino Básico poderia ser vetado. Para o evitar, Governo e presidência da República, leia-se Tiago Rodrigues e Isabel Alçada, terão negociado um regime transitório, que assenta na não obrigatoriedade das provas de aferição e na possibilidade de ressuscitar os exames dos 4º e 6ºanos, ainda que sem contarem para classificação.

O que de mais generoso me ocorre para qualificar este quadro cobarde, gerador de confusão e instabilidade, caracterizado por três modelos de avaliação num mesmo ano lectivo, três, é que se trata de uma deriva de irresponsáveis. A ser verdade o que disse a Renascença, como pode ter passado pela cabeça do Presidente da República vetar um diploma que, por mais sem sentido que fosse (e era) não feria nenhuma disposição da Constituição e leis correlatas? Como entender que Marcelo presidente passe a vetar normativos de governo, porque Marcelo, comentador, os criticou?

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A Educação afunda-se com Nuno Crato a tocar no convés

Santana Castilho *

A saga experimentalista de Nuno Crato continua a saltar de programa em programa com a leveza dos hipopótamos. Chegou a hora do Português para o ensino básico, agora em falsa discussão pública até ao próximo dia 17. Porquê falsa? Porque a apreciação das sugestões produzidas (só incautos perderão tempo a sugerir seja o que for neste contexto) cabe ao mesmo comité de crânios que concebeu o programa que definiu, só para os primeiros quatro anos, os hilariantes 105 objectivos e os kafkianos 308 descritores que guiam, qual lâmpada de Aladino, o respectivo ensino. Para afinar o diapasão da crítica, recordemos três das que passarão a ser as 1.000 metas, do 1º ao 9º ano, do cientismo cratiano:

– “Ler corretamente, por minuto, no mínimo 40 palavras de uma lista de palavras de um texto apresentadas quase aleatoriamente”. Se julgávamos que uma escolha era aleatória ou não era, ficámos a saber que há, ainda, o “quase aleatoriamente”.

– “Escrever quase sem erros uma lista de 60 palavras em situação de ditado”. Se não souberem como determinar o que é “quase sem erros”, não se detenham a inquirir o rigor matemático de Nuno Crato. Ele também não pode saber.

– “Ler pelo menos 45 de 60 pseudo-palavras (sequências de letras que não têm significado mas que poderiam ser palavras em português) monossilábicas, dissilábicas e trissilábicas (em 4 sessões de 15 pseudo-palavras cada) ”. Tivesse a escola assim treinado o aluno Cavaco Silva e o insigne presidente nunca nos teria tratado por “cidadões”.

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Mais Estado e pior Estado

Santana Castilho *

1. A portaria nº292-A/2012 cria “cursos vocacionais” no ensino básico. Formalmente, caiu a intenção arrepiante de obrigar crianças de tenra idade a aprender um ofício. Mas tudo está ordenado para produzir o mesmo efeito. O diploma está abaixo do medíocre: redigido em Português pobre, tecnicamente deplorável quanto à substância, pejado de intenções de parcerias e protocolos indefinidos, não passa de uma nova versão dos Cursos de Educação e Formação, de má memória. O alvo confessado são os que chumbam mais que duas vezes. A razão por que chumbam não interessa. O cinismo não se disfarça quando se fala de crianças de 13 anos a “optarem” por um destino de vida. O acto falhado radica na qualificação de “regular” para o outro ensino, o intelectual, deixando a este, por antinomia óbvia, a condição de “irregular”. Que diria Crato, do “Plano Inclinado”, dos disparates que Crato, ministro, escreveu no artigo 9º da portaria? Que será “avaliação modular”? A que título, quando estatui sobre avaliação, confunde com ela considerações metodológicas e didácticas? Que brincadeira é aquela de quatro relatórios finais, a serem redigidos por crianças do ensino básico, que chumbaram duas ou três vezes, certamente a Português, como instrumento central de uma presumível classificação, a que ministro chama avaliação? Onde fica o seu rigor, com a trapalhada que consagra nos artigos 10º e 11º? Se o aluno se contentar em ficar por ali, o que fez “habilita”. Se quiser ir para o tal ensino “regular”, o que fez já não habilita?   [Read more…]

Provas de aferição de matemática e de língua portuguesa – aumento das “negativas”

Foram hoje conhecidos os resultados das Provas de aferição de matemática e de língua portuguesa do 4º ano do ensino básico (antiga 4ª classe).

Como o próprio MEC reconhece, os resultados baixaram, principalmente a matemática onde a média desceu 14%.

(de 68,3% do ano passado, para 53,9% este ano).

Mas, há um dado esmagador – em 2011 houve 19% de alunos com “negativa” (nota D e E), enquanto este ano foram 43%, ou seja, na prova de aferição de matemática do 4º ano quase metade dos alunos tirou negativa.

A língua portuguesa, o insucesso aumentou 8%.

Perante esta catástrofe, Nuno Crato, o matemático, tem muito para analisar – sugiro que possa começar pelos dados que o MEC divulgou – e só para abrir as hostilidades, um número que surpreende, pelo menos com o olhar de Professor de matemática: houve 59% de “negativas” no capítulo da organização e tratamento de dados (estatística).

Isto não faz qualquer sentido! Ou será que faz, considerando a prova que foi feita?

Ah! Pois é. Se calhar chegou até aqui à procura dos resultados das provas de aferição do seu “filho” ou dos seus alunos. Lamento, mas esses dados são divulgados apenas ao nível de escola, logo sugiro que aproveite para ir até lá.

A Culpa é Minha, Devo Estar a Ver Muito Mal a Coisa

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OS ALUNOS DO ENSINO BÁSICO E DO ENSINO SECUNDÁRIO REALIZAM DIA DE “LUTA NACIONAL”
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Devo começar por dizer que nada me move contra a juventude Portuguesa, e muito menos contra os estudantes em geral, e então se forem dos mais novos, tenho por eles um carinho muito especial, uma vez que dos meus filhos, um ainda está no ensino básico e outro acabou de sair do secundário. Tenho ainda dois sobrinhos no ensino secundário. Devo ainda acrescentar que entendo que todas as pessoas têm o direito a manifestarem as suas opiniões e o seu descontentamento.

Nesta primeira quinta-feira de Fevereiro, os putos de seis, sete, dez, doze, dezasseis anos etc., que frequentam as escolas básicas e secundárias de Portugal, estão em luta.

Cheios da sua (deles) razão, os miúdos e miúdas querem um estatuto de aluno “inclusivo”, seja lá o que isso quer dizer, e querem mais investimento nos estabelecimentos de ensino. Têm nesses pontos a minha total solidariedade. Se se não reivindica, o governo que nos tem desgovernado, e os que o antecederam em nada foram diferentes, nada fazem, assumindo que tudo está bem e de perfeita saúde.

Mas não se ficam por aqui, embora o devessem, pois que já seria bastante para poderem protestar e estar em luta. Os meninos e as meninas das escolas do ensino básico e do ensino secundário querem também o fim dos exames nacionais, e já agora também o desaparecimento da figura dos directores, exigindo ainda a “efectiva aplicação da educação sexual nas escolas”. Aqui, já não entendo a posição destes jovens. Fim da avaliação nacional porquê? Fim da figura da autoridade porquê? Efectiva aplicação da educação sexual nas escolas porquê? Sem avaliação e sem autoridade não se vai a lado algum, e quase não há professor algum capacitado verdadeiramente para ministrar educação sexual, pelo que a sua implementação é o que se vê e seria um total e completo desastre.

Não são pecos a pedir, nem tão pouco a reivindicar ou a exigir. Os putos pensam que sabem bem o que querem, tendo nascido já com todas estas capacidades de luta. A juventude é assim, eu sei, mas esta, só se mostra desta forma por falta de orientação, sempre necessária na formação de qualquer jovem. E os pais e encarregados de educação, de uma maneira geral, deixaram já há bastantes anos de orientar ou de o querer fazer (dá realmente muito trabalho e cerceia a liberdade de cada um), desligando-se da boa formação dos seus educandos.

E já agora, com um pouco de sarcasmo, não poderiam também, na delegação nacional de associações que promove esta luta, incluir os alunos dos infantários?

E se a gente lhes ralhasse? E umas puxadelas de orelhas, e umas sapatadas no rabo, não?

Ai se o ridículo matasse, ou aleijasse, ou se pelo menos se notasse à primeira vista!

Realmente eu devo estar a ver muito mal a coisa.