Ideias feitas

Carlos Araújo Alves

Nunca a direita entrincheirada aceitará que Estaline, ao derrotar Hitler, permitiu que a Europa continuasse a viver em Democracia, nem a esquerda entrincheirada aceitará que Fidel, apesar da inicial libertação do seu povo do colonialismo, da constituição de um dos melhores sistemas públicos de saúde e de ensino, fosse um ditador feroz.
A vida é tecida destas contradições, cuja falta de liberdade de quem se mete em trincheiras de ideias feitas não consegue ver, quanto mais aceitar.

Fidel Castro

Gil Sotero


Minha primeira viagem ao exterior (para fora do Brasil) foi a Cuba em 2009. Voltei depois em 2013. Tive a sorte de conhecer um pouco da ilha enquanto Fidel era vivo. Foi uma viagem marcante da qual nunca esquecerei tudo que eu vi e vivi em Cuba. Li bastante antes de viajar até lá. Quando cheguei a Havana Vieja me surpreendi com os contrastes imponentes e ruínas. As aparências enganam. Por trás daqueles prédios decadentes há um povo culto, hospitaleiro e sobrevivente. A ausência de propagandas comerciais a não ser as frases e imagens do Chê ou Fidel estavam em todo canto que eu ia.
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Y en eso llegó Fidel

Fidel, o alentejano

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Jornalismo cinco estrelas e três quartos. A TVI com o directo dos pobres, os que não têm dinheiro para o avião.

Fidel

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1926 – 2016

As solenes exéquias

tintin_picaros_vivasA delegação cubana parte de Caracas

…e regressa à pátria, sobrevoando Havana

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Vem aí a esquerda comer criancinhas ao pequeno-almoço, valha-nos Deus!

Tudo indica que a Europa mudou, virando à esquerda, seduzida, mesmo que não apaixonada, por um discurso que torna evidente a evidência: durante os últimos anos, acentuou-se uma governação submetida ao poder financeiro e à visão macroeconómica pura e dura, em detrimento do bem-estar dos cidadãos. Como é óbvio, porque o ensina a pedagogia do bom senso, a virtude está no meio e governar implicará sempre a procura do equilíbrio entre o individual e o colectivo, equilíbrio difícil que não se alcança, com certeza, governando contra as empresas ou contra os trabalhadores.

Tudo truísmos, dirão. É verdade, mas, por vezes, tendemos a esquecer o óbvio. Por falar em óbvio, está à vista o resultado da obsessão pela austeridade: as contas públicas continuam a derrapar, o desemprego aumenta, a dívida cresce, o nível de vida dos cidadãos regrediu. Como se de uma religião se tratasse, os responsáveis por estas políticas garantem um futuro paraíso aos que agora sofrem. [Read more…]

Gadaffi tem razão: o mundo droga-se

Depois de Daniel Ortega, chegou a vez de Fidel Castro aparecer em apoio de Gadaffi. Nada de espantar: Fidel prestou-se ao envio de Che Guevara para a Bolívia a mando de Brejnev, e as suas canalhices em nome da revolução que conduziu Cuba ao capitalismo de estado, sob a habitual regência do seu clã familiar são por demais conhecidas.
A argumentação é clássica:

Una persona honesta estará siempre contra cualquier injusticia que se cometa con cualquier pueblo del mundo, y la peor de ellas, en este instante, sería guardar silencio ante el crimen que la OTAN se prepara a cometer contra el pueblo libio.

Mais delirante ainda, no Irão, um exemplo de humor muito negro:

Ahmadinejad está chocado: “Como é que alguém pode bombardear e massacrar o seu próprio povo?

Gadaffi tem razão em duas coisas, como qualquer velho relógio parado. Uma: anda por aí muita droga, e andam a  tomá-las sem saber. A segunda quando choramingou: “A rainha Isabel II de Inglaterra governa há mais tempo que eu e ainda não foi derrubada”. Com duas revoluções em meio século temos de convir que em relação aos ingleses os líbios levam vantagem.

Adenda: como o dono latiu, os cachorrinhos amestrados para os lados do PCP, já levantam a patinha no ar. Quando há uma revolução na Líbia os traidores do costume olham para a América. Não é de estranhar, falamos de velhos amigos de Gadaffi.

Mário Soares, um vómito

Mário Soares não gostou do «reaparecimento público» de Fidel.
Porquê?: porque Soares não gosta de Fidel – e muito menos de o ver vivo…
Soares não gostou do discurso de Fidel.
Porquê?: porque Fidel «não disse nada de importante» – e Soares só gosta dos discursos que digam coisas importantes, como os do Obama e os dele próprio…

Para além disso, pergunta Soares, do alto das suas bochechas flácidas, «Em que qualidade falou? Como velho líder, há meio século, ou como proprietário de Cuba?» – e responde: «Não o disse. Porque realmente não disse nada».

Posto isto, Soares embala na espiral de provocações em que é exímio praticante, ao mesmo tempo que recorda «Fidel há cinquenta anos»; recorda a viagem que fez a Cuba, em 1964 e que o deixou «pessimamente impressionado» com aquele «comunismo à soviética, puro e duro».
E recorda que «muito mais tarde, bastante depois da normalização democrática portuguesa, que se seguiu ao delírio do PREC» – ou seja, depois de ele, Soares, ao serviço da CIA, ter encabeçado a contra-revolução que liquidou Abril e recolocou Portugal nas garras do imperialismo norte-americano – encontrou-se com Fidel «numa reunião da Comunidade Ibero-Americana», na qual também participou Cavaco Silva, então primeiro-ministro.
Diz Soares que, no decorrer da reunião, «Fidel queixou-se da falta de solidariedade para com Cuba, dos países presentes. E citou Portugal, cuja Revolução ele disse ter ajudado».
Ora, perante isto, a «coragem» do Soares não se fez esperar – como é sabido, Soares sempre foi muito «corajoso» no combate aos comunistas e não tão corajoso no combate aos fascistas (talvez por saber que os comunistas não lhe faziam mal e que os fascistas eram capazes de lhe mandar umas taponas ou até mais…).
«Coube-me responder-lhe», declama Soares.
E respondeu assim a Fidel: «O Senhor não ajudou a Revolução, ajudou o PCP, o que é diferente, porque quis fazer de Portugal uma Cuba europeia» – e acrescentou mais umas quantas provocações típicas de um agente da CIA em exercício.
Ora, perante tanta «coragem», Fidel ficou sem palavras… ainda tentou responder-lhe, «mas o Rei de Espanha resolveu interromper a sessão e convenceu Fidel a não responder…»
E pronto, a «coragem» de Soares venceu a «cobardia» de Fidel…

Criado para todo o serviço do capitalismo explorador e opressor, Soares é assim: uma criatura repelente, nojenta, execrável, abjecta – um vómito.

Fernando Samuel, publicado no blogue Cravo de Abril