Acto de Fuga

Acabei de ler uma passagem de Últimas Notícias do Sul de Luis Sepúlveda que mostra como os escritores são óptimos agentes turísticos!! Garentem-nos viagens a baixo preço, de grande qualidade e a lugares paradisíacos, mas sem sair de casa!
Quando lemos ou escrevemos realizamos um ato de fuga, a mais pura e legítima das evasões. Dela saímos mais fortes, renovados e talvez melhores. No fundo, apesar de tantas teorias literárias, os escritores são como aqueles personagens do cinema mudo que escondiam uma lima num bolo e, assim, o preso conseguia cortar as grades da cela. Proporcionamos fugas temporais.
Que sirva este livro (ou outro) como uma boa dica para este verão!

Os livros não são caros

Os livros não são caros.

Os livros são-nos caros, excedem em muito o valor real, são-nos queridos. Estimamos os livros: «Cuidado com o livro», «não rasgues», «não risques os livros», «não escrevas no meu livro», «não empresto a ninguém», etc.

Pegar num livro, abrir um livro e lê-lo com atenção, é um acto de magia e um “acto de amor” como escreveu, Manuel A. Pina. Entrar no livro, dar a mão ao seu autor ou à sua autora deixando-nos guiar, é qualquer coisa. Não há dinheiro que pague essa magia, esse tempo «perdido», esse tempo que dispendemos a ouvir alguém, a sua alma. Alguém que já não está entre nós, muitas vezes e que se torna imortal através dessa «coisa» que é o livro…

Digo isto a propósito do livro que comecei a ler ontem à noite. Duma assentada, li sessenta páginas.

Há tempos fiz referência ao Diário 1941-1943 de Etty Hilesum, uma escritora holandesa de família judia que morreu em Auschwitz em Novembro de 1943 com apenas 29 anos. Comprei-o ontem de manhã. Esperei por ele vários dias. Finalmente chegou o e-mail da livraria: «pode vir buscá-lo». Peguei nele, sopesei-o, cheirei-o. À noite, comecei a lê-lo, «enfim sós»:

(…) querem o nosso extermínio. (…) Não vou incomodar outros com os meus medos (…) e acho a vida prenhe de sentido, cheia de sentido apesar de tudo, embora já não me atrava a dizer uma coisa destas em grupo. (…) tenho de viver a minha vida tão bem e tão completa e convincentemente quanto possível até ao meu derradeiro suspiro, para que o que vem a seguir a mim não precise de começar de novo nem tenha as mesmas dificuldades.

Estas palavras estão escritas numa página apenas de um volume com mais de 300 páginas. Valem ouro, quanto a mim.

A descobrir. Da Assírio & Alvim (colecção Teofanias), com prefácio do padre Tolentino Mendonça.

Os livros e o prazer de os ter para ler e não o fazer

Gosto pouco de respostas, mas por solicitação do João Delgado e da Daniela Major, seguem as minhas ao coiso deste verão.

1. Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?

Existem géneros. A poesia ou se decora, ou se lê e relê, ou não presta.

2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?

Todos os que tenho tentado ler nos últimos anos, mas levo uma longa experiência na matéria, iniciada com os Lusíadas, agravada com as Viagens na terra do abominável Almeida, leitura obrigatória de que me escapei com alguma dificuldade, e um caso curioso de insucesso: dúzias de tentativas para virar as primeiras páginas do Outono em Pequim, até ter chegado ao fim do 1º capítulo. O resto foi devorado nessa mesma noite, a obra completa de grande Boris Vian foi logo a seguir.

3. Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?

É um problema que não se coloca porque deixei de ler livros com mais de 125 gr. Se tivesse mesmo de ser qualquer um do Manuel Bernardes servia, porque cada frase se mastiga sem dentes. [Read more…]

o saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade (IV – Bibliografia)

Beethoven Eroica Variations, op 35

Bibliografia: [Read more…]

Ler como ser

    (adao cruz – o eco) 

(Em tempo de livros parece-me útil este texto de Marcos Cruz)

Ler como ser

Penso se um dos trunfos da escrita não será o facto de que quem lê está envolvido na leitura e, dentro da dinâmica própria em que a leitura se processa, não tem tempo para reflectir sobre o que vem a seguir. Refiro-me, concretamente, a estes textos que escrevo. À medida que os vou escrevendo, cada uma das palavras impressas me ecoa na cabeça e, como qualquer eco, traz uma aparência indefinida, dividida ou multiplicada, não sei, mas em que são perceptíveis várias derivações, relações profícuas, como quando se atira uma pedra a um rio e os círculos nascem uns dos outros, trementes, nunca parados, mas suficientemente nítidos para os podermos cristalizar na memória e, depois, se for caso disso, fazermos uso deles. Mais ou menos assim é, aliás, a vida: nunca pára, não dá para apanharmos verdadeiramente nada a não ser essas impressões e, depois, se for caso disso, fazermos uso delas. Será a vida um eco? Não sei. Mas também não era por aí que eu ia. [Read more…]

De manhã não estou para ninguem

Acordo às dez, com a voz do mulherio na cozinha, conversa abafada, de onde sobressai a voz estridente da D. Maria, a porteira do prédio, sobressaltada pela chegada da Zèzinha.

 

Chegam-me emoções que não sei colocar no tempo, serão certamente as vozes das minhas irmãs no fundo das escadas na nossa casa. Ali me mantenho por algum tempo, enquanto me habituo à claridade que  entra generosa pela ampla janela.

 

A caneca do café com leite fumega na mesinha e enquanto tomo o único alimento da manhã, vou-me fazendo à vida. Aventar, ler e-mails e blogues preferidos e são 11 horas. Hora da ginástica matinal.

 

Enquanto sigo as notícias na SIC-N, vou pedalando como um louco na bicicleta fixa que tenho no escritório, a suar ao fim de 40 minutos vou direitinho para o melhor do dia. O banho, depois do exercício físico, é um prazer sempre renovado.

 

Mais Aventar, leituras e escrever o poste diário, chega a hora do almoço que a D. Emília, a senhora que trabalha cá em casa há 30 anos, apresenta fumegante na sala de jantar. Primeiro pecado, almoçar, enquanto torno a ouvir as notícias, agora nos canais generalistas.

 

Passo pelas brasas, reflectindo nas dificuldades do dia, e por volta das 15 horas saio de casa, para o Tejo, para a Baixa ou para a Guerra Junqueiro. Hora de leitura dos jornais, espraiar o olhar nas coisas bonitas da vida, passear, eventualmente ir ao cinema…

 

Se estou em dia de trabalho, recebo pedidos de ajuda do meu sócio, Vensã, com quem tenho uma empresa de prestação de serviços de contabilidade e finanças, jovem de 38 anos, 1,90 metros de altura e uns 100 Kilos, negro da Guiné: "Dôtor, estás pronto para reunião com cliente?", como se não fosse a primeira vez que me fala no assunto; ou então o meu filho "pá, podes vir ajudar que chegou uma carta das finanças?", e aí vou eu suar as estopinhas a bem desta juventude.

 

A noite prolonga-se até às três da manhã, televisão e livros, Aventar e ficar quietinho a ouvir a noite, a rua e os prédios sem luz, sem carros, a cidade a dormir para outro dia de trabalho.

 

Mato-me a rir com os meus amigos que dizem que não sabem estar sem fazer nada, deprimidos, o dia é longo, e eu a explicar-lhes que o pessoal das aldeias senta-se à porta, a  fazer nada, que é um exercício que explica a serenidade e o prazer de viver.

 

Andam cheios de comprimidos e de doenças mas sempre muito atarefados, e eu a perceber muito bem aquele ditado que diz " trabalhar dá saúde"!

 

Sem dúvida, está aqui, neste vosso amigo, a prova viva!

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