Ler como ser

    (adao cruz – o eco) 

(Em tempo de livros parece-me útil este texto de Marcos Cruz)

Ler como ser

Penso se um dos trunfos da escrita não será o facto de que quem lê está envolvido na leitura e, dentro da dinâmica própria em que a leitura se processa, não tem tempo para reflectir sobre o que vem a seguir. Refiro-me, concretamente, a estes textos que escrevo. À medida que os vou escrevendo, cada uma das palavras impressas me ecoa na cabeça e, como qualquer eco, traz uma aparência indefinida, dividida ou multiplicada, não sei, mas em que são perceptíveis várias derivações, relações profícuas, como quando se atira uma pedra a um rio e os círculos nascem uns dos outros, trementes, nunca parados, mas suficientemente nítidos para os podermos cristalizar na memória e, depois, se for caso disso, fazermos uso deles. Mais ou menos assim é, aliás, a vida: nunca pára, não dá para apanharmos verdadeiramente nada a não ser essas impressões e, depois, se for caso disso, fazermos uso delas. Será a vida um eco? Não sei. Mas também não era por aí que eu ia. Dizia eu que as palavras escritas, ecoando-me na cabeça, trazem-me à superfície da consciência palavras da sua família, ou etimológica ou que com elas rimem, não sei, tal é também a indefinição do critério que preside a essas relações. Sei que, por isso, a minha tendência é, muitas vezes, agarrá-las, como quem ampara estrelas cadentes do seu próprio céu, e acolhê-las no mesmo sítio onde ficaram as outras, ou seja, no papel (definição romântica de ecrã de computador). Estabeleço, eu próprio, assim, outras relações, ecos de relações, ecos de ecos. Acho que quem se dedicar ao estudo disto pode resgatar para a sua ciência o nome de ecologia. Faz mais sentido aí do que onde está hoje. Mas voltemos à questão: quem me lê não tem tempo para se aperceber dos ecos da leitura. Ou melhor, aperceber-se até se apercebe, mas lê logo a seguir aquilo de que se poderia ter lembrado, ou outra coisa. Provavelmente, perde um eco mas ganha um eco de um eco perdido. Donde, e agora recuperando a ideia inicial, talvez um dos trunfos da escrita seja fazer o leitor ver os ecos da vida a passarem-lhe pelos olhos sem que tenha tempo nem vontade de os apanhar. Os ecos são as oportunidades da vida. E, como tudo na vida, fazem eco.

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