os trabalhos que dou à mulher que amo

a cor desta flor é a do amor distraído

Nós, homens, mal sabemos tratar das nossas pessoas.

Não escrevo esta frase com desapreço a nós varões, de qualquer orientação sexual. Em tarefas domésticas, somos um desastre. Em relações amorosas, desatinados. Oferecemos uma flor e justamente escolhemos a que a nossa mulher não gosta. Não é por maldade, é por andarmos sempre a pensar no Benfica, no nosso trabalho, ou, ainda, a olharmos para uma mulher bonita que passa, o que me cheira a um quase adultério.

As nossas mulheres tratam de nós e de todos estes dissabores para os quais nunca fomos ensinados. Assim como não há escola de pais, não existem escolas de maridos, amancebados ou amantes. O difícil é demonstrar à nossa mulher o quanto a amamos. Porque nós, homens, vivemos, desde o Concílio de Trento, numa eterna gaiola

sempre com a mãe dos nossos filhos, mais tarde avó dos nossos netos, primeiro com paixão, depois com amor, ao qual acresce o carinho. Os degraus da emotividade vão descendo até ficarmos de mãos dadas, no meio de uma imensa família que os dois criámos, e dos parentes a que pertencemos.

O que mostra confiança na fidelidade, na companhia, ajuda a não fugir de escapadelas eróticas ao ritmo do adultério, ao ritmo do engano, à dança de caças com lobos, sendo o lobo a mulher que procuramos e à qual confiamos os nossos desabafos. Tristezas da vida!

Eu amo a minha mulher. Enquanto andamos todos preocupados com a crise económica que nos afecta, com as eleições presidenciais em que todos prometem o que depois não fazem, os mesmos que, no passado, causaram a crise que nos doe e não deixa gastar nenhum tostão, porque a vida passou a ser carestia e não a felicidade de estarmos vivos e sãos e com o descanso merecido, depois de anos de trabalho. O problema é que, após um certo tempo, esse carinho acaba em divórcio, pelos trabalhos e desatinos que causámos na mulher com a qual vivemos por contrato civil, por ritual, ou simplesmente porque sim, porque a paixão é libidinal e mantém um casal junto.

Que seria de nós se essas nossas mulheres não existissem, não falo só do engomar do nosso vestuário, bem como para nos ajudar a pensar, escrever, debater, passear, como tomar conta dos nossos descendentes. Os trabalhos que damos à mulher que amamos! As zangas que sofremos da parte dela se não está tudo feito como deve ser: o ponto no sítio exacto, limpar a casa em conjunto, arrecadar entradas em dinheiros a par e passo, sermos companheiros sem medo da vida nem das felonias que este viver a dois, nos causa, quer a ela, quer a nós, varões.

Confesso amar, reconheço ser amado, mas na minha insegurança de vida, ando sempre a perguntar se sou eu essa pessoa que acorda em nós a paixão.

Os trabalhos que dou à mulher que amo, que se fossem propositados, não haveria divindade que os pudesse perdoar. Mulheres que tratam de nós como crianças. Crianças somos em todos os aspectos, como confesso neste texto.

Sempre tenho dito que viver a dois é uma canseira, mas, ao mesmo tempo, essa fiel companheira enternece-nos se, nós varões, soubermos despertar paixão com simpatia, com mimos e carinhos, com amigos em comum, que um longo passado nos faz pensar que a nossa história pessoal, é parte da outra. Que podemos rir juntos, que temos conversa, ainda que atravancada às vezes.

Sim, dou trabalho à mulher que amo, mas também ela se enfurece comigo quando estima conveniente e essa feminilidade que nos atrai fica, às vezes, em banho-maria! Por poucos espaços de tempo, ou acaba em divórcio, separação, raiva…que esta mulher que amo e faz tudo por mim, nem por isso o merece…

Amo essa mulher que me trata como criança, com voz distante e dura, quando estima ser conveniente porque nada é feita a sua vontade, tudo o que fazemos é mau, tudo dela, é uma relíquia…mas, ainda que incuta trabalho dentro dos seus afazeres, é uma Penélope que espera pelo seu Ulisses, esse argonauta que nunca mais aparece.

É esse o meu interesse hoje em dia. A crise económica, que a resolva o governo. A minha, entre os dois…

Beethoven – String Quartet No. 4 in C Minor – Mov. 3-4/4

Comments

  1. graça dias says:

    prof muito obrigado, em nome de todas as mulher em resumo aproveito a frase do seu próprio texto ” Nos, homens mal sabemos tratar as nossas pessoas”.

  2. julia says:

    Caro Professor:
    “…trabalhos que dou à Mulher que amo…”

    O Prof. ama uma Mulher, a quem dá trabalhos?…
    O Amor não é moeda de troca.
    Dar Amor é o melhor dos remédios para todos os “males”.
    Não tem contra- indicação.
    AMOR cura o “enfermo” e quem cuida dele.
    Até amanhã!Até sempre!
    Júlia Príncipe

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