A sopa não é alimento
A sopa
O ser humano é complicado. Como se pode defender ou aplaudir um corte no subsídio mínimo de desemprego, esmigalhando a miséria para 377 euros por mês?
Simplificando, fico-me por uma frase chave da minha educação: “é um fenómeno há muito tempo conhecido que as pessoas que vivem em palácios pensam de maneira diferente das que vivem em choupanas“. Nem todos tiveram o privilégio da educação que tive, admito, e de ter nascido com isto numa parede à entrada da casa, que variou da quase choupana ao pequeno palácio mas nunca mudou a moldura do sítio.
É gente triste, esta que vive em palácios e não percebe a diferença de 10% para quem tem muito pouco, falamos de uns 40 euros, coisa que gastam facilmente num almoço. Nunca entenderão que isso corresponde a umas 15 sopas familiares, nunca tiveram fome ou, pior ainda, não sabem decifrar o que é ter um filho com fome. Gente triste porque tem um destino triste; um dia os homens que vivem em choupanas assaltam-lhes os palácios. Da próxima vez espero bem que não os enviem para campos de reeducação, de má memória e um custo para o estado. Ficarem a viver com 178,15 euros de RSI chega perfeitamente para se atingir a escala da sopa na explicação do género humano.
fotografia Margaret Bourke-White, Georgia, URSS, 1932, roubada-me aqui.
Diga não à ACTA
(Para ligar as legendas inicie em primeiro lugar o filme, a seguir clique no botão ‘CC’ uma vez e, depois do fundo deste botão ficar vermelho, clique outra vez e escolha o idioma na lista que aparece)
A liberdade que desfrutamos na Internet representa uma ameaça muito sensível aos poderes do nosso mundo. É por isso que assistimos todos os dias a tentativas para cercear esta liberdade, para a limitar e estrangular. O Tratado Comercial anti-Contrafacção – ACTA (Anti-Counterfeiting Trade Agreement) – não é mais do que outra destas tentativas. Informe-se neste site.
Rapaziada pró-controlo da internet leva uma PIPA de SOPA
Levaram sopa e recuaram. Uma pipa de sopa, para ser mais exacto.
Sendo quem são e representando o que representam, é natural que não fiquem por aqui e voltem à carga com maior conhecimento de causa.
A liberdade, assim mesmo, faz-lhes comichão e a internet é um espaço de liberdade difícil de controlar. Ora isto, para quem está habituado a pensar que toda a sociedade se condiciona a bel-prazer, é mais do que podem suportar. Voltarão, isso é certo. Mas acontece, e isso é igualmente certo, que as armas estão do lado de quem faz a rede. Ora, sem superioridade bélica do seu lado esta gente não está habituada a lutar. Para já levaram sopa. Ainda vão levar uma pipa de derrotas até controlarem a net. Alguma vez conseguirão?
WordPress, o protesto
Pelas razões explicadas esta manhã pelo Helder Guerreiro, hoje o WordPress acordou assim. Lindo. Um dia pode mesmo ser obrigado a fazê-lo por imposição legal norte-americana. Os governos têm de aprender que a internet é nossa.
Apertando o Cerco
Se visitar a Wikipédia em Inglês, ou inúmeros outros sites, vai deparar com uma página parecida à que ilustra este post. Trata-se de um protesto contra as leis anti-cópia elaboradas pelo mesmo lobby que em Portugal vai fazer aprovar a lei da cópia privada (que goza de uma unanimidade enternecedora na Assembleia da República). As leis em questão são a SOPA (Stop Online Piracy Act) e PIPA (PROTECT IP Act), a primeira lei é da câmara dos representantes e a segunda do senado, com objectivos idênticos.
Queres que te meta, filha?
Por ARNALDO ANTUNES
– Queres que te meta, filha?
N. mostrava-se relutante. Acordara há poucos minutos e a última coisa que lhe apetecia naquele momento era levar aquilo à boca.
Nem sempre fora assim. No princípio, marchava tudo sem qualquer hesitação. Ainda A. se preparava e N. já estava de boca aberta. Agora, tornara-se esquisita e não aceitava qualquer coisa. Nem mesmo o olhar doce de A. a convencia.
– Queres que te meta, filha?
Paciente, A. sabia que a autoridade, com N., não funcionava. Já tinha forçado, no passado, abrindo-lhe a boca de forma violenta, mas ela tinha cuspido tudo. Daí que, nesse dia, A. tenha optado pela técnica da persuasão.
– Não queres, N.? Então não levas a sobremesa. Não gostas disto, também não levas mais nada.
Palavra que disseste! Como se tivesse uma alavanca dentro de si, N. abriu a boca e engoliu tudo, sorvendo até à última gota. Só parou no fim.
Contente por ter conseguido meter-lhe a sopa, A., a avozinha, beijou ternamente N., a netinha, e disse-lhe:
– Muito bem, meu amor. Agora, como prometi, vou meter-te o pudim.
Se não comes a sopa toda, chamo a Fitch
Acto I
Portugal, 2014
Cenário: Uma sala pequena, que também serve de quarto pequeno e cozinha pequena, com uma mesa pequena, um rádio a pilhas pequeno e com um som abafado e foleiro, uma vela pequena a iluminar a cena.
Personagens: Pai, mãe e filha
Filha: Não quero. Mãe: Come, anda, não faças fitas. Filha: Não. Mãe (voltando-se para o marido): António, a tua filha não quer comer. Pai (voltando-se para a filha): Maria, se não comes a sopa toda, chamo a Fitch.A Maria
A Maria
A Maria nunca mais apareceu.
Os olhos, vindos do outro lado do mundo, fundos de ausência, casavam o branco e o negro para dizerem o que a boca não conseguia. O nariz afilava de um só traço o rosto magro, e os cabelos errantes fugiam da testa, cada pedaço para seu lado. A pele transluzia uma imagem por detrás dos vidros, imagem baça do avesso da vida.
Uma dor subtil desenhava os lábios maduros, finamente trémulos, como se estivessem prestes a chorar. Nunca alguma lágrima por eles correu ou voou algum beijo. Apenas o cigarro acendia e consumia a sua virgindade. [Read more…]
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