Tem vindo a ser desenvolvida uma campanha na comunicação social e através de intervenções de responsáveis políticos, que retrata os maquinistas e os funcionários das empresas de transportes como gente extremamente bem paga, beneficiários de regalias inusitadas e injustas quando comparados com o resto da população. De forma indirecta sugere-se que a situação de falência técnica actual da empresa se deve a estas enormes regalias dadas aos trabalhadores em geral e ao maquinistas em particular. É óbvio que esta é uma não questão que além de mesquinha, é odiosa.

Basta consultar o último Relatório e Contas da CP para constatar que a massa salarial, total, anda pelos 122 milhões de euros, enquanto que o passivo da empresa se cifra nos 3666 milhões de euros. Este passivo equivale a 30 anos de salários pelo que podemos descartar o problema salarial da empresa como a sua maior dificuldade.
Mesmo assim poderia haver situações abusivas, mas nunca foram apresentadas de forma conclusiva. Fala-se sempre, por exemplo, do subsídio de assiduidade. Este subsídio é apresentado qualquer coisa de mau, esquecendo-se de referir que estes subsídios foram criados pelas próprias administrações. Esquecem-se também de reflectir um bocado nas consequências de haver estes subsídios. O que acontece é que se um trabalhador faltar, perde não só o seu salário, como seria de esperar, como também o subsídio, por completo, este em vez de ser um prémio é um castigo, dado que o trabalhador tem a perder muito mais do que o simples dia de trabalho. Também nunca é referido que a reforma é calculada tendo em conta o salário base, ficando os subsídios de fora. Visto desta forma, toda a estrutura de incentivos e subsídios deixa de ser uma regalia para passar a ser um meio de controlo e de coação sobre os trabalhadores, o que é na realidade.
Em parte nenhuma se prova com dados concretos o que se está a afirmar. Por exemplo, Marques Mendes no seu obscuro tempo de antena na TVI, refere que extraiu os dados que anuncia da leitura atenta dos relatórios do Tribunal de Contas, tendo o cuidado de nunca nomear os relatórios de onde extraiu essa informação.
Na verdade, pesquisei com algum cuidado os relatórios do TC relacionados com a CP sem nunca conseguir encontrar os dados referidos por Marques Mendes. Duvido mesmo que existam de todo. Tem acesso aos relatórios do TC seguindo este link – se conseguir encontrar os dados referidos por Marques Mendes, não hesite em deixar um comentário.
É fácil identificar o aparecimento desta campanha e seguir-lhe o desenvolvimento:
- 2011-04-01 – SOL – Há maquinistas a ganhar 50 mil euros;
- 2011-07-01 – Expresso – Mãe, quero ser revisor da CP;
- 2011-08-04 – Jornal de Negócios – Muito a fazer nos transportes;
- 2011-10-06 – TVI24 – Marques Mendes sobre as regalias nas empresas públicas;
- 2011-10-07 – Audição do Álvaro na Comissão Parlamentar de Economia e Obras Públicas sobre o PET, esta audição é muito longa, a parte que interessa encontra-se no video seguinte:
- 2011-10-11 – Expresso – Transportes: uma secretária de 65 mil euros?
Nesta discussão não se trata de defender um ponto de vista, opinião ou política para gestão das empresas. O que está aqui em causa é a falsidade pura e simples, são repetidas mentiras, uma e outra vez, de forma constante, de modo a criar na opinião pública uma imagem distorcida e errada da realidade.
Quem faz as afirmações é quem tem de as provar.
Neste post, também eu, não posso provar sem sombra de dúvidas a falsidade destas afirmações, necessitaria ter acesso aos balancetes da CP para o fazer. Mas posso, no entanto, fazer algumas contas. A tabela salarial dos maquinistas é pública, infelizmente há muita dificuldade em interpretar o seu conteúdo. Pode também usar esta cópia da folha de calculo que está desprotegida e permite a quem tiver esse interesse verificar todo o processo de cálculo.
Eu não sou maquinista e pouco percebo de comboios, mas sei que em qualquer profissão que exija atenção, que exija o cumprimento escrupuloso de normas e procedimentos, para já não falar de reflexos rápidos, o número de horas de trabalho efectivo por dia reduz-se bastante. Vamos admitir que para os maquinistas o número de horas de condução por dia se fica pelas seis horas (e estou a esticar a corda neste aspecto). Por isso o número de minutos de condução fica-se pelos 22x6x60=7920 minutos por mês. A partir daqui estimamos uma velocidade média de 100km/h, ou seja temos 22x6x100=13200km percorridos. Assumimos 44 períodos de trabalho num mês. Estamos agora em condições de calcular o “prémio” mensal, usando os seguintes inputs na folha de cálculo:

Acontece que o prémio é função do índice do trabalhador e do número de diuturnidades, estes parâmetros também afectam o salário base, assim, para cada índice de um técnico-maquinista, temos os seguintes vencimentos:

Lembrar que estes valores são antes de impostos, da contribuição para a segurança social e de todos os outros descontos.
Posso também mostrar alguns recibos de ordenado, reais, de ordenados:
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![]() +20 anos de profissão, 4 diuturnidades, topo de categoria |
| (Clique para obter os recibos completos) | |
Penso que o anterior deixa claro o facto desta campanha não tem base em factos reais. Quando muito distorce e lança suspeitas sem nunca mostrar a verdade.
O objectivo? Muito sinceramente não sei.
Este assunto já tinha sido tratado no Aventar, veja aqui e aqui.




Lembro que o mês tem normalmente 22 períodos de trabalho, logo os cálculos do prémio, estão muito exagerados.
Bem escrito, os números concretos ajudam sempre.
Está em marcha uma campanha para desmantelar, privatizar e/ou encerrar a CP. A “guerra” com os maquinistas é apenas uma parte dessa campanha.
Quem está hoje à frente da CP já tem atrás de si uma vasta esteira de fracassos em outras empresas públicas, mas nem vou por aí.
Era importante que os sindicatos do sector ferroviário tomassem consciência da gravidade da situação desta empresa e das intenções reveladas pelos responsáveis, e agissem em conformidade.
As greves sucessivas a que temos assistido, embora legítimas, são prejudiciais à posição dos trabalhadores e sua imagem perante os utentes, só aceleram a degradação da empresa pública ajudando à dita campanha de destruição em curso.
Como se diz no futebol, beneficiam o infractor.
Esta luta, por ter raízes políticas, devia ser travada com inteligência no campo político e não pelos meios usuais (como dantes) como se tratam simples problemas laborais.
Já agora mais números:
-foi noticiado que a CP perdeu em receitas com as greves recentes 8 milhões.
http://www.agenciafinanceira.iol.pt/empresas/cp-greves-comboios-transportes-crise-agencia-financeira/1313073-1728.html
Eu estimo que a CP tenha perdido, por ano, 20 vezes esse valor pelas sucessivas “estratégias” de gestão, olhando para os números de perda de clientes em completo contraciclo com o resto da Europa (em quase todos os países aumentam a procura, em alguns aumentam fortemente)
P/ Johny:
Tanto melhor! Ficamos do lado da segurança.
Julgo que exagerei todos os números, especialmente porque se repetem todos os dias o que, imagino, não deve ser normal. De qualquer forma, para 22 períodos de trabalho temos:
Mas fica por explicar as noticias de que há maquinistas a ganhar dezenas de milhares… Há realmente, ou não?
Simples… não!
P/ leitor:
Eu não posso provar que não há, por definição.
Só quem faz essas afirmações as pode provar – e é fácil, basta mostrar de onde obteve os dados. Infelizmente nunca são apresentados dados concretos, mas se tivermos em atenção os vários sítios onde aparecem estas afirmações, vemos que há coordenação – por isso lhe chamo campanha. Mostrem os recibos de vencimento onde isso aparece. Falam em relatórios do Tribunal de contas onde isso é referido, os relatórios são públicos, indiquem então em que relatório aparecem essas afirmações.
Do que pesquisei e das simulações que fiz, nunca consegui chegar aos números apontados.
P/ José Pinto:
Estou inclinado a concordar consigo.
O que me ilude é a vantagem que isso trás a esta gente: (i) Todo o mundo está a investir fortemente no transporte de carga e passageiros por caminhos de ferro; (ii) Estamos a viver uma crise energética talvez sem precedentes, isso é mais uma razão para apostar nos caminhos de ferro; (iii) Se quiserem privatizar a empresa, esta está no ponto certo para ser retalhada com vantagem para os amigos (não que isso seja benéfico na minha opinião).
Ou seja, mesmo na óptica distorcida desta gente o que estão a fazer não faz sentido, é irracional e mau para o futuro do país.
O único negócio já identificado, indo ao encontro do que disse, é o negócio da concessão dos transportes colectivos de Lisboa e do Porto. Será que querem fazer isto a todos os caminhos de ferro? – Continuo a pensar que não faz sentido, mas estes tipos são muito incompetentes.
Parabéns pelo artigo.
Quanto às notícias sobre salários exagerados compete a quem as difundiu prová-las. Quando muito existirá algum caso extraordinário de alguém que trabalhou 30 dias num mês e acumulou ainda subsídio de férias e/ou de Natal o mês em causa. Os números aqui divulgados neste post são absoluta verdade.O salário médio de um maquinista anda pelos 1300 euros líquidos. Eu, felizmente para a gestão diária da minha vida, ainda sei quanto ganho
António Alves maquinista de caminho-de-ferro (CP) desde 1990.
Infelizmente, os acontecimentos e artigos recentes levam-me a acreditar que os urbanos de Lisboa e Porto, mais os metros respectivos serão concessionados a privados, tornando-se uma renda fixa para o estado e um negócio para os consórcios “amigos” do regime.
Os “Longo Curso” poderão seguir o mesmo modelo ou ser privatizados no sentido clássico, ou vendidos a empresas públicas estrangeiras (à là “EDP”).
Os regionais temo que sejam extintos, e para isso interessa “enterrar” a CP em dívidas e apontar bodes expiatórios, os maquinistas, os ferroviários, os utentes…
O Metro de Mirandela, como é público (municipal) e depende da CP e REFER para funcionar, será imolado em holocausto no altar da “troika”.
Cabe aos maquinistas e suas organizações desmentir e REPOR a verdade dos factos. É um facto que no sector privado não abundam empregos tão estáveis como o dos maquinistas, e isso atrai invejas.
Existe uma campanha em marcha como referido acima, não se deixem levar por governantes nem por sindicalistas!
Sim, faz sentido desse ponto de vista. Mas, a ser verdade, é a suprema estupidez.
Venha-se a comprovar que esta campanha com contornos difamatórios é falsa, não deixa de ser tão “responsável”, como as próprias greves sem fim que esses senhores fazem.
Não deixa de ser lamentável ver alguém fazer afirmações sobre nós, que se falsas, passam uma imagem incorrecta. No entanto, a falta de respeito dos maquinistas para com a restante população é lamentável. E essa imagem já eles não a tiram.
No entanto, se esta campanha é verdadeira…. Esses senhores são piores que os políticos.
A malta até repunha… se tivessemos tempo de antena… foi preciso uma greve afetar o natal e o fim de ano para ver o nosso presidente com tempo de antena!!!
Meu caro Miguel… não estamos à espera de ter esta ou aquela imagem… a população é que tem (se quiser sair do aconchego do sofá e das pantufas) de tentar descobrir a verdade. Pessoalmente estou farto de ler comentarios idiotas da população e não me dou ao trabalho de as refutar. Dou-me ao trabalho de defender o meu posto de trabalho contra as trafulhices e desmando de uma empresa que durante anos e anos foi arruinada com grande (mesmo grande) ajuda do Estado… não de nós Estado… mas dos tipos a quem nós (Estado) pagamos para gerir as nossas contas… com resultados surpreendentes como vemos
Já todos sabemos da parte do governo. O que eu sei, é que estamos todos no mesmo barco, com culpa ou não. E num momento em que trabalhar é essencial, há uns quantos que olham para o muito fundo umbigo.
Se formos a pensar assim, eu prefiro um particular no comando da CP, porque pelo menos dessa forma não fico sem comboio para o trabalho.
Esse particular garantir-lhe-à o comboio se tratar decentemente os seus trabalhadores e não agir de má fé e desonestamente como faz quem actualmente manda na CP (desconfia-se que já não é o conselho de administração). Se aparecer um “particular” desses até eu o apoio..
Só é pena que ninguém fale na poderosa máquina que tem a CP e a Refer em doutores e engenheiros que nada percebem de caminho de ferro, levando (esses sim) as empresas á falência quer pelos altos ordenados e regalias quer pela má gestão que vão efectuando.
P/ Maquinista (#18):
O interessante era podermos analisar o balancete da CP (e de todas as empresas públicas). Seria trivial vermos onde são aplicados os fundos. Os relatórios e contas mostram apenas os grandes números e há inúmeras formas de torturar os números até que eles digam o que nós queremos. Com os dados em bruto já não é bem assim.
Sr Carlos Silva tem mesmo arrogância de maquinista prepotente!
A população não tem que descobrir nada! Está à vista o que o sindicato e a respetiva classe são!
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HENRIQUE CARVALHO
É lamentável que as pessoas deste pais não sejam unidos pela mesma causa,quando vejo alguma classe trabalhadora a reivindicar algo pelos seus direitos acredito plenamente nos seus problemas,será que alguém ainda acredita que a entidade patronal só pensa no bem estar do trabalhador ou em sustentar os seus cargos e garantir tacho para subir de poleiro ????
eu estou do lado de todos os trabalhadores deste pais e não pelos que usam gravata e viajam em carro pago pelas empresas onde trabalham, e a custa do suor dos mais pequenos subirem depois para outras empresas.
Por haver tantos portugueses a acreditar no “pai natal ” é que temos o portugal que temos…
HENRIQUE CARVALHO
Em resposta ao Sr.Miguel quando fala em preferir um particular a gerir a CP, relembro-lhe que os preços que o senhor irá pagar serão bem mais caros dos que paga actualmente,e será se onde os empregados se sentem explorados o senhor viaja feliz ???
Sr. Henrique Carvalho, não me sentiria feliz. Em lado algum gosto de ver abusos de poder e falta de respeito pelo outro.
Os maquinistas têm todo direito à greve, mas por favor, vamos ser responsáveis.
Pingback: Anónimo
Artigo excelente.
Aqui sim retrata-se a realidade da situação.
Pingback: Os maquinistas, esses nababos | maquinistas.org
Consta que o Sindicato dos Maquinistas (SMAQ), farto de suportar a desonestidade intelectual de políticos e plumitivos ignorantes com bancada cativa e bem paga nas TV’s e jornais, e na senda de empresas como a Jerónimo Martins, também vai deslocalizar a sua sede para a Holanda. Promoverá a partir daí, e a coberto do direito europeu, a defesa dos interesses legítimos dos seus associados. Como sabemos, a Holanda não é apenas conhecida pelo seu sistema fiscal e mercados estáveis. É também conhecida por nela os acordos e a lei serem sagrados e o sistema judicial funcionar em tempo útil; não sendo necessário os sindicatos decretarem greves para obter coisas tão elementares como o cumprimento de acordos ou da lei.
Este país do Norte da Europa, onde segundo Max Weber, um dos pais fundadores da moderna sociologia, o rigor, honestidade e apego à palavra dada da sua classe empresarial esteve na origem do capitalismo, é igualmente conhecido por tratar bem os seus cidadãos e trabalhadores proporcionando-lhes um dos melhores níveis de vida do continente europeu. Já na Idade Média os seus agricultores, os primeiros a produzir vacas de modo intensivo e com métodos empresariais e científicos, descobriram que quanto melhor as tratavam mais leite elas produziam. Ainda hoje na Holanda as vacas são mais bem tratadas que o povo e os trabalhadores em Portugal.
outros números que devem ser analizados e que mostram bem para onde vai o dinheiro dos salários dentro da CP: “A CP – Comboios de Portugal EPE é a empresa do Estado com mais chefias na sua estrutura. São 196 e cada um ganha, em média, 3,1 mil euros brutos mensais, em que acrescem as despesas de representação de cerca de 500 euros, avança o Diário Económico. Já ontem o i havia noticiado que as empresas públicas têm em média 60 chefes. ”
http://www1.ionline.pt/conteudo/79451-cp-e-lider-do-ranking-empresas-com-mais-chefias-
Quanto aos privados, não se fiem que será muito melhor! Atentem ao caso do Reino Unido, onde nem sequer há um sistema de controlo de velocidade digno de primeiro mundo e tem havido vários incidentes e acidentes, no mínimo, curiosos.
http://raib.gov.uk/publications/immediate_cause_and_causal_factors_database/immediate_cause___investigation_reports.cfm
Quanto aos privados em Portugal, um olhar atento aos comboios do único operador privado de comboios de passageiros em Portugal e é patente a olho nu a degradação dos mesmos!
a massa salarial era de 200 milhões no início da década
e obviamente não são os 120 ou 130 milhões que em 30 anos de défices sucessivos
contribuiram para os mais de 6000 milhões da REFER CP CP Carga etc
300 mil toneladas de aço em carris novos e 30 mil toneladas em sapatas de cimento e 50 mil tones de brita de granito ajudaram outro tanto….
é de pequeninos nadas que se faz o todo…
e nestes 10 anos os maquinistas da Fertagus foram muito mais seviciados do que os da cp em 40 anos…e nem um dia de greve?
sim os da fertagus são um lixo…deve ser por isso que o pessoal de allhos vedros vai apanhar a fertagus no pinhal novo….
e 1677 brutos há muito poucos….já 2500 brutos há alguns…e acima disso também..
logo nã deve ter os recibos todos
até podiam ganhar 3000 desde que houvesse confiança nas linhas…meter carga no algarve para chegar tudo podre…à funcheira…pode não ser culpa dos maquinistas
são azares da greve às horas extraordinárias…agente adeveria ter feito seguro de transporte né..disse-me um dos meus antigos colegas …e nã ganha só 2500 brutos
ou 35000 por ano…tamém nã ganha 50 mil mas segundo o IRS ganhou 42.876 em 2008….
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