Olho por olho, (resi)dente por (resi)dente

Uma série de acontecimentos ocorridos recentemente, entre descarrilamentos, um eloquente post de alguém muito atento à matéria ferroviária e actos de residência pífios, levaram-me, em associação livre de ideias, ao novo disco dos The Residents, todo ele construído sobre relatos do crescente número de acidentes de comboio que o incontrolável desenvolvimento tecnológico de finais do século XIX ia produzindo e das “rápidas e desagradáveis mortes” que infligia.

Não pretendendo enveredar pela crítica a mais um capítulo da extensa obra desta super-banda – toda a gente ama os Residents, os quatro decoradores de interiores do apocalipse, embora desconhecendo a identidade dos seus membros, quando não mesmo a sua música (música?) -, não posso deixar de assinalar aqui o seu 84.º álbum, “The Ghost of Hope,” na esperança que vos possa assombrar o luminoso fim de semana que se avizinha.

Avaliações por contingentes

jn_besAntónio Alves

Esta notícia prova a ignorância e estupidez generalizada dos gestores portugueses ao mais alto nível. Este sistema de avaliação e gestão dos “recursos humanos”, chamado “stack and rank”, já foi abandonado praticamente em todo o lado. Foi uma moda de gestão, maligna como muitas outras, que contribuiu para a queda e destruição de muitas empresas pela profunda desmotivação e sentimento de injustiça que induzia nos trabalhadores. A Microsoft, que o adoptou, e posteriormente abandonou, admitiu que foi um dos principais causadores da sua década perdida em que se viu ultrapassada pela Google.

Não me espanta que esteja a ser adoptado no Novo Banco. Afinal aquilo agora é dirigido por um tipo que, infelizmente, passou pela CP onde demonstrou que, apesar da verborreia, era completamente oco. Um tal de Ramalho que andava nos comboios a dizer que ia, em 10 anos, transformar a CP na maior e melhor transportadora ferroviária da Ibéria

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Sustentabilidades

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António Alves

O embaixador Seixas da Costa, num postal publicado na sua página no Facebook, em jeito de dúvida/interrogação meramente retórica, levanta a questão da sustentabilidade da Rede Ferroviária que, como sabemos, sofreu uma drástica redução de 1974 até hoje. Ora, esta é a pergunta errada. A pergunta correcta seria: é sustentável uma sociedade/economia sem uma rede ferroviária eficiente?

No mesmo sentido em que o embaixador coloca a questão, podemos também perguntar se a Rede Rodoviária entretanto construída é sustentável. A resposta é não. As autoestradas a sul do Tejo, por exemplo, são todas insustentáveis e o estado paga anualmente mais de mil milhões de euros às concessionárias, as famosas PPP’s, para manter a rede aberta. Muito do nosso continuado, insustentável e impagável endividamento tem como causa a construção da “melhor rede de autoestradas da Europa”. A sociedade, porque as finanças e a economia já sabemos que não, é mais sustentável depois disso? Tudo indica que não. Além de financeiramente arrasada está maioritariamente dependente,  na sua mobilidade, do meio rodoviário, e do consequente consumo de combustíveis fósseis, com as implicações económicas (importações), de congestionamento viário nas áreas metropolitanas e ecológicas que isso implica. No entanto, ainda não ouvi ninguém pedir o encerramento de autoestradas como fizeram com ferrovias.

Outra coisa que o senhor embaixador devia interrogar-se é se algum rio é sustentável sem afluentes. A Linha do Tua, por exemplo, era um afluente da Linha do Douro. Lembra-se?

O estranho caso da remodelação da “meia vida” dos comboios da Fertagus

António Alves
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Fertagus, Estação de Corroios (origem: Wikipedia)

Ontem surgiu a notícia que os comboios da Fertagus iriam ser sujeitos à revisão da “meia vida”. Essa revisão será efectuada pela EMEF e custará 1,2 milhões de euros. Pagará o Estado, já que é este o proprietário do material circulante. A questão deste subsídio encapotado do estado a uma empresa privada já foi por mim abordada em texto anterior. Hoje a questão é outra.

Ora, 1,2 milhões de euros pareceu-me muito pouco dinheiro para fazer a revisão de “meia vida” a 18 comboios. Fiz as contas e deu-me 66 666 euros por comboio. Quem se move nesta indústria sabe que isso não chega nem para pintar um comboio quanto mais para uma revisão de “meia vida”. Procurei mais informação e o máximo de substancial que consegui foi um artigo do Carlos Cipriano para o Público [1].

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Vítor Gaspar, o radical

O deputado João Semedo, do BE, lembrou a Vítor Gaspar que o governo falhou as previsões do défice e do desemprego. Vítor Gaspar desvalorizou isso, recorrendo à metáfora do barco que mantém o rumo, mesmo no meio das vagas alterosas.

Cheio de arremesso no peito corajoso, Gaspar teve, ainda, esta tirada épica, ao nível do Pessoa da Mensagem: “Nada depende do grau de precisão das previsões. O sucesso do ajustamento não tem a ver com o grau com que as previsões se cumprem”. Se é certo que esta afirmação confirma a incompetência ou a desumanidade do economista, não é menos certo que estamos na presença de um homem dominado por excesso de testosterona e subjugado por descargas constantes de adrenalina e é isso que devemos valorizar. Continuar a ler “Vítor Gaspar, o radical”

Atraso de vida

Portugal tem uma longa história e uma das suas curiosidades, decerto será a opção pela via férrea como meio de transporte moderno. Há cento e dez anos, tínhamos uma impressionante rede de caminhos de ferro. Assim, os infelizmente cada vez mais improváveis sucessores de Fontes Pereira de Melo, teriam a obrigação de colocar este transporte numa plataforma de primazia, estudando cuidadosamente aquilo que outros países fazem em matéria de mobilidade e poupança. Mas não, por aqui continuamos com a querida e velha mania do cata-piolhos, ou seja, da procura de um homem providencial em todos os escalões da sociedade, seja ele um gestor de fortunas, um “autoador” de multas que interpreta as normas a seu bel prazer, ou neste caso, um revisor que decida acerca dos direitos de um passageiro.

Esta notícia não devia existir, pois cada vez mais nos arriscamos a ficarmos a “ver comboios” em casa, brincando com um ou outro exemplar da Märklin.. De vez em quando, Portugal bem podia rever os conselhos, velhos de décadas, prodigalizados por Ribeiro Telles. Ainda vamos a tempo.

EDP Adquiriu o Passe de José Silvano

José Silvano, ex-autarca de Mirandela fora, até ontem, o único autarca do Vale do Tua a manifestar-se contra a construção daquela barragem inútil.
Fico triste ao vê-lo ingressar no pântano de traidores-da-consciência e da palavra onde militam fervorosamente Assunção Cristas (apresentada como ministra do Ambiente), Francisco José Viegas, o impoluto José Carcarejo, a Unesco Portugal.
A Unesco, que não os portugueses, coroarão todo este vergonhoso processo desclassificando o Douro Vinhateiro ; espero que traidores como José Silvano e o luminoso laureado arquitecto Souto de Moura tenham já uma parede (de betão) para pendurar o diploma.

Esta gente que agora governais pode ser estúpida. A próxima far-vos-á justiça.

Os maquinistas, esses nababos

Tem vindo a ser desenvolvida uma campanha na comunicação social e através de intervenções de responsáveis políticos, que retrata os maquinistas e os funcionários das empresas de transportes como gente extremamente bem paga, beneficiários de regalias inusitadas e injustas quando comparados com o resto da população. De forma indirecta sugere-se que a situação de falência técnica actual da empresa se deve a estas enormes regalias dadas aos trabalhadores em geral e ao maquinistas em particular. É óbvio que esta é uma não questão que além de mesquinha, é odiosa.

 
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A opinião de Francisco José Viegas sobre a linha do Tua

O Aventar tem falado sobre a Linha do Tua, o Douro, as barragens e a forma como tem sido tratado o dito património da humanidade e o seu VEU (Valor Excepcional Universal). Eu também podia recordar aqui a única viagem de comboio que fiz por esse paraíso ameaçado, mas não o faço – e logo por duas razões. A primeira, acabei de a dizer: fiz apenas uma viagem. A segunda, muito mais importante, porque não o faria tão bem como Francisco José Viegas – que tanto e tão comovidamente por lá viajou – o fez em Maio de 2010, na revista LER, quando ainda não era Secretário de Estado da Cultura.

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Carro ou comboio?

Comboio ICE da DB, com wi-fi enquanto se viaja a 300 Km/h
Comboio ICE da DB, com wi-fi enquanto se viaja a 300 Km/h

Bate-se muito na opção do carro em detrimento do comboio mas vejamos. Uma viagem de carro Lisboa-Coimbra, por exemplo, com duas pessoas fica ao mesmo preço do comboio. Com três pessoas no carro fica mais barato. No carro não há horários estranhos, digamos assim, nem ligações perdidas por instantes.

É certo que os combustíveis têm vindo a ficar mais caros. Mas, por incrível que possa parecer, é um ponto negativo para o carro que não tem tornado a opção comboio mais atractiva. E o que fazem outras empresas de comboios? Pensam em horários convenientes, melhoram a qualidade de serviço, têm tomadas de electricidade nos comboios (sim, em alguns comboios da linha do norte também há algumas tomadas a funcionar) e agora até já têm wi-fi. E, claro, é possível planear toda a viagem num site bem feito, onde até, ó sacrilégio, é possível alugar um carro.

Outra vez os tontinhos do pouca-terra.

Várias vezes o Henrique Pereira dos Santos, do blogue Ambio, tem atacado a ferrofilia, traçando um perfil pouco simpático em relação aos entusiastas do caminho de ferro que, segundo ele parecem ser uns tontinhos capazes de se atarem a um carril para salvar o comboio. Porquê? Simplesmente porque o comboio é giro e os pobres coitados enfermaram, na infância, de um défice de atenção.
Volta agora à carga com a questão Porto-Vigo ou a sugestão (que por acaso também me me parece estapafúrdia) do aproveitamento do canal Lisboa-Corunha. Segundo ele «o facto de haver muita gente num sítio não quer dizer que haja muitos utilizadores de comboio. O facto de haver muita gente só quer dizer que há potencialmente muitos utilizadores de comboio. Mas que esse potencial só se transforma em bilhetes vendidos em algumas circunstâncias.». Caso para dizer: elementar, caro Henrique. Esta paliciana asserção serve para tudo o que tenha rodas e ande e mesmo para alguns quadrúpedes.
Porém, ao contrário do que HPS pensa, nesta altura do campeonato, a questão não é tanto um caso de procura-oferta. Isso era há uns anos, durante a gloriosa década de 1980, quando se começou a fechar em vez de modernizar. Hoje é uma questão de: vale a pena ter comboio que não seja do tipo suburbano, em Portugal? Continuar a ler “Outra vez os tontinhos do pouca-terra.”

Há muitas formas de vandalismo

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Atente-se nesta fotografia. É de uma automotora da CP estacionada em Monte-Abraão e prestes a sair para as Caldas da Rainha. Encontrei-a assim hoje, repleta de graffiti, vandalizada, até com as janelas pintadas. Ali estava a borrada, sem arte nem engenho, apenas uma estampa de um ego desmesurado num miserável acto de exibicionismo por parte de quem não respeita a propriedade alheia e que, neste caso, até é de todos.

Hoje, ainda, encontrei mais algumas formas de vandalismo na CP. Ou melhor dizendo, de auto-vandalismo, se tal coisa existe: Continuar a ler “Há muitas formas de vandalismo”

São burros, são extrema e irreversivelmente burros!

Haverá saída?

Estou-me a referir, neste caso aos elementos do nosso governo, governo esse que tutela a CP e que por inerência define os objectivos estratégicos e mantém em funções os administradores da empresa. Por favor notem que não vou fazer distinção entre as várias empresas que constituem o que em tempos foi simplesmente a CP. Diz a teoria que essa divisão serve para melhor administrar as empresas, na prática as operações foram mal estudadas e ainda pior executadas, entrando as empresas quase imediatamente em falência técnica. A única diferença palpável, parece ser haver muito mais lugares de administradores disponíveis, para distribuir ou acumular. Como convém.

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Metro Mondego, ramal da Lousã e poeira para os olhos

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O assassino de comboios de serviço no governo mandou a primeira bojarda sobre o assunto e João Pinto e Castro veio logo defender o homicídio do ramal da Lousã. Era preciso um idiota útil para o efeito e apareceu um inútil.

O ramal da Lousã seria deficitário se fosse só um ramal. O metropolitano de superfície de Coimbra, Metro Mondego de seu nome, não será deficitário porque com a sua componente urbana garante a viabilidade do empreendimento coisa que foi estudada durante anos, e aprovada pelo governo, que o afirmava há exactamente um ano. Acresce que encerrar uma linha e investir milhões nela para agora querer abandonar o projecto é de tolos.

João Pinto e Castro queixa-se do fanatismo pela ruralidade. Não lhe vou explicar que a Lousã e Miranda do Corvo cresceram como subúrbios de Coimbra precisamente porque tinham comboio, porque isso implicava explicar-lhe um bocadinho de geografia, tarefa complicada.

Eu e os meus conterrâneos, de todos os partidos, somos mais contra o fanatismo pelos transportes urbanos subsidiados, como os de Lisboa e Porto, que nós pagamos sem os usar. O que já pagámos ao longo destes anos chegava para manter o comboio como estava mas nem é isso que queremos: muito simplesmente pedimos que acabem a obra que começaram, e que não inventem estudos, quando se preparam para privatizar todas as linhas de comboio rentáveis, nomeadamente as suburbanas de Lisboa e Porto.

O centralismo é mau mas nós não nos queixamos

Costuma-se dizer que à primeira caem todos e à segunda só cai quem quer e cá pelo Norte nem precisamos que nos empurrem para cair vezes sem conta nos mesmos erros.
Vem isto a propósito da linha da Trofa.
A Trofa fica a 25km do Porto (S.Bento)  (a povoa fica a 30 da estação da Trindade) e tem actualmente a passar na linha de comboio que liga porto-braga cerca de 50 (urbanos e regionais) comboios por dia e este ano ainda ficará melhor servida quando o túnel e a nova estação entrarem em funcionamento.

A Trofa já teve também outra ligação ao Porto, através da antiga linha do Porto (Trindade) a Guimarães e Fafe (derivava a partir da Linha da Póvoa na Senhora da Hora), essa linha foi parcialmente fechada (Guimarães-Fafe) em 1990 . Em 2002 (em conjunto com a da Póvoa) foi encerrada totalmente para ser reconvertida em parte para o Metro do Porto com a promessa que seria posteriormente reactivada até à Trofa (actualmente fica no ISMAI-Maia).

Estamos em 2010, conhecemos as criticas que a linha da póvoa tem recebido, no entanto seguimos em frente.
Claro que poderiamos pegar no dinheiro que se vai torrar nessa linha e criar um sistema urbano de transportes que alimentasse ainda mais a infraestrutura já existente, por exemplo com a introdução de autocarros com percursos urbanos na zona da trofa e arredores que ligassem directamente às diferentes estações da linha porto-braga.
Mas não, temos que cumprir as nossas promessas, porque como sabemos todos os politicos cumprem sempre literal e estritamente todas as suas promessas.

Sem ver passar os comboios

A história recente dos comboios em Portugal conta-se em duas linhas: o PSD tinha deixado tudo prontinho para privatizar, o PS prometeu investir mas nem sequer desmantelou o desmantelamento da empresa.

Hoje ficamos a saber que 232 km de linhas, das ferroviárias, vão ficar em obras (algumas ainda nem projectadas) e sem comboios, quando "a modernização da rede sempre se fez sem interrupção da circulação".

A Refer não investe, os lóbis das camionagens agradecem.

Num país onde se discute a alta velocidade, vulgo TGV, e se pára a baixa velocidade é a lógica do negócio que prevalece.

Esquecendo que além de menos poluente o comboio é um meio de transporte que só não tem futuro se o quiserem remeter para o passado.

Não sei porquê mas desconfio que se Motas & Lenas encontrassem aqui, e não nas estradas, uns concursos à mão de ganhar as coisas seriam diferentes. Quando todas as aldeias tiverem uma auto-estrada talvez as coisas mudem.